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1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #14 – MGF

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Ser Médico de Medicina Geral e Familiar (MGF) significa fazer o acompanhamento dos utentes desde o seu nascimento até à sua morte. Significa fazer uma Medicina personalizada, global, acessível e de cuidados de continuidade a toda a população. A MGF cuida da pessoa em vários momentos: na prevenção, no diagnóstico, no tratamento, na reabilitação e nos cuidados paliativos. Esta diversidade proporciona desafios para os quais temos de estar preparados todos os dias.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Nos anos clínicos da faculdade, percebi que tinha preferência por uma especialidade médica, sendo que até ao final do curso e após contacto com a maioria das especialidades, o leque ficou reduzido a 4 ou 5 especialidades, entre as quais se encontrava MGF. O estágio do 6º ano em cuidados de saúde primários acentuou ainda mais o interesse que tinha pela especialidade.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
O facto de ser uma especialidade clínica, transversal a todas as idades e que obriga a um grande raciocínio clínico no quotidiano, são factores que pesaram na minha escolha. Para além disto, o facto de podermos proporcionar cuidados personalizados a quem mais necessita, é também uma fonte de motivação.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
O trabalho diário acontece maioritariamente na unidade de saúde (UCSP / USF) de colocação do Médico Interno, sendo que as formações obrigatórias e opcionais ocorrem, maioritariamente, no hospital de referência da instituição de colocação.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
A MGF trabalha sempre em equipa, quer sejam médicos ou não e isso é essencial para uma excelente prestação de cuidados. O ambiente entre os diversos profissionais depende sempre do local de formação do médico interno e da experiência pessoal de cada um, motivo pelo qual a escolha do local de formação é muito importante em MGF. Na minha experiência pessoal, o ambiente entre os vários profissionais e a entreajuda são muito boas.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Sim, as idoneidades formativas parecem-me adequadas nas unidades de colocação, sendo que esta idoneidade pode, por vezes, ser limitada pela capacidade formativa dos serviços hospitalares onde decorrem as formações obrigatórias e opcionais. A qualidade do ensino depende sempre da experiência pessoal de cada um nos seus locais de formação, mas na minha experiência pessoal, considero que é boa.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
A autorização da realização de formações no estrangeiro está sempre dependente de autorização superior, mas conheço colegas que realizaram estágios no estrangeiro (por exemplo, estágio de um mês em cuidados de saúde primários em Cabo Verde).
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
O horário de trabalho costuma ser sobreponível ao do orientador de formação, sendo que também existe tempo disponível no horário para estudo e realização de trabalhos. A maioria é composta por atividade assistencial presencial (consultas), mas também realizamos atividade não presencial (contactos indiretos de utentes como, por exemplo, para renovação de medicação crónica). Todos os internatos têm o seu grau de exigência, que penso não diferir muito entre as especialidades.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, existindo uma boa organização pessoal do tempo, existe possibilidade de ter hobbies e uma via pessoal/familiar ativa.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
A carga horária é adequada ao trabalho que realizamos, sendo que por vezes pode existir a necessidade de realizar algumas horas extra (em situações pontuais como substituição de colegas ou a realização de atendimento complementar à noite e/ou fim de semana). Esta realização de horas extra habitualmente aumenta com a progressão no internato.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Esta questão depende muito do orientador de formação. Pessoalmente, no início do internato acompanhei sempre a minha orientadora de formação na realização de consultas e a autonomia foi sendo ganha progressivamente, com o decorrer do internato.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
Em MGF não existem subespecialidades, embora exista a possibilidade de realizarmos formação pós-graduada específica em determinada área que seja do nosso interesse. Já começam a existir algumas consultas específicas (atividade física, cessação tabágica...) em algumas unidades às quais os médicos se podem dedicar.
 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Habitualmente, as formações complementares obrigatórias têm uma avaliação escrita (por Administração Regional de Saúde), que decorre entre o final do ano e o início do ano seguinte. As avaliações de cada ano de internato consistem numa avaliação escrita realizada a nível nacional (no final do 1º e 3º ano do internato, em 2 épocas diferentes – janeiro e junho) ou, então, pode ser feita avaliação oral (no final do 2º e 4º ano do internato, realizada a nível de cada ACeS / ULS no início de cada ano). O exame final do internato ocorre, habitualmente, em 2 épocas, tal como em outras especialidades, nos meses de março e outubro. É necessária bastante dedicação e estudo para realizar as provas referidas. A maior dificuldade neste momento é que estas metodologias de avaliação são recentes e, por exemplo, a prova escrita de avaliação do 1º ano foi realizada pela primeira vez em janeiro de 2020 e não existiu bibliografia recomendada para o estudo.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
Existe bastante trabalho burocrático (por exemplo: renovação de prescrição de tratamentos de Medicina Física e Reabilitação, relatórios para a Segurança Social) que não deveria ser função do Médico de Família e que retira tempo para outras atividades.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
A relação médico-doente que conseguimos construir com os utentes e o facto de lidarmos com eles ao longo de todo o seu ciclo de vida, são aspetos que fazem a MGF diferenciar-se em relação às outras especialidades. Fazer consulta a um recém-nascido e na consulta seguinte estarmos a acompanhar um doente diabético ou uma grávida é um desafio que considero ser um fator positivo e desafiante nesta especialidade.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – A progressão na carreira é igual em todas as especialidades. No entanto, MGF tem a particularidade de ter uma organização diferente das demais especialidades - a existência de USF modelo B, onde existem incentivos financeiros estabelecidos. Nesta tipologia (USF modelo B), existem também incentivos financeiros para os coordenadores das unidades e para os médicos que são orientadores de formação.
Enveredar pela carreira investigacional – Quem gosta da área de investigação tem a possibilidade de enveredar por ela de duas formas: através da realização do doutoramento ou integrando grupos de investigação.
Constante inovação científica – As reuniões de cada unidade funcional, as reuniões mensais de cada internato e os congressos científicos (entre outros) em que participamos, são oportunidades de formação contínua que permitem a atualização de todos os profissionais.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – É do conhecimento público que existe carência de Médicos de Família em algumas regiões do País e têm aberto sempre vagas em número suficiente para os especialistas que terminam o internato em todas as épocas de exame. Em relação ao setor privado, também continuam a existir algumas ofertas de emprego.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Sem dúvida alguma, pois está a corresponder às minhas expectativas.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sendo MGF uma especialidade médica, penso que o estudo e a dedicação são fundamentais.
 
Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
Não.

Texto redigido com a ajuda do Dr. Hugo Almeida, médico de Medicina Geral e Familiar

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #13 – Urologia

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
A Urologia é uma especialidade médico-cirúrgica que estuda e trata as doenças do aparelho urinário e, por extensão, do aparelho sexual masculino. A Urologia é eclética: destaca-se pela sua grande versatilidade, pelo domínio de técnicas diagnósticas ímpares que vão desde a neurofisiologia à radiologia, da ecografia à endoscopia e, por vezes, existe fusão destas modalidades. Em termos cirúrgicos, a Urologia destaca-se por estar na vanguarda dos avanços técnicos. É, por excelência, a especialidade da robótica, da laparoscopia, das técnicas minimamente invasivas e por orifícios naturais. É, sem dúvida, uma especialidade que caminha de mão dada com a tecnologia.
No bloco operatório, o urologista deve dominar a cavidade abdominal, o retroperitoneu e a cavidade pélvica. Para isto, deve estar familiarizado com diferentes áreas cirúrgicas: vascular (pela proximidade aos grandes vasos abdominais e pela realização de transplantação renal); ginecológica e coloproctologia (pela partilha do espaço pélvico).
Omnipotência e “Deusificação”? Não, a maioria dos urologistas são pessoas terra-a-terra, simpáticas, com bom humor, que gostam de trabalhar em equipa e são felizes. É óbvio que estou a fazer uma generalização, mas pensem nas vezes em que conviveram com um urologista ou, caso não o tenham feito, prestem atenção da próxima vez que o fizerem. Existe base científica para estas afirmações – vários artigos comparam as personalidades de urologistas, cirurgiões e não cirurgiões.
As principais frentes de ação dependem do sítio e dos interesses de cada um. Existem variadíssimas áreas da Urologia, podendo haver tendência para a subespecialização: oncologia; litíase; urologia reconstrutiva; neurourologia; infertilidade; andrologia; transplantação e urologia pediátrica.
No exemplo prático de Coimbra e dos CHUC, as principais frentes de ação são a oncologia urológica e a transplantação renal. O serviço de Urologia do CHUC, para além de tratar cirurgicamente doentes oncológicos, tem a particularidade de assumir a oncologia médica de todos os seus doentes – sendo responsável pela realização de quimioterapia e imunoterapia.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Uma nota pessoal:
Escolher uma especialidade médica deve ter diversas fases e não deve ter início no internato geral, a um ou dois meses das escolhas. Deve começar bem mais cedo, para vos dar tempo para experimentar, vivenciar, escrever a vossa tese nessa área ou mesmo mudar de ideias para um rumo totalmente diferente. Ter um objetivo até vos vai dar mais força para estudar para a prova de acesso à especialidade...
Antes de querer uma especialidade em concreto, o primeiro conflito interno com que nos devemos deparar é: quero uma especialidade médica, cirúrgica ou comunitária? Em termos pessoais, a minha resposta chegou no 3º ano da Faculdade de Medicina, durante as aulas de Propedêutica Cirúrgica com o Professor Henrique. A possibilidade de um primeiro contacto com o doente cirúrgico, a semiologia abdominal, o bloco operatório e o serviço de urgência, foram determinantes na minha escolha. A partir deste momento na minha formação, tive a certeza que iria procurar passar muitas horas da minha vida num bloco operatório e com as mãos na cavidade abdominal e pélvica. Neste sentido, procurei passar mais tempo dentro de um bloco e nas especialidades cirúrgicas – este é o meu conselho para uma escolha mais ponderada e mais direcionada.
O interesse na Urologia surgiu mais tarde, nas aulas práticas da cadeira e no contacto com as atividades desenvolvidas por Urologistas. A facilidade com que éramos integrados, o bom ambiente que por ali imperava e a possibilidade de ajudar em alguns procedimentos, foram grandes marcas no meu interesse pela Urologia. Recordo um momento chave nesta escolha – numa das minhas idas à sala 1 do bloco central do CHUC, o Professor Arnaldo perguntou se já tínhamos visto uma nefrectomia parcial laparoscópica, no tempo cirúrgico de uma apendicectomia. Permanecemos céticos por 45 minutos, mas ao final deste tempo tínhamos ido de “pele e pele”, com o tumor cá fora e a sutura laparoscópica feita. Com esta memória, a partir daí fui juntando mais e mais razões.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
A escolha de Urologia, em particular no CHUC, foi muito simples. As duas principais áreas de atuação da Urologia do CHUC, são também as minhas áreas de interesse na Urologia. Por um lado, sempre sonhei em combater a patologia oncológica, acompanhar o doente oncológico através do seu diagnóstico, tratamento e prognóstico. Em particular, a oncologia do sistema urinário pela sua prevalência e morbimortalidade. A possibilidade de integrar um serviço de fim de linha no tratamento do cancro urológico, com uma visão holística e uma abordagem médica e cirúrgica, sempre ditou o meu entusiasmo por esta especialidade.
Em segundo lugar, a oportunidade de integrar o serviço de transplantação renal. A participação nas colheitas multi-órgão, as ajudas em transplantes de dador vivo e dador cadáver. A possibilidade de participar no legado deixado pelo Professor Linhares Furtado em Portugal.
Não menos importante, fiz esta escolha pela possibilidade de aprendizagem com grandes médicos e cirurgiões, num ambiente familiar e de trabalho em equipa. Mais ainda, fiz esta escolha pela possibilidade de aprender numa boa “escola” cirúrgica.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Enfermaria: Seguimento dos doentes no pré e pós operatório; internamentos para realização de quimioterapia e internamentos por patologia urológica urgente;
Bloco operatório central;
Bloco operatório periférico: cistoscopia; biópsias prostáticas; colocação e troca de cateteres de nefrostomia; entre outros;

Urgência: abordagem à patologia urológica urgente;

Consulta externa;

Reunião de Serviço e Reuniões Multidisciplinares: imagiologia e radioterapia;

Hospital de Dia de Oncologia;

Litotrícia;

Exames Urodinâmicos;

Exames Urorradiológicos;

 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Existe uma excelente relação entre médicos internos e especialistas. Impera o espírito de equipa e de entreajuda, com grande facilidade para discussão de casos clínicos e ajuda na melhor orientação dos doentes. Existe abertura na discussão de casos de oncologia em reuniões de decisão terapêutica, nas quais os internos participam ativamente.
No bloco operatório central e periférico, existe uma ótima relação entre médicos, enfermeiros e auxiliares, imperando a boa disposição e bom ambiente de trabalho.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Sim, existe idoneidade completa. Neste momento, só existe internato de Urologia em Hospitais Centrais, com o intuito de garantir uma formação semelhante a todos os internos do país. A qualidade do ensino em Portugal, especificamente na área da Urologia, é muito boa, acima da média europeia. Existem muitos países onde a formação cirúrgica é muito difícil, com dificuldade em atingir números mínimos de cirurgias.
Existem algumas valências nas quais os internos procuram estagiar fora, visando estar perto dos melhores em determinada área ou técnica.
Com o advento da robótica, um dos ponto fracos do CHUC é a inexistência de robôs.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Definida em decreto de lei, está a obrigatoriedade em realizar 1 ano de estágio em cirurgia geral e 2 meses em cirurgia pediátrica. Os restantes estágios são opcionais e dependentes dos interesses de cada interno - 4 meses que podem ser passados noutras especialidades médicas ou cirúrgicas. Estes podem, também, ser aproveitados para a realização de estágios fora do país, em centros de referência de determinadas áreas da Urologia.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Um dia de trabalho pode variar muito. Geralmente, começo o dia por volta das 7h50, vejo o meu setor da enfermaria e os doentes que operei. Às segundas, terças e quintas, existe reunião de casos clínicos/ decisão terapêutica às 8h15. Durante a manhã, podemos ter atividade programada no Bloco central, Bloco periférico ou na Unidade de Cirurgia de Ambulatório. Durante a tarde, continuamos o trabalho, podendo estar escalados em prolongamentos no bloco central, estudos urodinâmicos ou unidade de cirurgia de ambulatório. Os internos, geralmente, têm um período de consulta por semana e um ou mais tempos de urgência.
A Transplantação renal poderá acontecer em qualquer altura do dia ou da noite...
Ou seja, é difícil definir um dia tipo.
O nível de esforço e dedicação é elevado, mas a recompensa e felicidade são também igualmente elevadas.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, com organização existe tempo para tudo. A grande maioria de nós pratica desporto e tem hobbies, fora do hospital. Existe tempo para a vida pessoal, familiar e social, mas por vezes existe menos tempo para dormir.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Existe uma carga horária pesada, como em qualquer outra especialidade cirúrgica. Facilmente se excedem as 40h de trabalho semanal. Mas numa especialidade cirúrgica, há tendência para a correlação entre o número de horas de exposição e a prática.
Nos primeiros anos, realizamos urgência apenas durante o dia, sendo que a partir de metade do internato passamos a fazer noites.
Ao longo do internato, vamos recebendo mais tempos de consulta.
 
Como interno, como é o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Existe uma curva de aprendizagem a cumprir, com tempos diferentes consoante a dificuldade da técnica ou gesto clínico. Rapidamente se aprende a executar uma cistoscopia rígida ou flexível, ficando independente tecnicamente. Por outro lado, uma cirurgia mais complexa faz-se em equipa e, muitas vezes, não se é independente, mesmo como especialista. É uma aprendizagem contínua.
No geral, após os 6 anos de internato, os internos estão confortáveis e independentes para realizar a maioria/totalidade das técnicas, cirurgias e abordagens ao doente.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
Existem as subespecialidades já mencionadas. Todos os urologistas sabem executar a base de todas as áreas da Urologia, no entanto, existe cada vez mais tendência para a subespecialização. A escolha dependerá da vontade do próprio em investir numa área em específico, da existência dessa área no hospital em que trabalha ou, até mesmo da sua criação.
 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Os momentos de avaliação são exames orais anuais, com defesa do curriculum cirúrgico, científico e pedagógico. As datas são definidas pelos internos, em conjunto com a direção do serviço. Geralmente, decorrem em Março de cada ano.
A Urologia é teoricamente exigente, envolvendo um domínio das componentes médica e cirúrgica. As guidelines europeias de Urologia e a sua atualização anual, mantêm-nos a par da evolução da ciência e técnica.
Todavia, considero que a avaliação não é só pontual. O melhor tratamento dos doentes põe-nos diariamente à prova, envolvendo um estudo contínuo de conteúdos teóricos, a par de um treino técnico exigente.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
É difícil definir a maior dificuldade. É sumamente impossível dominar, médica e cirurgicamente, todos os campos da Urologia. Desta dificuldade nasce a subespecialização.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?

Semiologia rica;

Grande variedade de técnicas cirúrgicas: cirurgia aberta, endoscópica, laparoscópica, robótica, percutânea;

Independência no diagnóstico: Endoscopia; radiologia; ecografia, urodinâmicos;

Cientificamente estimulante e com evolução constante;

Bons resultados, bons cirurgiões;

Bom ambiente, espírito de equipa;

Transplantação renal;

Oncologia.

 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
enveredar pela carreira investigacional;
constante inovação científica;

Existe possibilidade de aliar a carreira clínica à científica e investigacional. Existem alguns urologistas a realizar programadas de doutoramento e a participar ativamente em ensaios clínicos e outros projetos de investigação. Uma carreira puramente de investigação não me parece fazer sentido numa especialidade cirúrgica.

Existe uma constante inovação técnica e científica, tornando a Urologia altamente estimulante. 
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Sem qualquer dúvida. A corresponder e a superar.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
É uma pergunta para responder com mais maturidade, dentro de 10 ou 20 anos. Quando estiver a olhar do lado do especialista, com experiência na formação dos mais novos. Pessoalmente, tendo a acreditar que o trabalho compensa. A cirurgia envolve treino, repetição e disciplina. Mas ao mesmo tempo, envolve rapidez na decisão sobre o imprevisto - aí entra o talento, a coragem e capacidade de lidar com a pressão.
É uma pergunta para o milhão de euros.
 
Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
O antigo provérbio “fazer das tripas coração”, é sinónimo de superar e vencer adversidades julgadas impossíveis. A Urologia ainda não faz o impossível, mas é a única especialidade que é capaz de transformar um órgão noutro diferente - fazer das tripas bexiga.
A escolha da especialidade é de extrema importância e, muitas vezes, será fundamentada pelas experiências pessoais e pessoas que as compõem. Desta forma, devem procurar investir, no vosso percurso académico, tempo nas especialidades que vos tiram o sono.

Texto redigido com a ajuda de Dr. Vasco Quaresma, médico interno de Formação Específica em Urologia no CHUC

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #12 – Pedopsiquiatria

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?

Significa acompanhar crianças e adolescentes em todo o seu desenvolvimento, nos vários domínios, incluindo o desenvolvimento cognitivo, afectivo e psicomotor. Significa trabalhar em rede, com os jovens, a família, escola e técnicos que trabalhem com eles. As frentes de acção são variadas e dependem da patologia mental específica e da idade dos jovens. Trata-se de uma especialidade abrangente, cuja acção principal é na consulta externa, mas que se estende ao serviço de urgência, internamento e hospital de dia. É ainda uma especialidade ecléctica, no sentido em que exige um domínio das técnicas de psicoterapia verbal, das intervenções farmacológicas e das neurociências.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Já escolhi o curso de Medicina pelo interesse na saúde e doença mental. A opção pela infância e adolescência deu-se pelo meu interesse no desenvolvimento, tendo tomado a opção final durante o Ano Comum.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
Poder escolher uma especialidade muito ecléctica, que permite trabalhar em muitos contextos diferentes e na qual o cruzamento entre diversos saberes é fundamental. Mais ainda, escolhi-a por ter a possibilidade de fazer a diferença numa faixa etária em que a perspectiva de mudança é maior.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
O grosso do trabalho é feito em consulta externa. Os serviços podem dividir-se por faixas etárias, nomeadamente: Primeira Infância; Idade Escolar e Adolescência. Existem, mais ainda, unidades para problemas específicos, como as Perturbações do Comportamento Alimentar e a Pedopsiquiatria de Ligação (em que há um contacto estreito com as outras especialidades médicas). Por fim, podemos trabalhar no serviço de urgência, no internamento (de adolescentes) e Hospital de Dia.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Há um bom ambiente entre os técnicos.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Sim. Nos serviços onde não exista idoneidade para todas as valências requeridas, há a possibilidade de as realizar noutro hospital com essa idoneidade. Relativamente à qualidade do ensino, é boa.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim, existindo abertura para que o façamos.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
 
O dia de trabalho depende do tipo de serviço a que se está alocado, dependendo também dos serviços que são oferecidos pela especialidade em cada hospital. Já o esforço e dedicação dependem do brio com que cada profissional se dedica, contudo, diria que é permitido um bom balanço entre o trabalho e a vida pessoal.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Claramente! A ambas as questões.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Não se trata de uma especialidade em que os internos sejam submetidos à exigência de fazer trabalho nocturno ou muitas horas extra nos serviços de urgência. Geralmente, para casa, leva-se o estudo e o trabalho académico.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Bastante elevada. Naturalmente que é um processo gradual, mas senti sempre que podia ter a minha abordagem, dentro da legis artis.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
Existem algumas divisões, possíveis por setting (internamento, ligação, hospital de dia) ou por patologia e grupo etário (perturbações do comportamento alimentar, primeira infância…). Não se tratam de subespecialidades formalmente reconhecidas. Dependerá da necessidade dos serviços para onde se irá trabalhar e da direcção que cada um der à sua formação individual.
 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
São, maioritariamente, avaliações contínuas dos estágios que se frequenta, havendo um momento de avaliação para discussão do estágio. Neste caso, é vantajoso o facto de se premiar a dedicação clínica durante os estágios.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
O facto de ser uma especialidade que abrange muitas áreas de conhecimento é um factor positivo, mas também pode levar a que nos sintamos um pouco perdidos no meio de tanta coisa diferente, mas importante, em que nos temos de debruçar. A maior dificuldade, pelo menos no início, é ser praticamente tudo novo, pois a especialidade é pouco (ou nada) abordada durante a faculdade.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
A interdisciplinaridade, o balanço entre trabalho e vida pessoal e podermos intervir e fazer a diferença naqueles que são os mais vulneráveis.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – esta questão tem de ser integrada nas carreiras médicas e não tanto na especialidade.
Enveredar pela carreira investigacional – é possível fazer investigação, incluindo doutoramento. A principal dificuldade é obter um orientador Pedopsiquiatra, porque ainda há poucos doutorados na área.
Constante inovação científica – é uma especialidade em que a inovação científica é muito grande e que beneficia das descobertas de áreas anexas, como as neurociências e a psicologia.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – boas, pois trata-se de uma especialidade com défice de especialistas.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Escolheria novamente a especialidade. Apesar de ter ponderado bastante a decisão e ter procurado informar-me, após ingressar na mesma, foi uma boa surpresa a abrangência da especialidade e as oportunidades de trabalhar em coisas tão diferentes.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Ambas. É necessário dominar a técnica (avaliação e intervenção), mas ter a destreza de adaptar aos casos concretos. Os casos não têm um diagnóstico/problema único e é necessário adaptar o conhecimento das guidelines aos casos concretos. O que será mais talento, mas em que é possível trabalhar, é a capacidade de ser empático com os jovens e famílias, pois nesta especialidade a relação terapêutica é, efectivamente, uma arma terapêutica.

Texto redigido com a ajuda do Dr. Pedro Santos, Pedopsiquiatra

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #11 – Psiquiatria

 O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?

Ser Psiquiatra não é ter uma especialidade, é uma forma de estar na vida. Com competências clínicas especializadas, é verdade, mas deixando subjacente outra componente que deveria ser transversal a todos os seres humanos: capacidade de empatia e de valorização das emoções positivas, sem descurar a importância das negativas.
Assim, as frentes de ação são: todas. Onde haja pessoas. Por vezes, mesmo na ausência destas, quando estamos sozinhos connosco próprios. Uma velha máxima é: "para podermos compreender e ajudar as pessoas, temos primeiro de nos conhecer a nós próprios". Com o passar do tempo, esta máxima vai ganhando crescente relevância.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
A decisão foi linear, descomplicada e apaziguadora. Foi tomada no 4º ano, quando passei pela unidade curricular de Neurociências e Saúde Mental. Antes disso, nunca me ocorrera pensar no “caminho a seguir” - encarava essa escolha como algo longínquo, que preferia protelar. Porém, nesse momento não houve dúvidas. Em diálogo com outros colegas, apercebo-me que os percursos acabam por ser semelhantes. Em alguns casos existe, contudo, desde o início do curso uma tendência ou inclinação natural para a área da Saúde Mental, que se confirma ao concluir a unidade curricular ou estágio clínico na especialidade.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
A principal razão terá sido a possibilidade de poder ajudar pessoas apenas e simplesmente através da comunicação. Como é óbvio, nem todas as situações podem ser resolvidas dessa forma, nem este aspeto é um que diga respeito apenas à Psiquiatria (pode e deve ser aplicado em todas as especialidades). Nesta, porém, será provavelmente onde é mais relevante.
Acrescento o seguinte: embora o aspeto que refiro acima tenha, entre tantos outros, contribuído para a minha escolha e entusiasmo perante a mesma, esta decisão foi tomada com o coração, atendendo àquela que considerei ser a minha vocação e a área onde, provavelmente, seria mais feliz a exercer. Assinalo que ter este princípio em mente não é, nem deve ser, encarado como algo egoísta: um médico que seja feliz a exercer destacar-se-á invariavelmente daquele que não o é, refletindo-se essa diferença no cuidado prestado e no bem-estar do próprio, dos colegas e dos doentes.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
No internamento (numa das várias enfermarias distribuídas pelos dois pólos - H.U.C e Sobral Cid), serviço de urgência e consulta externa do Hospital.
Há também outros contextos de trabalho assistencial, mais específicos, como as Equipas de Saúde Mental Comunitária (que se deslocam a Centros de Saúde e/ou ao domicílio de doentes em áreas descentralizadas do distrito de Coimbra), a Unidade de Alcoologia, a Psiquiatria Forense, entre outros.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Estes aspetos podem variar substancialmente entre estabelecimentos/centros hospitalares. No CHUC, felizmente, há um ambiente bastante positivo nas equipas. Acredito que as competências comunicacionais essenciais para o desempenho bem-sucedido nesta área acabam por ser aplicadas também no quotidiano da maioria dessas pessoas. É dada uma maior atenção à criação de boas relações laborais, à minimização de situações de conflituosidade e ao espírito de entreajuda entre profissionais. Tudo isto permite um desempenho mais prazeroso e, no fundo, mais fácil da nossa profissão, algo que tem relevância principalmente a longo prazo (reduzindo em muito a probabilidade de burnout, por exemplo).
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
O CHUC apresenta idoneidade na maior parte das valências, com uma ou outra exceção que pode ser devidamente acautelada ao longo do internato. A formação é, de um modo geral, muito boa, também fruto da grande disponibilidade dos Psiquiatras especialistas em partilhar o seu saber e esclarecer dúvidas. Além disso, como hospital central, recebe um grande volume e variedade de doentes, com uma multiplicidade de características sociodemográficas e clínicas, enriquecendo a nossa aprendizagem.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim. Estão contemplados, na portaria do internato de Psiquiatria, 6 meses para a realização de valências opcionais. A realização destes estágios no estrangeiro é até incentivada, principalmente nos que forem de referência nas respetivas áreas.
Relativamente à realização de estágios noutros centros a nível nacional (e fora deste âmbito opcional), existe essa possibilidade, embora esse pedido tenha de ser muito bem justificado, nomeadamente quanto à pertinência daquele local específico para a realização desse estágio em detrimento da instituição de origem. À partida, existe idoneidade para a realização do mesmo no CHUC, com boa qualidade formativa.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Uma semana de trabalho típica inclui um a dois turnos de 12h de urgência (diurnos e/ou noturnos), um a três períodos de consulta (que pode ser de Psiquiatria Geral e/ou de uma subespecialidade da Psiquiatria), sendo que um período corresponde, geralmente, a uma manhã ou uma tarde, com duração aproximada de 3 a 4 horas. Durante o restante tempo, faz-se atividade assistencial em serviço de internamento. Esta distribuição permitirá, com grande probabilidade, não exceder as 40 horas de trabalho semanal. Haverá ainda tempo para, no caso dos médicos internos, assistir a atividades formativas, estudar ou preparar trabalhos, tudo dentro das 40 horas.
Dependendo do contexto (internamento, urgência ou consulta), a intensidade do trabalho pode variar. Porém, é um dado relativamente adquirido que na Psiquiatria é preciso mais tempo para cada observação do que na maioria das restantes especialidades (e esse pressuposto acaba por ser, no geral, tido em conta e respeitado, tanto a nível de organização interna como de administração superior).
Um dia típico de trabalho envolve o diálogo com alguns doentes (em contexto de urgência, com duração esperada de 10-15 minutos com cada doente; até 1 hora ou até mais em situação de primeira consulta ou de internamento), havendo ainda lugar para discussão com os restantes elementos da equipa que o acompanham (outros médicos, enfermeiros, assistentes sociais, etc.) ou com familiares e/ou outros entes significativos.
Apesar de cada entrevista clínica poder ser algo desgastante (principalmente quando é preciso entrar em maior detalhe ou ultrapassar alguma resistência por parte do doente em debater determinados assuntos), acaba por haver sempre tempo para tudo. Deste modo, geralmente, não existem níveis de stresse de base elevados que poderiam comprometer o bom desempenho das nossas funções.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sem dúvida! Comparativamente a muitas outras especialidades, o nosso horário é leve e flexível. Caberá a cada um o envolvimento em atividades de lazer e desenvolvimento pessoal, mas isso trata-se em grande medida da gestão pessoal e preferências de cada um. Da mesma forma, é perfeitamente possível conciliar a carreira com uma vida pessoal e familiar preenchida.
É importante frisar que a Psiquiatria anda, frequentemente, de mãos dadas com a cultura, pelo que o investimento em atividades deste cariz (literatura, música, outros tipos de arte) acaba por trazer, muitas vezes, retorno a nível pessoal e profissional.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
A estrutura base da semana de trabalho foi já descrita.
No início do internato, a carga horária é reduzida, uma vez que a atividade é quase exclusivamente observacional e fornece vários momentos para investir na componente teórica. No decorrer do 1º ano, os internos iniciam o apoio ao Serviço de Urgência de Psiquiatria, exclusivamente em turnos de 12 horas diurnos. No 2º ano, iniciam a própria consulta, de forma autónoma e começam a fazer turnos noturnos de urgência (12 horas). A carga de trabalho também depende e reflete, em cada momento do internato, o estágio em que o interno se encontra, havendo algumas diferenças entre estágios a esse respeito. Até ao final do internato, vai-se aumentando essencialmente a carga em consulta (com um aumento progressivo do ficheiro de cada um) e em atividades formativas, como participação em projetos de investigação, lecionação em colaboração com a FMUC, etc.
O horário de trabalho de base não subentende uma sobrecarga laboral. Dependendo do investimento que cada um pretende fazer na formação, ele poderá ficar mais ou menos ocupado. No CHUC, transversalmente a todas as especialidades, esse investimento é bastante incentivado, pelo que no final do internato é provável que haja o envolvimento em várias atividades desse género.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Na minha opinião, o adequado. Há um período inicial de aprendizagem, essencialmente observacional, transitando gradualmente para o contacto direto com os doentes, mas sempre tutorizado. Quando o interno se sente confortável em assumir funções com maior autonomia, tem também essa liberdade.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
Na Psiquiatria existem várias subespecialidades, grande parte delas com consulta respetiva no CHUC. Alguns exemplos são: perturbação obsessiva-compulsiva; primeiro episódio psicótico; prevenção do suicídio; gerontopsiquiatria; perturbações do comportamento alimentar; psiquiatria de ligação às doenças do movimento; perturbações do neurodesenvolvimento; medicina psicossomática; adições; entre outras.
Tradicionalmente, a escolha das subespecialidades por parte dos internos é feita sob influência do Orientador de Formação. Porém, nos últimos anos, tem havido uma tentativa de permitir um fluxo mais livre e escolha independente do orientador, fornecendo aos internos a possibilidade de contactar com cada uma destas ao longo da sua formação, de forma a fazer uma escolha mais informada.
 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Atualmente, há 3 momentos de avaliação intercalar ao longo do internato (excluindo o exame final para aquisição do grau de Especialista), seguindo-se aos estágios de maior duração - internamento feminino/masculino e hospital de dia.
O exame intercalar, em termos de estrutura, consiste na colheita de uma história clínica sobre um/a doente do respetivo serviço onde o estágio foi realizado. Esta história será apresentada, num momento formal, a um júri constituído pelo/a Orientador/a, Tutor/a desse estágio e Diretor de Serviço. Há, adicionalmente, espaço para debater aspetos formais e teóricos dessa mesma história clínica, bem como expor e discutir o currículo e relatório de atividades do período transato. Finalmente, existe um breve exame oral com questões teóricas.
Embora sejam sempre momentos de alguma tensão, o primeiro exame acaba por ser o mais marcante e gerador de stresse e ansiedade. Os exames posteriores vão sendo, gradualmente, encarados com maior naturalidade, quase como se de uma mera formalidade se tratasse.
Ao longo do internato vamos, naturalmente, estudando todos os conteúdos que acabam por ser perguntados e abordados nos momentos de exame, pelo que o estudo nas semanas e dias prévios ao exame acaba por consistir mais numa espécie de revisão de matéria e conteúdos.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
Confrontar-nos com situações de doentes que se recusam a aceitar que precisam de ajuda. Apesar de ser uma grande dificuldade, encaro-a como um fator desafiante, já que a relação médico-doente nestes casos assume uma importância vital.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
Destaco três:
1. A sensação de gratidão em conseguir ajudar os outros com poucos recursos - muitas vezes, simplesmente através da comunicação;
2. O aprofundamento do conhecimento do Ser Humano e das suas emoções, cognições e comportamentos;
3. O desenvolvimento da empatia como a mais poderosa ferramenta terapêutica – o verdadeiro solvente das relações humanas.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – Julgo que idêntica a qualquer outra – é possível, desde que haja vontade.
Enveredar pela carreira investigacional – Está previsto que a geração que começa agora a dar os primeiros passos na Medicina irá, ao longo da sua carreira, enfrentar o "boom" de conhecimento na área da Psiquiatria. Ainda sabemos muito pouca coisa, mas os mecanismos neurobiológicos são cada vez mais relevantes e, a próxima geração vai ser responsável por esses grandes desenvolvimentos que irão revolucionar a prática psiquiátrica. Para além disso, a aliança já antiga, mas sempre atual e cada vez mais relevante, entre a Psiquiatria e outras áreas muito relevantes do Saber, como a Psicologia, abre portas a uma multiplicidade de campos de investigação, tais como: o desenvolvimento de instrumentos de diagnóstico para fins clínicos e de investigação; desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação psicológica; implementação de programas de prevenção e intervenção psicoterapêuticos, entre outras.
Constante inovação científica – Tal como mencionado na resposta anterior, será muito provavelmente na nossa geração que encontraremos a maior revolução na Psiquiatria como a conhecemos. Vamos ter muitas novidades a breve e longo prazo.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Existe muita procura no setor privado e prevê-se que seja cada vez maior. Relativamente ao setor público, são muitos os estabelecimentos do SNS por todo o país que têm a especialidade de Psiquiatria, sendo que existe alguma variância quanto à oferta assistencial entre eles, sobretudo nos mais pequenos/distritais. Estes podem, por exemplo, ter apenas serviço de consulta externa (e não internamento ou serviço de urgência). Assim sendo, é frequente abrirem concursos para vagas de assistente hospitalar de Psiquiatria.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Tinha 99% de certeza quando escolhi. Desde então (e sem algum momento de arrependimento), é um 100% seguro.
Diria que a principal surpresa foi perceber o avanço que está a ser feito em termos de investigação, na área da Saúde Mental. É algo que me deixa otimista e com vontade de fazer parte do que está para vir!
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Não descurando a vertente teórica e a importância do esforço para TUDO na vida, é essencial que um bom Psiquiatria tenha boas competências de comunicação, seja observador e empático. Estas competências, esta arte, geralmente já “vem com a pessoa", embora possa ser desenvolvida e melhorada com os anos e seja previsível que assim seja. Assim, pessoalmente, valorizaria mais a componente "talento". Voltemos a uma das questões iniciais, em que vos confessei que escolhi com o coração. Talvez esta pergunta feita a diferentes pessoas fosse, de todas, a que teria maior variabilidade nas respostas. A natureza da resposta é, provavelmente, um reflexo bastante fiel da natureza da pessoa. Mas para vos provar o meu ponto, desafio-vos a imaginarem o Dr. House como Psiquiatra, independentemente de todo o seu conhecimento teórico.
 
Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
Quando escolherem, escolham o que acreditam que vos fará felizes.
Se, após a escolha, não forem felizes… escolham outra vez. Não tenham pressa. Nesse caso, repetir o exame nunca será um ano perdido: será sempre um ano a ganhar e cada um de vós deve isso a si próprio – escolher ser feliz para o resto da vida. O trabalho ocupa uma parte importante do nosso tempo e acaba por ser uma fatia substancial da nossa identidade. Sermos infelizes nele é abrirmos a porta para sermos infelizes no resto, na vida. Não o façam. Nas palavras de Raul Solnado: “Façam o favor de ser felizes!”.

Texto redigido com a ajuda da Dra. Carolina Cabaços, em colaboração com outros colegas de Psiquiatria do CHUC 

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #10 – Hematologia Clínica

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Esta é uma especialidade que aborda principalmente patologias oncológicas e doenças crónicas, permitindo um contacto mais próximo e duradouro com os doentes. Mais ainda, está em constante evolução científica.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Sempre foi uma temática que me interessou. Mas foi apenas no ano comum, quando tive oportunidade de ter um contacto mais próximo e prolongado com ela, que me apercebi que não só as patologias abordadas como também a sua prática clínica me entusiasmavam.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
O que me fez escolher esta especialidade foi o facto de permitir o acompanhamento prolongado dos doentes, com seguimentos que por vezes duram 5 a 10 anos, permitindo-nos ter um contacto próximo com eles. Para além disto, envolve patologias oncológicas, o que faz com que o impacto do nosso trabalho na vida dos doentes seja enorme, podendo até mesmo determinar o prolongamento das suas vidas.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Dependendo do hospital, a maioria do trabalho é realizado no internamento, hospital de dia e consulta.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Tendo em conta a especificidade do trabalho realizado, muitas vezes os enfermeiros são especializados na área, o que permite uma colaboração mais estreita com eles. Em geral, nos serviços que conheço, há um ambiente de ensino e entreajuda tanto com especialistas como internos.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Apesar de Portugal não ser um centro de referência (comparativamente com outros países), temos acesso a todo o tipo de tratamentos e ensaios clínicos, felizmente, o que nos permite ter contacto com todo o tipo de valências da especialidade.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim e, em geral, são incentivados. Principalmente nas áreas em que temos menores números, como o transplante e pediatria.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
A nível do internamento, acaba por ser como qualquer outra especialidade médica. Contudo, há uma necessidade de estudo contínuo, pois apesar de existirem muitos protocolos de tratamento, todos os doentes exigem uma abordagem específica. Ao nível dos números, hospital de dia e consulta, é possível fazer uma boa gestão de tempo e não ter uma carga de trabalho exagerada. Porém, devido ao tipo de patologias, por vezes 20 minutos de consulta não é o ideal.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, com uma boa gestão de tempo, não haverá grande problema em conciliar com outras atividades. Durante o internato poderá sempre ser mais difícil, tendo em conta que existirá sempre muito estudo e trabalhos a realizar, mas, mesmo assim, será sempre possível.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)?
Normalmente, a carga horaria cinge-se às 40 horas semanais, podendo alongar-se um pouco. Em termos de urgências, em alguns hospitais fazem-se 24h (como especialista) e noutros apenas 12h, mas nunca se costuma ultrapassar o estipulado em horário. Com o avançar do internado poderão existir sempre mais responsabilidades, o que poderá incrementar mais algumas horas de trabalho.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Estando ainda no primeiro ano, tive a oportunidade de fazer a abordagem ao doente e algumas técnicas, ficando a parte do tratamento e de estudos mais específicos a cargo do especialista.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?

Conforme a necessidade do serviço onde estão colocados, poderão ter de se dedicar mais a uma patologia (mieloma múltiplo, doenças linfoproliferativas, coagulação). Contudo, isto vai variando com o tempo e acaba sempre por haver oportunidade para nos dedicarmos mais a um assunto ou outro.

 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Os momentos de avaliação são feitos no final de cada ano. Não tendo feito ainda nenhuma avaliação, não sei responder ao resto da questão.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
A constante evolução dos tratamentos e a dificuldade em consegui-los atempadamente, em algumas circunstâncias.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
A melhoria permanente dos tratamentos e o impacto que tem na vida dos doentes, tratando-se muitas vezes de situações de vida ou morte.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Enveredar pela carreira investigacional – É uma especialidade que muito prolifera no que toca a investigação e inovação científica, sendo possível seguir uma carreira na investigação, em Portugal ou noutros países.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como pública – Geralmente, a carreira evolui apenas a nível do setor público, uma vez que poucas são as instituições privadas com envergadura para ter um serviço de hematologia. Há, no entanto, alguma atividade possível de ser feita em sector privado, sobretudo consultas.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Continuaria a ser a minha escolha e está a corresponder às minhas expectativas. Conforme uma pessoa se vai inteirando dos assuntos e se vai envolvendo mais com os doentes, maior é o gosto e vontade de aprender.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sem dúvida que é uma especialidade que exige muito estudo e atualização constante. Porém, penso que as capacidades humanas são as mais importantes para lidar com os doentes afetados por doenças hemato-oncológicas.
 

Texto redigido com a ajuda da Dra. Mariana Trigo Miranda, Interna de Hematologia Clínica