Viver com a Dúvida

A dúvida corrói. Começa a ser derramada num canto da nossa cabeça. O que fazemos? Recorremos a uma distração para nos esquecermos dela. Vemos um filme, damos uma caminhada, lemos um livro, vamos ao chat com os amigos. Mas… E quando passam dias e a dúvida ressurge? Ou pior, quando ela aparece mal paramos quietos? Quando não a conseguimos coçar à primeira, ela cresce, alimenta-se da nossa substância cinzenta e pinta os nossos dias dessa mesma cor.
Parece-me importante falar sobre o papel da dúvida nas nossas vidas e da dimensão do seu poder. Defendo que sempre que possível, devemos confrontar a sua origem, ponderar se ela faz sentido ou não. Mas independentemente da resposta, ela pode obviamente sempre permanecer e neste estranho tempo que vivemos, a dúvida é uma certeza que abarca toda a humanidade.
Terei dinheiro para alimentar os meus filhos? Serei despedido quando os estabelecimentos reabrirem? Poderei manter a minha casa? E o meu exame, quando será? E como será? Para os que ainda conseguem dormir, estas questões surgem em sonhos. Os professores entram nos nossos sonhos, o que nos acorda em sobressalto e a transpirar. Maldito seja! A dúvida, até a hora de descanso já conseguiu atingir.
Perdemos a vontade de tomar o pequeno-almoço ou de ir à primeira aula. Ficamos na cama a olhar para o teto. Uma hora passa e ainda estamos na mesma posição. Estes podem ser os primeiros sintomas de uma depressão.
Obviamente que a realidade atual (que muito tem de ficção científica) não permite chegar a nenhuma conclusão de como serão as nossas vidas no futuro. Não conseguimos ter o controlo que gostaríamos sobre elas. Passamos anos a ouvir “Não sofras de antecipação. Vai ficar tudo bem.”, mas isto já não chega. Estamos a criar uma sociedade depressiva e nada é mais perigoso que isso.
É preciso estarmos atentos aos nossos amigos, familiares e conhecidos. Verdadeiramente fortes são aqueles que ainda estão com o ânimo todo, que acordam todos os dias às 7 da manhã e fazem treinos do Youtube religiosamente. Mas a maioria já desanimou, recorre à comida e à Netflix para conforto. Não vemos os nossos avós há meses e não sabemos quando o faremos. Este é outro ponto fulcral, os avós. Estão já nos seus últimos tempos e nem um beijo podem receber. Pelo que se levanta outra dúvida – “Poderei abraçar a minha avó antes dela falecer?”
A dúvida gera ansiedade, tremores, letargia, insónias. Mulheres perdem a menstruação, homens perdem cabelo. O choro torna-se fácil, bem como as discussões. Casamentos destroem-se, amigos discutem.
A dúvida causa doença. Não sabemos o que nos espera, mas sabemos que podemos estar aqui uns para os outros, prontos para animar quem está a perder a força e certamente, quando formos nós a perder a força, alguém há de nos ajudar a reerguer.
Ninguém vivo passou por algo semelhante, pelo que a informação de como lidar tanto tempo com o isolamento é inexistente. Mas por favor, estejamos atentos uns aos outros. Não há nada mais importante do que a nossa saúde mental.
Rita Rodrigues, 4º ano

PARABÉNS, NEM/AAC!

O NEM/AAC transformou-me. As suas portas, peculiares, no polo I, abriram outras, tão inesperadas quanto maravilhosas, na minha vida.
Com o NEM/AAC aprendi a escutar. A escutar os outros, a entender o que podíamos fazer por eles. A escutar as questões pedagógicas, as políticas. A escutar a FMUC. Que casa, a FMUC, que nos acolheu e preparou.
Aprendi a acreditar. A acreditar no todo e só nele. A viver em equipa. Aprendi que nada do que é belo se constrói estando sozinha.
Aprendi a organização, ampla e complexa, de projetos e eventos. Aprendi a responsabilidade e a responsabilização, a ser e estar representando os outros. Aprendi a gerir recursos escassos, que não nos pertencem. Pertencem apenas às funções que assumimos. Em equipa, sempre em equipa.
Aprendi que a amizade não tem fim e que precisamos uns dos outros para superar desafios, concretizar soluções. Aprendi a construir.
Aprendi a viver a esperança, que projetos e soluções adequadas ajudariam a melhorar a vida dos estudantes de Medicina.
Aprendi que a reação prejudica, mas que agir com sensatez e reflexão move montanhas. Aprendi a esperar, pelo tempo certo, para avançarmos. Aprendi que existem respostas novas para questões antigas.
Aprendi a crítica construtiva, a respeitar a diferença. Aprendi a pedir, quando era preciso. Aprendi a ajudar, quando capaz. Sempre em conjunto.
Fui feliz a ser abalroada pela energia de gente magnífica, humilde, dedicada, criativa, rigorosa, inteligente, que, com abnegação, deram tudo o que tinham pelos projetos em que acreditávamos. Pelas causas da verdade, por vezes contra vozes que soavam alto. Mas juntos, sempre juntos, pelas causas do que era certo.
E recebi, de rompante, o amor à Academia Coimbrã. NEM de capa e batina, fundido num só de academismo intenso e marcante, de praxe, reuniões, convívio(s), serenatas, gargalhadas e ternura. O NEM do Hospital do Ursinho, do Fim de Semana Terapêutico, da receção ao caloiro. Das febradas, da FMUC League, dos Cursos de Iniciação à Clínica, da agenda do NEM. Das tertúlias ao luar, na varanda do bar. Dos intercâmbios pela cidade, do processo, surpreendente, de Bolonha. O NEM dos workshops, do aNEMia, dos rastreios à periferia, do voluntariado, da informação sobre boas práticas em saúde. Tantas histórias para contar, com a Cabra como guardiã e companheira.
Aprendi a gerir o tempo, as tarefas e a dedicar-me aos compromissos. Aprendi que funcionários, investigadores e alunos são amigos que vivem na mesma casa, que acolhe outros tantos amigos, em cada evento que púnhamos de pé. Aprendi que os Professores são, como nós, de carne e osso, nos seus cargos de liderança e que o conteúdo, a discrição, a seriedade e a sensatez movem os bons corações.
Chorei de alegria quando tudo corria bem e aprendi a viver as frustrações, quando nem por isso. Aprendi que há dificuldades quando menos se espera. Estivemos sempre, sempre juntos.
Aprendi a humildade, quando vemos os limites, quando não é possível fazer mais. A humildade de assumir os erros e aprender com eles, a rir, depois, deles. Sempre, sempre em equipa.
Aprendi que os livros são só uma parte de estudar Medicina. E que o que não está escrito é uma viagem e tanto, com a beleza e a surpresa de não haver mapa.
Aprendi que o coração tem muito espaço para as amizades tão profundas que o NEM me deu como presente de vida. Laços do “Perto de Ti”, do “Por ti”.
Mais de 10 anos passados, certa do NEM como um caminho de alegria, descoberta, partilha, crescimento, emoções e muito, muito respeito. E muito amor pela Academia de Coimbra.
Obrigada NEM/AAC.
Inês de Mesquita

Tecnologia em Tempos de Pandemia

Percorremos mundos pelos ecrãs dos nossos telemóveis, dos nossos computadores. Entramos em casa dos nossos amigos sem precisar de pedir permissão, ouvimos o som das televisões uns dos outros; aprendemos aquilo que deveria ser ensinado num auditório com os lugares cheios, através dos nossos ecrãs. Ouvimos histórias, contamos histórias. Estudamos, aprendemos, continuamos. Percorremos quilómetros sem sair do mesmo sítio e mantemo-nos informados. É importante que nos mantenhamos informados apenas durante o tempo necessário, é importante desligar e desconectar sempre que possível, sempre que necessário, mas é também importante agradecer tudo aquilo que a tecnologia nos proporciona nesta altura de tantas dificuldades. Milhares de pessoas estão em teletrabalho e continuam com motivação diária para cumprir com as suas tarefas. Os alunos podem continuar a aprender, os professores podem continuar a ensinar, o grupo de amigos pode continuar a cantar os parabéns, porque mesmo que estejamos espalhados pelo mundo, ali, naquele pequeno instante, estamos onde deveríamos estar - juntos. E sentimos essa proximidade, se não sentimos! Creio que é muito em parte graças ao desenvolvimento tecnológico, às redes sociais, às aplicações e a todos aqueles que diariamente partilham os seus interesses e as suas motivações, que isto ainda não descambou. No dia em que ficarmos sem internet, que neste momento é o maior meio de comunicação a nível mundial, aí sim, vamos sentir verdadeiramente o isolamento social. Por agora, a coisa vai-se aguentando. Uma lágrima aqui e ali, mas nada que um sorriso forte numa tela não faça um coração derreter e não solte um sorriso. Por agora, a coisa vai-se aguentado.
Trocamos os nossos locais de trabalho pela nossa mesa da sala, vestimos a camisa e mantemos a calça de fato de treino, acordamos em cima da hora da reunião, desligamos os microfones e ligamos a televisão. É tao fácil decidir aquilo que nos interessa e aquilo que nos desinteressa. Estamos verdadeiramente concentrados no que queremos estar. Ouvimos o que queremos ouvir. É fácil trabalhar em teletrabalho. Mas é fácil cair no esquecimento. Importa continuar a manter presente a ideia de que isto continua a ser o nosso sustento, que mais não seja, psicológico.
É fácil trabalhar em teletrabalho porque temos meios adequados para isso. O que faríamos sem a comunicação social de que tanto nos queixamos, sem as páginas que partilham treinos diários, receitas novas, motivações tão diferentes umas das outras que, com certeza, lá encontraremos a nossa; o que faríamos sem o telefonema do amigo e a videochamada da família que está longe? É assim que encurtamos quilómetros em tempos de pandemia, sempre foi assim só que, antes disto, não compreendíamos a importância porque estávamos à distância de uma viagem, por mais longa que fosse. Hoje estamos à distância de uma cura, que teima em não querer chegar. Os aeroportos estão fechados e o abraço de reencontro encontra-se, neste momento, sobre os nossos olhos, dentro dos nossos computadores.
E desses mesmo ecrãs, das nossas televisões, dos nossos telemóveis, sai um mundo e, a parte mais bonita, é que sai o mundo que quisermos ver, quando quisermos ver. É importante centralizar o separador naquilo que nos faz bem, que nos mantém ocupados, que nos mantém em equilíbrio.
É importante centralizar porque, afinal, estamos todos ligados. Continuamos todos ligados.
Em tempos de pandemia a tecnologia mostrou-se numa das nossas melhores amigas, que nos leva a viagens sem precisarmos de fazer malas, que nos traz as pessoas de quem gostamos sem precisarmos de correr até elas, por muito que queiramos esse dia de novo. A tecnologia trouxe-nos tudo aquilo que não suportaríamos sem ela – a proximidade, a conexão. Estamos ligados e, muitos de nós, estamos ainda mais ligados, agora que fomos obrigados a conectar de uma forma tão diferente que, a meu ver, é tão especial e continua a dizer tanto sobre aquilo que vai nos nossos corações.
Em tempos de pandemia a tecnologia tornou-se numa das nossas melhores amigas para que, assim, continuemos próximos de todos aqueles que são verdadeiramente nossos. Porque, no final, é apenas isso que importa: continuarmos juntos, mesmo que não nos possamos tocar.
Francisca Pinho, 5º ano

Quiz Month #1 - Cirurgia Geral

Se não tiveste oportunidade de responder ao primeiro caso do nosso "Quiz Month", dinamizado pelo NEM/AAC e In4Med no âmbito do Doctor, Crack My Case! para que não percas o jeito durante a tua quarentena, podes revê-lo aqui no site da aNEMia sempre que quiseres!

Este caso clínico foi realizado pelo Prof. Dr. Henrique Alexandrino.




Epopeia dos Tempos Modernos

Saio à rua. O sol incide-me na face com a crueza imposta pelas primeiras horas da tarde e a pele da fronte retesa-se com a estranheza desta interação já tão fora do habitual. Ergo a mão esquerda, que me desafoga a vista, e estaco por uns segundos a saborear o fluxo luminoso que se esgueira por entre os dedos e que me acaricia as falanges com o deleite próprio dos amantes reencontrados. Na mão direita carrego o saco do lixo: despojos de uma vida feita de retalhos vagamente unidos pela cadência rotineira dos dias sempre iguais. Abro as hostilidades com o primeiro passo e prossigo a caminhar com a falsa valentia que me encrava o receio na glote. A rua está desolada. A luz tórrida remete tudo à minha volta ao silêncio e nem o rumorejar fino das folhas se atreve a soar. Os meus passos, ressoando no solo granuloso da berma da estrada, perturbam todo este cenário e infundem em mim a desconcertante impressão de estar a pisar solo inimigo – um inimigo invisível que exatamente por isso em todo o lado se vê. Avisto ao fundo o contentor e os meus passos ato contínuo se apressam, rumando no seu encalce e eu seguindo por arrasto. Os muros somem-se vertiginosos a meu lado, os limites das casas esfumam-se, o espaço acerca-se e a visão afunila tendo em vista só e apenas aquele deslocado objeto de cor verde suja. Detenho-me um instante e aprecio as suas feições disformes, as rodas em desalinho carcomidas de ferrugem, a postura derreada de mendigo sem esperança e a aba da tampa com a habitual gosma sarrenta conspurcada pelas mãos do mundo – tampa essa que se afigura hoje mais corrompida ainda e que num repente se vê assolada por mais manchas pestilentas e repulsivas, brotando em toda a superfície, assomando da minha mente para se estenderem por toda a parte – a mente quando se esforça verga o real ao seu intento, mais ainda se é sequestra do medo.
Abro a tampa com a mão esquerda, uma névoa putrefacta emprenha-me as narinas, o saco ergue-se a custo da mão direita e este desenha um arco por sobre a minha cabeça caindo desamparado sobre os seus semelhantes, desprovido de charme e graça, posando desleixadamente sobre a massa sobrante de outras casas. Deixo cair a tampa com estrépito. Contemplo uma vez mais este objeto deselegante e tosco e sinto- me inundado por uma profunda empatia: depositário de memórias – retalhos de jantares passados em família, a nabiça e a cenoura empregues na sopa de carinho maternal, a cebola do refugado inundando a casa de aroma a aconchego e calma, o morango desfolhado, a batata descascada, a laranja posta a nu, um sorriso, uma garfada que nos transporta para a nostalgia de uma infância perdida no tempo e que é de novo resgatada – tudo isto amalgamado agora num entulho amorfo que apelidamos de lixo, sobras, despojos, um sobejo, nada: pacientemente aguardam a chegada do homem do lixo, ou recolector de memórias, que as irá encaminhar ao seu eterno descanso. Um ardor na mão esquerda arrebata-me de rompante para fora dos meus pensamentos. Dou meia volta e prossigo no mesmo caminho, por passos diferentes retomando a casa.
As pernas bambeiam-me, caminho à banda pelo peso da mão devassada que agora sinto em fogo: fagulhas chispando da ponta dos dedos, contraturas e pruridos irrompendo da carne, nevralgias faiscando e todo o tipo de cáusticos e emplastros corrosivos que agora levo comigo e que vão presos à mão esquerda. Surge-me um desconforto no sobrolho direito (Não coces), já estou quase a chegar à porta e sinto o coração a bater na boca, novamente o sobrolho (Não coces). Pego na chave com a mão direita (Toquei na tampa com a mão esquerda?), introduzo-a na fechadura e dou uma volta, alegrando-me com o retinir concordante das engrenagens que me concedem a entrada. Escuso as habituais saudações e vou direto ao quarto de banho.
Abro a torneira com a mão direita (Sim, foi com a mão esquerda que lhe toquei), mergulho mãos ambas no fluxo retemperador da água canalizada, com a mão direita arranco uma porção de sabão ao doseador e inicio a dança concertada dos dedos. As mãos enlaçam-se uma na outra e entrançam-se numa orgia de espuma, o aroma perfumado de orquídeas embebeda-me os sentidos, requebra-me o olhar e o peito vai, pouco a pouco, deixando escapar o ar que havia feito refém, suspirando de alívio e de prazer. Abandono a divisão com os humores novamente em equilíbrio, sentindo-me pleno e em sintonia com estas paredes intocadas e o afago asséptico do ar que respiro. Dirijo-me à sala e deito-me no sofá. Sinto-me em paz e deixo-me embalar pelo banho reconfortante dos estofos higienizados. Fecho os olhos finalmente rendido à segurança do lar, e deixo desfiar a epopeia dos sonhos que agora acontece na parte de dentro das minhas pálpebras.
Samuel Tavares

57ª Edição da aNEMia

Caros leitores,

Em tempos conturbados de doença, dor e medo, em que a natureza comunitária e da vida em sociedade que tanto caracteriza o Homem nos é um pouco roubada, resta-nos fazer o melhor que podemos com os meios tecnológicos que temos ao nosso dispor – nunca pensámos que tão cedo chegaria o dia em que uma SMS equivale a um sorriso ou um GIF equivale a um abraço.
Também neste momento de distanciamento e isolamento social damos por nós com horas a mais para ocupar, livros insuficientes para ler e muito poucos filmes ainda por ver. Vemo-nos entediados… Logo nós, que estamos sempre à procura de experiências, aventuras – ou, se não é o caso, pelo menos procuramos incessantemente manter uma rotina que nos preencha.
Embora não possamos dar-te a nova edição da revista aNEMia em mão, para que possas folhear e partilhar com os teus amigos, não podíamos deixar de fazer chegar até a ti a 57ª edição da aNEMia, desta vez completamente rendida ao formato online. Ainda que concordemos que não é o seu formato ideal (há melhor do que o cheiro do papel acabado de imprimir ou que a sensação de abrir uma revista/livro pela primeira vez?), nada neste momento da nossa História é ideal. Por isso, devemos colher os frutos daquilo que temos em mãos e, por isso, convidamos-vos a aceder à versão digital da nova aNEMia, agora disponível no issu do NEM/AAC (icone do meio do lado direito na versão desktop).
A 57ª edição da aNEMia é, parece-nos, a mais heterogénea. Trazemos-vos um caleidoscópio de pensamentos, temas distintos e muitos sentimentos. No mundo caótico em que vivemos atualmente, escolhemos um conjunto de temas que por vezes assustam, chocam e intimidam. A desinformação é o pior inimigo da mente que fala e esperamos contribuir para que possam viver de olhos abertos para as questões mais importantes do dia a dia ou, pelo menos, do nosso enquanto estudantes. Conheçam os órgãos que nos representam, as dores que nos são comuns e as novidades que nos ameaçam.
Tudo isto sem esquecer a contribuição especial da revista mRNA, do curso de Bioquímica, a quem nos aliámos para tornar ambos os projetos ainda mais aliciantes! Lembrem-se sempre que é fora do nosso conforto que as coisas extraordinárias acontecem!
Infelizmente, a situação vivida atualmente com a pandemia e a necessidade de distanciamento levaram ao cancelamento inevitável do nosso evento de lançamento, que pensámos para vós com tanto carinho. Lamentamos essa situação, comprometendo-nos a colmatar esse vazio com mais novidades que preencherão o vosso tempo de formas diferentes!
Lembrem-se! As portas da nossa casa estão abertas para vos receber. Sempre que quiserem fazer parte deste projeto, enviem e-mail para anemia@nemaac.net, anónimo ou não, pois teremos todo o gosto em partilhá-lo com vocês. Obrigada por nos lerem, por nos procurarem e por nos ajudarem a dar um salto neste projeto. O progresso, mesmo que seja pequeno, é sempre um passo para a frente no caminho até aos nossos sonhos.
Fiquem em segurança!

A Coordenadora da aNEMia, Sara Cardoso, 4ºano
O Editor Assistente, Filipe Barbosa, 4º ano

Saúde Mental

Hoje venho falar-vos de saúde mental. Imaginem-se num Mundo paralelo a este, não tão paralelo como queríamos porque inevitavelmente para lá caminhamos, onde a saúde mental de cada um de nós estaria a ser levada por caminhos apertados. Imaginem-se em situações desconfortáveis para vocês, para os vossos corpos e corações e aniquilem a necessidade de se sentirem bem com isso, ficando, assim, a vossa sanidade mental na primeira linha de combate. E querendo eu trazer-vos motivos para acreditar que conseguimos tudo aquilo que quisermos e ultrapassaremos este momento de maior dificuldade mundial – na saúde pública, na economia, na política, na gestão de países, na rutura de stocks - assusta-me que se fale (porque se fala, se olharmos com olhos de ver) na prioridade na saúde mental.
Em todo o Mundo existem, neste momento, milhares de pessoas fechadas nas suas casas e, aqueles que não se encontram com as portas trancadas à pandemia, encontram-se fechados em si: profissionais de saúde e profissionais na linha da frente no que toca à necessidade de bens essenciais. Essencial é, também, olhar para isto e parar para pensar. Pensar no impacto gigante que este processo trará às nossas vidas, num futuro que ainda não sabemos quando chegará. Não sabemos para onde caminhamos, mas caminhamos juntos. Importa olharmos para as nossas rotinas que agora deverão ser sobrevalorizadas, redefinir objetivos e mantermo-nos conscientes, mas em equilíbrio, como uma corda bamba entre a preocupação e a satisfação de estarmos aqui.
Ninguém pode sair para tomar o café da manhã na esplanada, ouvir a peça de teatro que dá as boas vindas ao fim de semana, passar à frente na fila do supermercado porque estava demasiado grande para a nossa pequenez e os segundos contados da nossa agenda levam-nos a pedir permissão para passar à frente.
O mundo foi chamado a abrandar e, individualmente, cada de um de nós teve de parar ou teve de acelerar na luta contra a exponencialidade da curva epidemiológica. O fim que queremos é o mesmo, nisto a humanidade está de mãos dadas. Foi preciso algo invisível e poderoso para nos fazer dar as mãos, ironia do destino ou não, sem nos podermos tocar.
E falando daquilo que me preocupa para além de tudo aquilo que nos preocupa: quero falar-vos de saúde mental.
Mantenham hábitos de vida saudável: criem um ritmo de sono adequado às vossas necessidades, saiam da cama como se fossem sair de casa (e saiam do conforto do pijama), alimentem-se bem, sem exageros mas com espaço para aquecer o coração, pratiquem exercício físico, mesmo que o sofá e a vossa inércia queira falar mais alto, ouçam aquilo que vos faz feliz a cada dia e recordem-se disso todos os dias quando acordarem, leiam, mas, acima de tudo, escrevam. Escrever consciencializa-nos. Permitam-se. Não se descuidem, não deixem de olhar pela janela e ver a coisa pelo lado bom. Mantenham a casa limpa e o cabeça no sítio, atualizem-se com informações fidedignas e apenas durante o tempo necessário para não gerar em nós (ainda mais) ansiedade.
Preocupa-me o impacto da pandemia na saúde mental. Preocupa-me que quando possamos sair à rua e nos socorrermos à liberdade, de livres pouco teremos. Preocupa-me os profissionais que depois da guerra, terão pós-traumas importantes e que necessitarão de ajuda para serem ultrapassados. Preocupa-me que não procurem ajuda. Preocupa-me as populações, desde os mais novos aos mais velhos. Temos que tomar medidas individuais que nos permitam sermos melhores e continuar a alcançar objetivos e metas que antes nos pareciam insignificantes.
É urgente cuidarmos uns dos outros, mas é urgente que cuidemos de nós.
E, no meio da incerteza e da imprevisibilidade do destino, não se esqueçam de acreditar. Não se esqueçam de ser pacientes, compreensivos e amigos deste que é o único planeta que temos para estar. Encontrem-se. Acreditem. Vamos sair. Vamos voltar a sair e nada vai ser como antes, o que não será necessariamente mau, porque temos em nós as ferramentas necessárias para nos adaptarmos à mudança desde que nascemos.
Cuidem de vocês e cuidem da vossa saúde mental, porque sem ela, aí sim, estaremos perante outra crise mundial.
Eu acredito! E tu, acreditas?
Francisca Pinho, 5º ano

O Civismo no Egocentrismo de uma Sociedade Individualista

Enceto esta reflexão, referindo que todos somos agentes de saúde pública e que, no pugnar da presente pandemia, se revela impreterível o civismo, que preconiza o respeito pelo outro.
Nas palavras de José Saramago, “o egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses”. Daí que, me indigne que haja prevaricadores que se esquivem das medidas de contingência ao frequentar, desnecessariamente, espaços públicos movimentados, sendo relevante sublinhar que quarentena não é sinónimo de férias e que a recusa deste regime quando obrigatório em confinamento profilático pode constituir difusão voluntária de doenças, punível pelo código penal.
A verdade é que a infeção por SARS-CoV-2 é inócua para uma grande parte das faixas etárias quando saudáveis, com quadros benignos ou subclínicos. Não obstante, emerge a necessidade de responsabilização social no sentido de proteger grupos de risco, a citar pessoas idosas, imunodeprimidas e com quadros oncológicos e de doenças crónicas respiratórias associadas na medida em que os recursos do SNS são limitados no que diz respeito a ventiladores e camas nos Cuidados Intensivos, passando o intuito destas medidas de contingência por aplanar a curva de infeção, evitando picos de infetados num curto período temporal e assim o colapso dos sistemas de saúde. Perceba-se que o SNS tem lacunas face ao desinvestimento gradual e que, caso não se tomem medidas de prevenção e não reativas, se pode assistir a um cenário de calamidade como nunca antes visto em décadas.
Já no que concerne aos mecanismos biológicos da doença, sabe-se que o vírus SARS-CoV-2 se blinda ao recetor ECA2, o que tem inerentes implicações terapêuticas. Sabe-se ainda que estes recetores abundam no aparelho respiratório inferior e que, por cada década de vida, o seu número aumenta 20%, o que pode explicar a maior vulnerabilidade dos mais idosos. Sabe-se também que é altamente contagioso e manifesta-se assintomático na vasta maioria das crianças, o que pode ser preocupante pela disseminação “silenciosa” do vírus.
Entenda-se para os mais distraídos que a mortalidade por gripe sazonal não atinge os 0,1%, situando-se a taxa de letalidade do vírus SARS-CoV-2 entre 2% a 4%, sendo que para tal discrepância se deve essencialmente a inexistência da denominada imunização cruzada, que se adquire de um inverno para o seguinte e que confere alguma defesa ao vírus mesmo que mude, e naturalmente de vacina.
Assim, reitero a necessidade impreterível de se evitar o contacto social próximo e aglomerações, de manter uma higiene vigilante, lavando as mãos como sendo a medida mais profícua e também afastando as mãos da boca, nariz e olhos. E, acima de tudo, fiquem em casa, saindo só o estritamente necessário.
Ainda importante, denoto clara preocupação com a irracionalidade gerada pelo alarmismo desproporcionado que conduz as pessoas a irromper pelas farmácias e supermercados, comprando desmedidamente soluções desinfetantes, máscaras – que são exclusivas para grupos de risco-, papel higiénico e bens alimentares.
Finalmente, no papel de estudante da área médica, apelo veementemente a que todos sejamos meios condutores de exemplos, respeitando as normas e procedimentos da DGS, deixando um agradecimento a todos os profissionais de saúde pelo trabalho titânico e incansável na salvaguarda dos seus doentes, mesmo podendo também contrair a doença.
Em suma, termino enfatizando que a tempestade irá passar se estivermos todos no mesmo barco, mesmo em águas agitadas e ainda vastamente desconhecidas, e se cada um de nós cultivar o altruísmo e o civismo, mesmo no egocentrismo de uma sociedade individualista.

Luís Bernardo Damasceno Fernandes, 3º ano

Escrita Criativa - Ana Sousa

Aqui, agora. Final do dia. Fugaz novembro, terceiro dia da semana.
Eles estão sentados, despertos. Ouvem-se vozes abafadas pela luz incandescente. Não há brisa nem dia, mas um pedaço de noite fria lá corre pela janela. Esgota-se nas palavras.
Fechados numa sala, escutávamos o silêncio dos objetos. Não éramos muitos. Perdidas já, havia mesas, cadeiras e um quadro em branco que parecia preencher uma divisão quase vazia. Ou quase cheia.
À minha frente, uma rapariga sorridente e atenta, fixava um ponto no horizonte que me trespassava. Cabelo cor de mel, com um gancho em forma de borboleta dourada como que a querer levantar voo e ser livre.
Sinto-me pequena. Inerte, como se os meus pés estivessem suspensos no ar. Impera a presença de olhares sobre mim, como um bisturi que me lacera. Olhares que não foram convidados.
A pessoa que está à minha frente só pode ver o que não posso esconder, e isso incomoda. Mas também já não importa. Já só vejo chamas e sufoco, tudo à minha volta entra em combustão. Imagino as cinzas do que virá depois. Depois de me ir. Daqui, de mim. De todos. Tenho fósforos no bolso e quase que queimam.
E vou voar, como um corpo que flutua na água.
A médica olhava a doente de forma minuciosa e apenas a mesa as separava. Sabia que a sua decisão ia definir tudo dali para a frente. Parecia bem, estável. O último surto psicótico já quase havia sido esquecido. Aparentemente serena, a doente mexia na borboleta dourada que adornava o seu cabelo, tentava esconder as suas intenções. Mal podia esperar por ser livre, deixar os comprimidos, as conversas dissimuladas. Iria cometer a sua última (in)sanidade. Como (in)sana que era.
Como se o mundo fosse ressurgir.

Ana Sousa, 2º ano

Efeito Borboleta

Depois de sair da crisálida, a borboleta possui ainda pequenas e macias asas antes destas assumirem a sua verdadeira forma e endurecerem. Descobrem depois a leveza do primeiro voo e, nessa inocência, voam simplesmente…
Em momento algum nos é dito de que são feitas as coisas ou como são feitas. Vamos observando e experimentando aquilo que outros observaram e experimentaram e, dessa forma, vamos decidindo quais os atalhos que queremos percorrer. É um caminho fácil? Às vezes é! Umas vezes, tem apenas algumas facilidades. Outras, é “assim-assim” e em casos menos raros do que o que se possa imaginar, é um “assim- assim” que se prolonga indeterminadamente até não sabermos mais qual o princípio da questão. É verdade que aos 18 anos (ou por volta disso), temos de fazer escolhas. Importantes, assim o dizem. Depois, é só depositar todos os nossos sonhos, esperanças e capacidades nessas escolhas e esperar que o resto “venha por acréscimo”. Mas nem sempre esse acréscimo acrescenta nem tão pouco sabemos se nos vamos aperceber disso tardia ou prematuramente. Suponhamos que faz tudo parte do processo complexo que é a transformação de um jovem adolescente (des)preocupado num jovem adulto consciencioconformado, passo a expressão.
Ora, todo este discurso motivacional e retórico em forma de desabafo serviu para finalmente iniciarmos o tema central desta pseudocrónica: Concurso de Medicina para Licenciados. Alguns devem estar a pensar… “Isso existe?”… “É um tipo de medicina alternativa?”… “É uma maneira mais fácil de entrar em medicina?”… “É uma realidade disparatada perante a problemática das vagas para a especialidade nos dias de hoje?”
Sim. Não. Depende do ponto de vista. Disparate não creio, complicado talvez. Vamos então conversar.
Ingressar no Mestrado Integrado em Medicina nem sempre é fácil e as histórias divergem. Se, por um lado, temos aqueles que sempre quiseram entrar, conseguindo ou não, temos, numa outra esfera, aqueles que se mantiveram num limbo de escolhas polivalentes e que acabaram por deixar a hipótese de lado por diferentes razões. Estes últimos acabam por navegar sob efeito de outros ventos, muitas vezes sem saberem que acabarão por chegar, na proa, ao mesmo porto e com uma bagagem a transbordar.
Licenciados, Mestres, Doutorados (ou mais, porque o céu é o limite), muitos deles tentam a sua sorte neste concurso que vai passando despercebido a quem de nada disto percebe.
Na verdade, é um concurso que faz lembrar o ingresso no ensino médico, por exemplo, dos EUA. Lá, não é possível iniciar o curso de medicina logo após o ensino secundário e tem de haver a conclusão prévia de uma licenciatura noutra área (que tem de incluir as disciplinas pré-requisito para a posterior candidatura).
Anualmente, todas as Escolas Médicas portuguesas abrem vagas por este concurso para o Mestrado Integrado em Medicina, e estas podem ser preenchidas até 15% do numerus clausus previsto pelo concurso regular de acesso, segundo a legislação atual. Contudo, a tipologia do concurso varia de faculdade para faculdade. Foquemo-nos apenas no regulamento imposto pela FMUC.
Na candidatura, há que ter atenção aos procedimentos e prazos do regulamento, para que nada falhe.

QUEM É ADMITIDO A CONCURSO?

Os candidatos terão de ser titulares de uma licenciatura ou mestrado integrado nacional, em áreas afim da Medicina (Biologia, Bioquímica, Ciências da Nutrição, Ciências do Desporto, Ciências Farmacêuticas, Cursos de Tecnologia da Saúde, Enfermagem, Engenharia Biomédica, Medicina Dentária, Medicina Veterinária e Psicologia) e satisfazer o pré-requisito fixado para acesso ao curso no respetivo ano letivo (este último ponto é exatamente igual ao contingente normal).
Não será novidade dizer que a candidatura está sujeita a um emolumento no valor de 100€ (relativamente ao panorama nacional, até é simpático por ser dos menos dispendiosos) e que os devidos documentos (formulário de candidatura, comprovativo de pagamento, BI/CC, documentos oficiais comprovativos da conclusão do ensino secundário e de licenciatura ou mestrado integrado) têm obrigatoriamente de ser apresentados e as candidaturas que não cumpram qualquer um dos requisitos são liminarmente indeferidas pelo júri competente.

COMO TUDO SE PROCESSA?

O concurso é, antes de mais, dividido em duas fases.
Na 1ª fase, são aplicados critérios de seriação que se prendem com três etapas fundamentais que são, individualmente, cotadas para 20 pontos, num total de 60 pontos: idade (até aos 29 anos, não há penalização e são atribuídos 20 pontos, começando a ser descontados pontos a partir dessa idade) – e vocês dizem “Fácil!”, ao passo que eu digo “Olhem que às vezes este critério pode estragar os planos a muito boa gente!” –, média final do Ensino Secundário ou equivalente (numa escala de 20, a média arredondada às unidades corresponde à pontuação respetiva) – “Pois é, para quem pensa que as médias não interessam… interessam” – e, por último, média da licenciatura ou mestrado integrado – “Estão a ver como as médias continuam a interessar? Duplamente!”. Perante isto, feitas as contas de “sumir”, apenas 48 pessoas (os tais 15% das vagas mais 10) das centenas que costumam concorrer, vão estar do lado certo da matemática e vão passar à 2ª fase.
Esta última é talvez a mais desafiante e que deveria existir em todos os concursos para cursos que implicam relacionamento interpessoal, como é o caso de medicina: a entrevista. Tem a curta duração de 15 minutos, três atentos jurados e embala o projeto de um sonho. Na 2ª fase, o máximo de candidatos que podem ser admitidos não pode ser superior às 38 vagas disponíveis (mas mesmo estas 38 vagas podem não ser todas preenchidas, tudo vai depender dos candidatos a concurso e do seu desempenho na entrevista).
A entrevista varia entre candidatos, e procura avaliar o mesmo de uma forma geral e, simultaneamente, personalizada. A postura, a vontade e garra demonstradas para frequentar o curso de medicina são importantes, mas também são avaliados os atributos/valores que o corpo docente júri considera essenciais num futuro médico. A lista é extensa: empatia, discernimento, perseverança, argumentação sobre questões atuais, aspirações pessoais/profissionais, entre outros temas “fora da caixa” (o que talvez seja uma maneira eficaz de alavancar ou enterrar o candidato, já que a diferença entre quem entra ou não está nos detalhes).
Para os leitores que possam questionar-se: “Como se conhece alguém em 15 minutos? É impossível, até porque há muitos fatores externos que podem influenciar!” Tem razão, caro leitor. Não é uma tarefa fácil (daí apenas cerca de 20 pessoas terem entrado nos últimos anos), mas acredite que em 15 minutos de  pressão, eles vão testar o candidato até verem onde ele pode ir, esperando que o candidato se teste a si próprio.
A pressão pode pairar de várias formas: uma conversa informal, um questionário em que cada jurado desempenha o papel de “bom”, “mau” e “moderador”, uma “reunião” bem ao estilo tradicional de entrevista de emprego… É impossível saber o que vai suceder a cada um. Os candidatos devem mostrar ter disponibilidade total para a demanda exigente que o curso representa, e terem mais “vida” para lá do estudo é importante. Aptidões/interesses noutras áreas são valorizados, assim como motivações/opiniões pessoais, atividades extracurriculares socioculturais, percurso académico e/ou profissional… Acho que já me fiz entender.
Depois, é só esperar ansiosamente pela lista dos candidatos admitidos e ter fé.
Há que contextualizar este concurso no cenário atual. “Um disparate”, pensam muitos, face à realidade da falta de vagas para a especialidade que se tem verificado. Diria que é uma forma diferente de ingressar em medicina, mas não que é mais ou menos justa. Tem vantagens e desvantagens, como em tudo na vida, no entanto, não me cabe fazer juízos de valor acerca da abolição do mesmo. Estaria a dar a face à hipocrisia.
Mas, calma, temos pés bem assentes no chão e está claro que os problemas existem e não nos passam simplesmente ao lado (não a toda a gente), e são preocupantes. Vamos aos factos:
- Há uma distribuição anormal de médicos no país, sendo muitos deles atraídos para o setor privado, saindo assim do Serviço Nacional de Saúde (SNS);
- SNS está carenciado em médicos especialistas;
- Redução das vagas para a especialidade;
- Reitera-se que o numerus clausus de vagas em medicina é excessivo, o que não contribui favoravelmente para uma eficiente formação médica e põe o futuro dos jovens estudantes na corda bamba;
- Recém-formados portugueses que estudaram no estrangeiro, voltam com melhores médias para tirar especialidade;
- Caos instalado.
Estão a ver? Escrevo meia dúzia de premissas e rapidamente quem se esforça por entender esta trapalhada conclui: é uma questão política. E o panorama não vai melhorar (nisto, todos devemos concordar). Devido à falta de planificação de recursos humanos e pela dificuldade em atuar perante os obstáculos.
A existir, a redução das vagas no contingente normal repercutir-se-á automaticamente neste concurso. Ultimamente, não têm vindo a ser todas preenchidas (na FMUC) e isso já pode ser uma forma de restrição.
Pode acontecer que os licenciados sejam alvo de algumas críticas relativamente aos alunos do contingente geral, sendo “acusados de ingressarem com menos mérito”. Ao contrário do que já ouvi, estes licenciados podem ser tão brilhantes como os seus pares. Terem entrado por esta via não implica terem de ser rotulados como “pessoas cuja média não foi suficiente”. Essa ideia não deve ser generalizada como um dogma, porque a verdade é multifacetada. Isso pode ser efetivamente verdade em alguns casos, mas não noutros e, querendo optar por essa afirmação enviesada, ficam por analisar outras características tão importantes que não vêm anexadas às centésimas de uma média (do ensino secundário) final.
O percurso de vida de cada um, inclusive de um licenciado (ou mais graduado), como um origami, pode ser moldado sem nunca, porém, lhe serem apagados os vincos da sua história passada. Por isso… Voltar atrás para seguir em frente? Porque não? Se já deram o primeiro passo, que é optar por esta via (o que já demonstra muita capacidade de resiliência), só resta continuar. Vão ficar espantados com as repercussões que esse sonho poderá ter daí em diante, se o souberem agarrar.

Sublime, a borboleta vagueia na brisa estival exibindo o brilho na parte superior das suas asas. Numa elegância, dobram, desdobram e poisam gentilmente. Saberão elas da sua culpa na tempestade, por terem simplesmente voado?
Ana Sousa, 2º ano

Escrita Criativa - Pedro Silva

As canetas deslizam sobre o papel branco que contrasta com o céu lá fora. O dia está
a terminar com a folha rasurada e à espera de ser completada como pele cravada de tatuagens.
A palestra decorria numa sala carregada de recordações das aulas de medicina. Eu estava rodeado de pessoas fazendo relembrar alguns episódios até talvez marcantes na minha vida. A sala tinha a mente carregada.
Pequena e interessada, a rapariga ávida de curiosidade estava muito concentrada e compenetrada no discurso da palestrante. Percebia-se o entusiasmo incorporado por ela na sessão. Ela tinha vindo de propósito de Lisboa.
Eu sentia-me observada e fragmentada por um rapaz com aspeto descuidado. Queria desaparecer, fugir, destruir tudo à minha volta para que ele não me perseguisse. Repulsa é a palavra que sinto neste momento. Continuo a escrever condicionada por uma mão forte que se chama medo.
A sessão caminha a passos largos do fim, o desconforto da rapariga parece que está a desvanecer-se. O rapaz tirou os olhos dela e começou a escrever, a escrever, … tanto que a folha se encontrava totalmente cravejada de palavras. Finalmente o texto ganhava corpo.
O fim chegou. Cada um foi-se embora para as suas vidas, para o seu núcleo, sem mais se cruzarem: o rapaz e a rapariga. É o tempo que continua a andar até que estes fetos atinjam o final do tempo de gestação da vida.


              Pedro Silva, escrito no Workshop de Escrita Criativa

O Rescaldo da Nova Prova

Segunda feira, 18 de novembro, pelas 19h, decorreu um movimento em massa dos estudantes de Medicina com repercussão a nível nacional – Porto, Coimbra e Lisboa – do qual constou a assinatura de uma carta com propostas de resolução dos problemas que os estudantes de medicina estão a atravessar, o que se vê repercutido numa própria inviabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Este movimento apoiou sobretudo os colegas que prestavam exame, e reivindicou direitos pelos próximos.
O objetivo das cartas passou por chegar ao Ministério da saúde e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pela mão da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), já que sendo registadas, existe a obrigatoriedade de resposta.
Em Coimbra, Trouxemil, houve a oportunidade de entrevistar a Vice-presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), Carolina Caminata; a presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra (NEM/AAC), Catarina Dourado; o Presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade da beira Interior, Francisco Capinha; e os Mestres em Medicina e prestadores de Prova Nacional de Acesso à Especialidade, Dra. Cátia Sólis e Dr. Pedro Silva.

Catarina Dourado, quais são as principais críticas tecidas pelos estudantes, que os moveu a realizar o movimento?
Existe um problema no panorama nacional que temos enfrentado nos últimos anos e que a ANEM tem debatido afincadamente. Os estudantes não sabem o número exato de médicos que exercem medicina, tanto a nível público como privado e setor social; não sabem as exatas necessidades médicas da população a nível de especialidades, ou distribuição por região. Neste sentido vem a proposta da ANEM, depois de várias petições apresentadas em Assembleia da República com soluções para este problema, mas que têm vindo a ser constantemente ignoradas. Assim, vimos neste esforço conjunto com os candidatos que realizam a prova e os estudantes que se deslocam às caves de Coimbra, para que cheguem aos referidos Ministérios e possa ser feita alguma coisa.
Acrescento que não temos uma avaliação das necessidades do País que adeque as necessidades formativas pós-graduadas em termos de especialização médica e distribuição geográfica pelas regiões mais deficitárias dessas mesmas especialidades, para que depois também possam ser adequadas ao número de vagas, ao numerus clausus no curso de Mestrado Integrado em Medicina, para que a longo prazo haja um planeamento integrado dos recursos em Saúde.

Francisco Capinha, quais as propostas que considera mais relevantemente mencionadas na carta para solucionar o problema identificado?
A carta propõe um observatório para o planeamento de recursos humanos em saúde, que vem em Diário da República, e o objetivo passa por ter uma estrutura que congregue não só a Tutela, mas também a Ordem dos Médicos, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, o próprio Conselhos de Reitores da Universidade Portuguesa, servindo para aferir quais são as necessidades de recursos humanos em saúde em Portugal, e que permita estabelecer um planeamento estratégico do SNS a médio e longo prazo, e não só com medidas rápidas. É necessário que haja uma estrutura que consiga fazer o planeamento para sabermos onde temos de atuar, integrando e articulando aquilo que são necessidades do pós-graduados, profissionais de saúde efetivamente no ativo; e aquilo que são as necessidades de formação, isto é, no pré- graduado, quantos estudantes precisamos de formar e para que especialidades, o que  precisamos dos profissionais de saúde para termos um sistema eficiente e funcional.

Francisco, enquanto estudante da Universidade da beira Interior, hoje tiveste que te deslocar a Coimbra porque neste momento nem todas as cidades sede de escolas médicas têm possibilidade de realização de prova.
Sim, é o meu caso particular, que venho da Beira Interior, mas esta também é uma realidade da Universidade do Minho e da Universidade do Algarve, sendo que esta última nunca teve possibilidade de realização de prova e quer lutar para a ter, pois é uma grande limitação. No fundo os nossos estudantes estão dispersos pelo país, com custos acrescidos de deslocação e estadia, pontos muitos negativos que esperamos alterados num próximo ano. Questão que se pretende ver revertida para Braga e Covilhã, estendida para o Algarve.

Carolina Caminata, que resposta é espera da parte da Tutela?
A ANEM está a conversar com estes Ministérios há vários meses e nunca se passou da fase de conversação. Nunca se chegou à finalização e a uma proposta que realmente satisfizesse as necessidades do SNS de momento. O que esperamos é realmente a concretização da proposta para planeamento dos recursos de saúde em Portugal, no Diário da República, achamos ser uma necessidade grande deste momento.
Acrescento que a chave da resolução do problema também passa por juntar estes dois ministérios, que estão tão envolvidos na formação dos estudantes de Medicina em Portugal, que comecem a reunir para planear os recursos humanos em Portugal.

Interpelados os prestadores da Prova Nacional de Acesso à Especialidade, a nova prova correspondeu às expectativas criadas e deu reposta os flagelos identificados à anterior? O que achou da iniciativa do movimento das cartas?
Dra. Cátia Sólis: Em relação à Prova Piloto, o exame foi muito mais difícil e o tempo insuficiente para o seu término, havendo perguntas com a extensão de uma página ao integrarem análises laboratoriais e muito texto, muito também desnecessário e inútil para a resposta à questão. Em relação aprova anterior existe maior justiça, uma vez que pode ser questionada qualquer coisa, dada a amplitude da matriz e, portanto, não há forma das perguntas se repetirem constantemente. Há um maior apelo ao raciocínio clínico do que à memória.
Quanto ao movimento, gostei da ideia porque transpareceu o interesse e preocupação de todos para com o futuro. A Medicina está a “afundar” e quando entrámos no curso tal não se previa. O que parecia estável tornou-se uma incógnita. Há cada vez mais médicos não especializados e isso assusta. Sinceramente quando me perguntam se vale a pena entrar no Curso de Medicina, aconselho a ponderarem bem essa escolha.
Dr. Pedro Silva: Esta prova constitui uma maior aproximação àquilo que é a prática clínica, relativamente à anterior. No entanto, há certos pontos a ajustar: os enunciados por vezes demasiado longos não incentivam ao raciocínio clínico, mas sim à memorização, pelo que quase não há tempo nenhum para pensar. Acho positivo a ANEM levar as nossas reivindicações aos Ministérios, porém, acho que a situação não se vai alterar, devido às restrições impostas pelo Executivo.
A cobertura do evento terminou com a convicção de que, por mais incerto que seja o futuro da formação Médica em Portugal, os estudantes estão unidos numa luta perseverante e resistente pela qualidade da formação médica e, acima de tudo, pela melhor qualidade de prestação de serviço aos utentes.


Sara Meirinhos, 5º ano