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Sou quem sou, ponto final


Cartaz: Maria Gomes, 5º ano e Fotografia: Andreia Nossa, Erasmus 2020/2021

Sociedade esta exigente,

Que cuida da vida de além,

Quando os telhados da sua própria gente,

Se perdem e ficam aquém.

Longínqua vejo a ternura

Parco vejo o respeito

O que interessa se no arco-íris uns veem a liberdade crua,

Enquanto noutros apenas três cores lhe brilham no peito?

Sejamos quem somos minha gente,

Preguemos para que a liberdade nos acompanhe sempre,

Deixemos ser quem quiser ser

Destranquemos armários,

Deixemos ser quem quiser ser

Deixemo-nos de amarras,

Deixemos ser quem quiser ser

Respeitemos todas as bandeiras,

Aceitem quem são,

Aceitem o outro, aquele, o tal,

E gritem a pleno pulmão:

Sou quem sou, ponto final.


Andreia Nossa Ferreira, Erasmus 2020/2021

Um Diário de Viagem da Ilha da Madeira

“Comecemos este diário pela sua última entrada, dia 15 de Agosto de 2020. Não é por ser do contra (embora muitos digam que o sou), mas por estar convicta que fará mais sentido transmitir a minha profunda adoração por esta ilha apenas após ter experienciado tudo. Previsões são mais fáceis no final do jogo, certo?"

Assim começa este projeto maravilhoso, trazido pela nossa colaboradora Rita Rodrigues, que promete mostrar-vos o que a Madeira tem de bom e de melhor. Não percam a oportunidade de ler e acompanhar esta viagem assombrante (no melhor dos sentidos)!
Podem consultar a versão completa no nosso Issuu, clicando no ícone à direita (apenas na versão desktop)!



1 minuto e 36 segundos

 

18 de setembro de 2020:

 

Foi nesta madrugada - sim, porque reuniões nunca terminam em horário nobre – que descobri a Pilar. Estava há uma hora inquieta (não vou mentir) por um momento oportuno para abandonar, pela primeira vez, uma reunião antes da mesma terminar. Meia envolvida pela desculpa que o sexto ano começa a pesar, decidi esperar para ouvir o que a nossa Sara tinha para dizer e – sorte a minha! – conheci a Pilar. “Existe uma autora que nos enviou um livro sobre como lidar com o ano da PNA1”. O meu ano, portanto. Escusado será dizer que não foi desta que saí antes do final da reunião e, muito menos, que foi desta que a cama me recebeu para um número considerável de horas de sono.
Acredito que conhecer a Pilar pelos seus textos é uma boa forma de o fazer. Acredito na sua transparência e na qualidade da sua escrita. Não demorei muito a identificar-me com aquilo que ela escreve, tanto no seu blogue The Nutsbook, como no livro, assim como não demorei muito a agarrar no telemóvel para o encomendar de uma livraria.
A Pilar escreve, neste livro, sobre saúde mental, sobre histórias hilariantes passadas entre viagens de comboio e madrugadas em tentativas de posição de lótus. Escreve sobre ansiedade e tudo aquilo que um estudante de Medicina poderá ter de enfrentar antes de ingressar para a sua formação especializada. 150 perguntas. 1 minuto e 36 segundos para cada uma delas. Uma maratona onde muitos de nós ficam (infelizmente) sem acesso a uma vaga.
Mais do que isso, a Pilar abre o seu coração e começa por dissecar tudo aquilo que faz parte do seu batimento cardíaco. Não fosse Cardio o primeiro capítulo.
“Ou paras ou param-te”: Conta-nos como é viver (e sobreviver) no meio das infindáveis horas de estudo para um só exame que, assim meio a brincar, pode definir o nosso futuro. Que se lixem os cinco anos que passamos a tentar obter uma média razoável nas inúmeras cadeiras que ainda hoje não sabemos para que serviram. Não é a brincar. É – apenas – aquilo que a língua portuguesa chama de figuras de estilos.
Ironias à parte, conta-nos (sem medos!) como foi lidar com os seus conflitos internos. Creio que todos passamos por isto, mas poucos de nós tem coragem de o admitir. É como se diz na mesa do café, “Em casa de ferreiro, espeto de pau”. Mas, encarar fantasmas interiores é importante e a Pilar dá-nos uma curta e grossa noção de qual é o caminho para os enfrentar por muito descrentes que tenhamos sido até então: “Mindfulness, meditação, ficar-ali-a-pensar-em-nada”.
Uma centena de páginas onde são abordados muitos assuntos. A Pilar mostra-nos, sem se enrolar, que nenhuma família é perfeita e que as pausas de estudo não são sempre aquilo que queríamos que fossem.

 

25 de setembro de 2020:

 

        Corri até à livraria. O livro tinha chegado. Voltei para casa. Agarrei na caneta para sublinhar aquilo que mais gosto, como faço sempre que leio um livro. Dei por mim a sublinhar páginas inteiras, capítulos de uma ponta à outra. A Pilar sabe como nos prender a uma leitura. Em menos tempo do que aquele que previa, cheguei ao último. “Calma lá, não quero que isto acabe”. Pensei. É assim que sei quando vale a pena continuar desenfreadamente a devorar as restantes páginas. Num misto e numa dualidade de sentimentos que sempre me caracterizou, continuei a ler. É impossível parar porque quando damos conta já estamos demasiado envolvidos e apaixonados por aquelas páginas. Continuei e duas horas depois desde que havia começado, pronto. Pronto nada! Sei que o vou reler vezes sem conta porque sempre fui pessoa de voltar aos lugares, às pessoas e aos livros onde fui feliz.
“Estás a fazer-te à pista e daqui a uns meses levantas voo.” Confio em cada palavra deste livro porque me identifiquei com muito daquilo que ele transmite: “Sangue, Suor e Sangria.”
Estas páginas são um lugar seguro onde transborda amor.
A Pilar é, verdadeiramente, um grande pilar: de como sobreviver a mais uma loucura no meio de tantas as que são ser estudante de Medicina; de como encarar a prova e aceitar que não vamos estar sempre no nosso melhor; de como confiar no Universo e que, no final, pode acabar por dar certo.
Enquanto aluna do sexto ano e especialmente apaixonada por cada conjugação de palavras desta magnífica história, deixem-me que vos diga, sem mais spoilers, apenas com aquele que a Pilar faz questão de mencionar desde início: este livro não faz parte da bibliografia recomendada, mas, garanto-vos, é um bom ponto de partida para levantar voo.
O Mundo precisa de mais médicos e escritores como a Pilar: alguém que sabe o lugar anatómico do coração e que o coloca acima de qualquer medicina nas horas vagas.
Obrigada, encheste-me o peito de ar.



                                                              Francisca Rocha, 6º ano





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1PNA – Prova Nacional de Acesso (o exame que os alunos de Medicina realizam no final do Mestrado para obterem classificação que lhes permita aceder à formação especializada).

Desconfinamento da Mente na Bonança de Ser Vida

No sentido de pugnar o nocivo confinamento das mentes em corpos já de si confinados por imposição durante semanas morosas e infindáveis, pelas implicações inerentes e subsequentes na proliferação de uma outra pandemia severa de doença mental, urge, hoje como ontem, ser grito que se erija na promoção do valor imensurável da vida, permitindo que, na solidão e no silêncio que esmagam, se veja consolo e abrigo nas palavras.
Assim, hoje como ontem, impera salientar que a vida nunca deixará de ser total primavera, qual doce e fantasiosa quimera, descobrindo em cada cheiro novo anseio e em cada vista nova eterna conquista. Abracemos a poesia, que só quebra a sua rima quando desagua, por fim, na pífia alacridade do sopro irreversível do inexorável prazer de ser que se esvoaça.
De facto, a verdade é que ser só o somos uma vez e inteiro seremos se, com avidez, nesta fugaz e traiçoeira passagem, pincelarmos a vida qual bela miragem. Neste prisma, hoje como ontem, olhemo-nos do monte mais alto, revendo o nosso sobressalto e, em hipnose ou sono profundo, procuremos tomar parte do mundo, plantando em pranto errante, nómada hesitante, o elevar vagueante do Norte, fazendo da sorte o sim da estrada. Levantando marés, tocando as estrelas e roubando centelhas ao fogo dos céus, procuremos libertar a dor dos infernos e amainar ventos desertos de cor. Deste modo, dando mundos ao mundo, será prenha a esperança no ressurgimento dos ares que trarão de novo o amor na raiva da dor e verão nascer tua luz que seduz, meus olhos, meio e anseio, que em rodopio de sentidos, unidos, tão mais rotinada, farão aceitar-te em mim, por fim, presença de coração alheio.
Luís Fernandes, 4º ano

Escrita Criativa - Ana Sousa

Aqui, agora. Final do dia. Fugaz novembro, terceiro dia da semana.
Eles estão sentados, despertos. Ouvem-se vozes abafadas pela luz incandescente. Não há brisa nem dia, mas um pedaço de noite fria lá corre pela janela. Esgota-se nas palavras.
Fechados numa sala, escutávamos o silêncio dos objetos. Não éramos muitos. Perdidas já, havia mesas, cadeiras e um quadro em branco que parecia preencher uma divisão quase vazia. Ou quase cheia.
À minha frente, uma rapariga sorridente e atenta, fixava um ponto no horizonte que me trespassava. Cabelo cor de mel, com um gancho em forma de borboleta dourada como que a querer levantar voo e ser livre.
Sinto-me pequena. Inerte, como se os meus pés estivessem suspensos no ar. Impera a presença de olhares sobre mim, como um bisturi que me lacera. Olhares que não foram convidados.
A pessoa que está à minha frente só pode ver o que não posso esconder, e isso incomoda. Mas também já não importa. Já só vejo chamas e sufoco, tudo à minha volta entra em combustão. Imagino as cinzas do que virá depois. Depois de me ir. Daqui, de mim. De todos. Tenho fósforos no bolso e quase que queimam.
E vou voar, como um corpo que flutua na água.
A médica olhava a doente de forma minuciosa e apenas a mesa as separava. Sabia que a sua decisão ia definir tudo dali para a frente. Parecia bem, estável. O último surto psicótico já quase havia sido esquecido. Aparentemente serena, a doente mexia na borboleta dourada que adornava o seu cabelo, tentava esconder as suas intenções. Mal podia esperar por ser livre, deixar os comprimidos, as conversas dissimuladas. Iria cometer a sua última (in)sanidade. Como (in)sana que era.
Como se o mundo fosse ressurgir.

Ana Sousa, 2º ano

Escrita Criativa - Pedro Silva

As canetas deslizam sobre o papel branco que contrasta com o céu lá fora. O dia está
a terminar com a folha rasurada e à espera de ser completada como pele cravada de tatuagens.
A palestra decorria numa sala carregada de recordações das aulas de medicina. Eu estava rodeado de pessoas fazendo relembrar alguns episódios até talvez marcantes na minha vida. A sala tinha a mente carregada.
Pequena e interessada, a rapariga ávida de curiosidade estava muito concentrada e compenetrada no discurso da palestrante. Percebia-se o entusiasmo incorporado por ela na sessão. Ela tinha vindo de propósito de Lisboa.
Eu sentia-me observada e fragmentada por um rapaz com aspeto descuidado. Queria desaparecer, fugir, destruir tudo à minha volta para que ele não me perseguisse. Repulsa é a palavra que sinto neste momento. Continuo a escrever condicionada por uma mão forte que se chama medo.
A sessão caminha a passos largos do fim, o desconforto da rapariga parece que está a desvanecer-se. O rapaz tirou os olhos dela e começou a escrever, a escrever, … tanto que a folha se encontrava totalmente cravejada de palavras. Finalmente o texto ganhava corpo.
O fim chegou. Cada um foi-se embora para as suas vidas, para o seu núcleo, sem mais se cruzarem: o rapaz e a rapariga. É o tempo que continua a andar até que estes fetos atinjam o final do tempo de gestação da vida.


              Pedro Silva, escrito no Workshop de Escrita Criativa