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SOS Cobertura

“SOS: Save Our Souls”, o congresso de trauma e emergência médica organizado pelo Departamento de Investigação e Formação, teve a sua segunda edição entre os dias 20 e 21 de março de 2021. A Revista ANEMIA teve oportunidade de marcar presença no evento e registou vários momentos do mesmo, para levar até ti esta que é uma promissora atividade do NEM/AAC.
 

Comunicação na Sala de Trauma e Bloco Operatório

O congresso “SOS: Save Our Souls”, teve início com uma palestra ministrada pelo Professor Doutor Henrique Alexandrino, sobre comunicação na sala de urgência e bloco operatório.
Durante a apresentação e de forma bastante interativa com a plateia, salientou-se o que é necessário para que exista boa comunicação numa equipa multidisciplinar, como a que encontramos numa sala de emergência e sob cenários de grande pressão e stress.
Foram apresentados vários casos clínicos, sobre hipotéticos cenários com os quais nos poderemos deparar numa sala de emergência. Os casos foram discutidos entre médicos que compõe uma equipa de trauma da sala de emergência, pelo que a plateia teve um vislumbre da abordagem que uma equipa tem na sala de EM, com a oportunidade de intervir e participar.
Saliento o elevado interesse desta interação, que nos possibilitou entender um pouco melhor todo o raciocínio clínico necessário a um médico no SU, a importância da comunicação entre a equipa e o papel de um team leader nestes cenários.
 
Carla Maravilha, 4º ano
 

Medicina de Catástrofe e Paralelismo com a Atualidade

No desenrolar do congresso SOS, assistiu-se, por via virtual, a uma palestra inerente à Medicina de Catástrofe e seu paralelismo com a realidade, a cargo da Dra. Raquel Silva e do Dr. João Antunes.
Deste momento, destacamos o depoimento da Doutora Raquel, que esteve em missão na cidade de Gambela, Etiópia. Referindo o ambiente pobre e volátil a tal local subjacente, concluiu sentir que o seu trabalho fazia a diferença, o que lhe dá mais alento em prosseguir tão nobre caminhada, seja pelo incremento no número de pessoal diferenciado na região, melhoramento das instalações do SU, da formação técnica ou da telemedicina. Salienta, ainda, ter contribuído para a criação de pontos de água, de um laboratório e farmácia no SU, de um banco de sangue, de uma câmara de armazenamento de produtos médicos e reparação dos geradores de energia. Por fim, recorda o seu contributo para uma resposta rápida à população quando necessária, através da existência de equipamentos e medicamentos gratuitos no SU de Gambela.
 
Luís Bernardo Fernandes, 4º Ano
 

Abordagem ao trauma sexual no SU

Este tema foi palestrado por três profissionais de saúde: a Dr.ª Ana Sofia Coelho, Dr.ª Carla Carreira e Dr.ª Helena do Côrro. Embora de suma importância, foi evidente o pouco conhecimento que muitos de nós temos    quanto a ele.
“Silence is not always golden” - esta citação tocou-me de forma muito peculiar. Não apenas por se aplicar de forma transversal ao tema, mas por nos poder aparecer qualquer tipo de vítima no SU, muitas delas com vários traumas sexuais e por vezes sem disposição para colaborar.
O silêncio das vítimas exige empatia do profissional de saúde, só assim conseguirá apurar o que nem sempre se consegue verbalizar. É importante clarificar alguns conceitos: 
- Agressão sexual: atividade sexual na qual a vítima é forçada ou constrangida a participar, onde o agressor a leva a praticá-la consigo ou outra pessoa; - Manipulação: afetiva, física, material e/ou abuso de autoridade, de maneira evidente ou não.
De acordo com o Código Penal, o médico é obrigado a apresentar queixa perante casos de crime público e, quando o crime não é público, a vítima tem até 6 meses pós-agressão para apresentar queixa contra o agressor.
O que são urgências médico-legais?
● Agressões < 72 horas; 
● Ejaculação e a vítima não tomou medidas de higiene pessoal; 
● Hemorragia ou dor vaginal/anal; 

● Possibilidade de gravidez ou DST; 

● Relato de uso excessivo de violência física. 

Quando a vítima entra no SU, deve ser, primeiramente, informada da necessidade de preservar qualquer tipo de vestígio físico do agressor, mesmo sendo isto tudo aquilo que ela não quererá fazer. As colheitas só devem ser realizadas nas 72 horas seguintes à agressão e é fundamental obter consentimento informado da vítima/representante legal para a sua realização. Mais ainda, é fulcral fotodocumentar o estado físico e pertences da vítima.
Nos casos trazidos à urgência por abuso sexual, o médico deverá ser um observador independente e fundamentalmente imparcial. De seguida, deverá documentar as lesões pormenorizadamente e recolher o máximo de informação possível quanto à história da agressão. 
Ao longo de toda a apresentação, salientou-se que a ausência de vestígios físicos/biológicos não significa inexistência de abuso. 
 
Andreia Nossa, Erasmus 20/21
 

Doente Psiquiátrico em Contexto de Urgência

Como devemos abordar uma emergência psiquiátrica? Quais os procedimentos a seguir perante um paciente em distress? Estas e muitas outras questões foram abordadas de forma simples e explícita nesta palestra, que nos deu oportunidade de conhecer melhor o trabalho desenvolvido nas urgências de Saúde Mental.
É crucial estabelecer uma relação empática com o doente, privilegiando a escuta ativa, uma interação simples e congruente. Gerir o ambiente da urgência é também importante, o que implica a articulação com uma equipa multidisciplinar e a criação de um ambiente confortável, tanto para o doente como para os acompanhantes.
No final da palestra, resolvemos casos clínicos, o que tornou esta experiência mais interativa, permitindo ainda desconstruir mitos relativamente à depressão e outras patologias. A frase que mais me marcou foi, sem dúvida, a seguinte: "No SOS, é importante não só o físico, mas também a alma - o ser vivo no seu todo."
 
Joana Mendes, 4º Ano
 

Dadores de Órgãos em Paragem Circulatória

Portugal ocupa um lugar cimeiro na colheita de órgãos para transplante. No entanto, ainda tem um longo caminho pela frente no que toca a dadores em paragem circulatória. Este processo só começou em 2016, no Hospital de São João, e apenas em janeiro de 2020 chegou ao CHUC.
Para este procedimento é fulcral a ECMO, uma máquina que recolhe sangue venoso do doente e repõe-lhe sangue arterial, assegurando, assim, o seu suporte pulmonar e cardiovascular. No nosso país, os órgãos são de dadores que sofreram paragem cardiorrespiratória dentro ou fora do hospital, mas sem sucesso na tentativa de ressuscitação. Esporadicamente, podem ser colhidos de dadores que entraram em morte cerebral antes de em paragem cardiorrespiratória.
Tanto na transplantação como nas demais áreas da Medicina, a multidisciplinaridade é essencial. Da mesma forma, sem uma rotina de treino, de educação e avaliação periódica dos resultados, nenhum avanço científico é possível. Citando o Dr. Eduardo Sousa: “Nunca parar, para nunca se hesitar!”
 
Rita Nunes, 2º Ano
 

Abordagem ao trauma na grávida

Sabias que 1 em cada 12 grávidas sofrem algum tipo de trauma durante a gravidez? O trauma constitui a primeira causa de morte não obstétrica na grávida. As principais causas de trauma na grávida incluem acidentes de viação (46%), agressão física (17%), queda (25%), suicídio (3%) e queimaduras (2,7%).
Tendo em conta que os acidentes de viação correspondem a metade dos traumas gravídicos, é importante relembrar que a utilização do cinto de segurança é obrigatória, prevenindo a morte fetal em cerca de 80% dos acidentes.
Perante uma grávida vítima de agressão física, devemos sempre questionar uma possível violência doméstica, que está comumente associada a estas idas ao SU.
Qual a abordagem médica perante um trauma da grávida? A prioridade será sempre a estabilização materna e, somente quando esta estiver garantida, é que se procederá à avaliação do feto. Para além da abordagem ABCDE, é fulcral a mobilização manual uterina para a esquerda, de modo a prevenir a compressão venosa e arterial do feto.
 
Inês Sampaio, 4º ano


O Rescaldo da Nova Prova

Segunda feira, 18 de novembro, pelas 19h, decorreu um movimento em massa dos estudantes de Medicina com repercussão a nível nacional – Porto, Coimbra e Lisboa – do qual constou a assinatura de uma carta com propostas de resolução dos problemas que os estudantes de medicina estão a atravessar, o que se vê repercutido numa própria inviabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Este movimento apoiou sobretudo os colegas que prestavam exame, e reivindicou direitos pelos próximos.
O objetivo das cartas passou por chegar ao Ministério da saúde e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pela mão da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), já que sendo registadas, existe a obrigatoriedade de resposta.
Em Coimbra, Trouxemil, houve a oportunidade de entrevistar a Vice-presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), Carolina Caminata; a presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra (NEM/AAC), Catarina Dourado; o Presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade da beira Interior, Francisco Capinha; e os Mestres em Medicina e prestadores de Prova Nacional de Acesso à Especialidade, Dra. Cátia Sólis e Dr. Pedro Silva.

Catarina Dourado, quais são as principais críticas tecidas pelos estudantes, que os moveu a realizar o movimento?
Existe um problema no panorama nacional que temos enfrentado nos últimos anos e que a ANEM tem debatido afincadamente. Os estudantes não sabem o número exato de médicos que exercem medicina, tanto a nível público como privado e setor social; não sabem as exatas necessidades médicas da população a nível de especialidades, ou distribuição por região. Neste sentido vem a proposta da ANEM, depois de várias petições apresentadas em Assembleia da República com soluções para este problema, mas que têm vindo a ser constantemente ignoradas. Assim, vimos neste esforço conjunto com os candidatos que realizam a prova e os estudantes que se deslocam às caves de Coimbra, para que cheguem aos referidos Ministérios e possa ser feita alguma coisa.
Acrescento que não temos uma avaliação das necessidades do País que adeque as necessidades formativas pós-graduadas em termos de especialização médica e distribuição geográfica pelas regiões mais deficitárias dessas mesmas especialidades, para que depois também possam ser adequadas ao número de vagas, ao numerus clausus no curso de Mestrado Integrado em Medicina, para que a longo prazo haja um planeamento integrado dos recursos em Saúde.

Francisco Capinha, quais as propostas que considera mais relevantemente mencionadas na carta para solucionar o problema identificado?
A carta propõe um observatório para o planeamento de recursos humanos em saúde, que vem em Diário da República, e o objetivo passa por ter uma estrutura que congregue não só a Tutela, mas também a Ordem dos Médicos, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, o próprio Conselhos de Reitores da Universidade Portuguesa, servindo para aferir quais são as necessidades de recursos humanos em saúde em Portugal, e que permita estabelecer um planeamento estratégico do SNS a médio e longo prazo, e não só com medidas rápidas. É necessário que haja uma estrutura que consiga fazer o planeamento para sabermos onde temos de atuar, integrando e articulando aquilo que são necessidades do pós-graduados, profissionais de saúde efetivamente no ativo; e aquilo que são as necessidades de formação, isto é, no pré- graduado, quantos estudantes precisamos de formar e para que especialidades, o que  precisamos dos profissionais de saúde para termos um sistema eficiente e funcional.

Francisco, enquanto estudante da Universidade da beira Interior, hoje tiveste que te deslocar a Coimbra porque neste momento nem todas as cidades sede de escolas médicas têm possibilidade de realização de prova.
Sim, é o meu caso particular, que venho da Beira Interior, mas esta também é uma realidade da Universidade do Minho e da Universidade do Algarve, sendo que esta última nunca teve possibilidade de realização de prova e quer lutar para a ter, pois é uma grande limitação. No fundo os nossos estudantes estão dispersos pelo país, com custos acrescidos de deslocação e estadia, pontos muitos negativos que esperamos alterados num próximo ano. Questão que se pretende ver revertida para Braga e Covilhã, estendida para o Algarve.

Carolina Caminata, que resposta é espera da parte da Tutela?
A ANEM está a conversar com estes Ministérios há vários meses e nunca se passou da fase de conversação. Nunca se chegou à finalização e a uma proposta que realmente satisfizesse as necessidades do SNS de momento. O que esperamos é realmente a concretização da proposta para planeamento dos recursos de saúde em Portugal, no Diário da República, achamos ser uma necessidade grande deste momento.
Acrescento que a chave da resolução do problema também passa por juntar estes dois ministérios, que estão tão envolvidos na formação dos estudantes de Medicina em Portugal, que comecem a reunir para planear os recursos humanos em Portugal.

Interpelados os prestadores da Prova Nacional de Acesso à Especialidade, a nova prova correspondeu às expectativas criadas e deu reposta os flagelos identificados à anterior? O que achou da iniciativa do movimento das cartas?
Dra. Cátia Sólis: Em relação à Prova Piloto, o exame foi muito mais difícil e o tempo insuficiente para o seu término, havendo perguntas com a extensão de uma página ao integrarem análises laboratoriais e muito texto, muito também desnecessário e inútil para a resposta à questão. Em relação aprova anterior existe maior justiça, uma vez que pode ser questionada qualquer coisa, dada a amplitude da matriz e, portanto, não há forma das perguntas se repetirem constantemente. Há um maior apelo ao raciocínio clínico do que à memória.
Quanto ao movimento, gostei da ideia porque transpareceu o interesse e preocupação de todos para com o futuro. A Medicina está a “afundar” e quando entrámos no curso tal não se previa. O que parecia estável tornou-se uma incógnita. Há cada vez mais médicos não especializados e isso assusta. Sinceramente quando me perguntam se vale a pena entrar no Curso de Medicina, aconselho a ponderarem bem essa escolha.
Dr. Pedro Silva: Esta prova constitui uma maior aproximação àquilo que é a prática clínica, relativamente à anterior. No entanto, há certos pontos a ajustar: os enunciados por vezes demasiado longos não incentivam ao raciocínio clínico, mas sim à memorização, pelo que quase não há tempo nenhum para pensar. Acho positivo a ANEM levar as nossas reivindicações aos Ministérios, porém, acho que a situação não se vai alterar, devido às restrições impostas pelo Executivo.
A cobertura do evento terminou com a convicção de que, por mais incerto que seja o futuro da formação Médica em Portugal, os estudantes estão unidos numa luta perseverante e resistente pela qualidade da formação médica e, acima de tudo, pela melhor qualidade de prestação de serviço aos utentes.


Sara Meirinhos, 5º ano

Errar é Médico

Dificilmente se podia ter escolhido um título mais problemático. Se “errar é humano” e se “um médico é deus, e não humano” (como muitos médicos gostam de ser olhados), então poderíamos talvez deduzir que “errar não é médico”. Ora tal é, se me perdoarem a redundância, um verdadeiro erro. O nosso primeiro defeito está em assumirmos que os médicos nunca se enganam. Quanto mais tempo passo no hospital, mais sou relembrada das falhas que são inerentes aos atos médicos.
Em Portugal, os médicos raramente falam sobre os erros – pelo menos, chega muito pouco aos mais novos, nomeadamente aos estudantes de medicina. Não só é um tema quase tabu, como também a nossa formação médica não inclui geralmente aulas sobre o que é o erro médico e como lhe podemos fazer face – muito provavelmente, porque nem sequer sabemos abordar este assunto. Os médicos portugueses têm o hábito de evitar falar sobre os erros dos outros, por medo de que um dia eles próprios venham a ser criticados.
Portugal encontra-se, pois, manifestamente atrasado em relação a outros países que, por anos de experiência a tentarem combater erros no diagnóstico e no tratamento de doentes, chegaram a conclusões bem estabelecidas sobre o porquê das falhas dos médicos e como as combater.
Muitos já terão ouvido falar acerca da analogia entre a medicina (em especial, os procedimentos cirúrgicos) e a aviação. Esta última foi sofrendo uma marcada evolução ao longo das décadas, culminando numa segurança quase irrepreensível dos seus passageiros. Numa cirurgia, existe um cirurgião principal e o seu assistente (havendo ainda a enfermeira-cirurgiã e podendo haver mais cirurgiões assistentes). Num voo, temos um piloto e o seu copiloto, bem como a restante equipa de bordo. Há o descolar (indução da anestesia) e o aterrar (retirada da sedação). Existe um controlo prévio dos passageiros antes de poderem entrar no avião, bem como existe uma decisão médica prévia sobre se um determinado doente é candidato a cirurgia ou não. Poderia enumerar muitos mais paralelismos, mas o importante é o que podemos retirar disto – nomeadamente, as lições que a aviação nos pode dar de modo a evitarmos o erro médico:
1 – Torre de controlo – todos os médicos devem ter a sua atividade supervisionada. A “torre de controlo” deve ser um médico com (boa!) experiência e que saiba igualmente ensinar. Durante um estágio no estrangeiro, aprendi que certas instituições efetuam gravações de cirurgias (nomeadamente as laparoscópicas e robóticas) que depois são revistas por um ou mais cirurgiões peritos na área em questão. Tal permite registar possíveis erros e perceber melhor porque ocorreram; as gravações vídeo permitem também o seu uso posterior em sessões de formação para cirurgiões, de modo a que estes últimos estejam alertados para tais possibilidades.
2 – Simulação – é obrigatório que os pilotos, antes de começarem a pilotar aviões reais, pratiquem um número mínimo de horas em simuladores de voo. Também os médicos deveriam poder treinar virtualmente qualquer ato médico ou cirúrgico num modelo (em computador, manequim ou cadáver) antes de passarem para um doente. Como o leitor saberá, tal dificilmente corresponde à realidade em Portugal.
3 – Checklists – antes de descolar, estarão todos os motores operacionais? Haverá algum problema nos controlos do avião? A quantidade de gasolina será suficiente para a viagem? Os médicos têm também a obrigação de verificar que “tudo está a postos” antes de iniciarem uma intervenção. Existem já checklists preparadas por peritos internacionais, como a WHO Surgical Safety Checklist, que reúne vários pontos cruciais a ter em conta numa cirurgia, tais como a certificação da identidade do doente, marcação do sítio correto a operar, existência de alergias por parte do doente, entre outros.

O caso mais recente de erro médico que fez escorrer muita tinta jornalística foi precisamente o de um obstetra que tinha simplesmente “degenerado” como médico (assumindo que os erros que cometia não vinham já desde o início da sua carreira). Este caso não é uma novidade, e o fenómeno de médicos que a certo ponto da carreira começam a falhar sistematicamente, por motivos de deterioração de saúde mental ou outros, é já conhecido noutros países. Se houvesse uma torre de controlo, imparcial e abrangente, provavelmente ter-se-ia evitado estes e outros tantos erros.
Podíamos falar aqui de mil e um exemplos de erros cometidos por médicos. É importante conhecermos estas histórias para não as repetirmos nós próprios, mas, infelizmente, o que é passado já nunca se poderá alterar. Está bem estabelecido que os sistemas que tentavam condenar o autor do erro, e não o erro em si, falharam tremendamente na sua missão de diminuir a ocorrência de falhas. Por mais que queiramos apontar o dedo a alguém, o mais importante é falar sobre o que correu mal. Em países anglo-saxónicos, atos médicos e cirúrgicos que tiveram um desfecho negativo são discutidos em reuniões à porta fechada entre os médicos de um determinado serviço ou hospital (morbidity and mortality conferences). Tal também não é uma prática corrente em Portugal, infelizmente.

Em jeito de conclusão, peguei nalgumas máximas da vida e tentei adaptá-las a mensagens que considero fulcrais para qualquer clínico em geral:
1 – Sê o médico que gostarias que alguém fosse para ti
·     Olha-te ao espelho e pergunta-te a ti mesmo: “se viesse a ser tratado por alguém que soubesse tanto como eu, confiaria nessa pessoa?” Se a resposta for negativa, é imperativo que cada um reconheça a necessidade de aprender para poder inverter essa situação.
2 – A tua licença de médico acaba onde começa a dos outros
·   Aproveita para ensinar. Poderás não trabalhar para sempre, mas os teus ensinamentos podem. Ser médico é também ser professor.
3 – Dreno mole em fígado duro, tanto bate até que fura
·      Sim, um dia vais errar, por melhor médica(o) que sejas. Só não errou quem nunca fez nada. Embora não seja completamente evitável, podemos diminuir tanto a frequência como a gravidade do erro médico. Assim, esperemos que em vez de acertar no fígado, um dreno torácico fique apenas ligeiramente mal colocado, e que tal seja prontamente corrigido assim que o erro for detetado…
4 – Quem te avisa, teu doente é
·      Se uma doente afirma que tem um nódulo mamário e o médico responde “Não tem nada!”, atrasando o diagnóstico de cancro de mama por vários meses (história verídica), o mesmo não pode voltar a acontecer no futuro com outras doentes.
5 – Ignorância é infelicidade
·     Já ouviram dizer que a ignorância significa felicidade? No caso dos médicos, é uma total calamidade. Somos todos perfeitos? Mais uma vez não, mas há sempre coisas básicas que devemos saber: se, por exemplo, achas que não há problema em prescrever enalapril a uma grávida, talvez seja altura de atualizares os teus conhecimentos!
6 – O erro não morreu solteiro
·   Importa salientar que, muitas vezes, não foi um único médico quem levou ao desfecho negativo; foi também, por falta de atuação dos restantes médicos que deixaram que o erro permanecesse ou, até, se repetisse. Não é só o erro que pode resultar de um “trabalho” coletivo, mas também a própria prevenção deste pode ser feita em equipa. Por exemplo, um médico pode vir a prescrever uma medicação errada para um determinado doente; se outro médico ou profissional de saúde se aperceber desta falha e a corrigir antes da administração do fármaco, teremos evitado potenciais problemas para o doente.
7 – A justiça é cega e a medicina é muda
·    Os médicos tendem a olhar para o lado e calar-se sempre que um colega “faz asneira”. Novamente, o autor do erro, apesar de em casos muito graves dever ser punido, é quem menos nos interessa. Falar de um erro não significa envio para a prisão; contudo, pela comunidade médica temer demasiado as represálias, acaba por não querer falar dos erros em concreto – esquecemo-nos, pois, que os erros de uns são as lições de todos.
8 – Quem tem medo, compra um livro
·      O medo, em dose adequada, pode ser um bom medicamento contra o erro médico. O excesso de confiança poderá levar aos maiores erros da carreira de um médico. Importa, pois, manter a dose certa de medo, a correr em contínuo como um soro endovenoso…

Uma discussão sobre o erro em medicina necessitaria de um livro inteiro para que fosse minimamente cabal. Contudo, os estudantes de medicina portugueses têm hoje ao seu alcance palestras onde este assunto pode ser abordado, o que é ainda mais importante dada a possibilidade de o fazerem de um modo interativo. Nos dias 16 e 17 de novembro de 2019, decorrerá a 6ª edição do Congresso Nacional de Estudantes de Medicina (CNEM), em Lisboa, que trará este tema para uma Sessão Paralela, juntamente com tantos outros. Discutir o erro será, pois, a escolha mais acertada.

Eduarda Sá-Marta, 6º ano

O que me (in)diferencia?

De regresso a um novo ano letivo, abrimos as portas a uma nova edição da aNEMia, a revista que os estudantes de Medicina da FMUC constroem, estruturam, criam e na qual investem o seu tempo, a sua dedicação, a imaginação que os deixa fluir para além de todos os conceitos permanentemente estudados e avaliados, assim como um completo rigor científico associado a todo o trabalho de pesquisa e investigação. A aNEMia é vivida muito para além do papel que os nossos colegas folheiam, é vivida diariamente e é, sobretudo, debatida seriamente. Conservando este conceito, a revista deu um passo importantíssimo nesta transição que a fez ascender a Departamento do NEM/AAC, transição acompanhada por um desafiante lançamento da 55ª edição a 11 de setembro de 2019, a par de um debate que questionou todos os presentes acerca de uma temática que se traduz numa cada vez maior preocupação: a existência de médicos indiferenciados.
Deparámo-nos com esta condição que nos circunscreve e não sabemos, nem podemos saber, ficar indiferentes; não nos preocupamos diretamente com o número avassalador e crescente de indiferenciados que existem, mas ficamos realmente assustados com a possibilidade de nós virmos a ser um deles, mais um deles. Porque os indiferenciados são os nossos colegas, os colegas que estudaram arduamente durante 6 anos para alcançarem um estatuto que os encosta na margem e os impede de prosseguir na especialidade, de continuar a sonhar e de exercer a profissão pela qual percorreram o longo caminho inacabado, interrompido, obstruído por um país que parou, um Portugal conformado e estagnado.
A colaboradora da Redação e autora do artigo que gerou toda a atividade, Sara Meirinhos, introduziu o tema como “um dos maiores flagelos da formação médica” e de seguida o moderador da mesa, Dr. João Nunes, Interno de Formação Geral no CHUC, deu início ao debate questionando os convidados sobre quais consideravam ser os fatores que deram origem a esta problemática. Perante uma plateia completamente preenchida, um dos cinco oradores presentes, Vasco Mendes, Presidente da ANEM, responde que, desde 1995, o curso de Medicina tem aumentado o número de vagas, desprovido de um plano formativo e não acompanhado por perspetivas a longo prazo. Na mesma linha, o Prof. Dr. Carlos Robalo Cordeiro, atual Diretor da FMUC, comenta que “Portugal gosta de dar grandes passos sem fazer a devida estruturação”, apoiado pelo reforçado “mau planeamento” referido pelo Dr. Fausto Pinto, Presidente do Conselho das Escolas Médicas Portuguesas. Um desses casos é a alteração da prova final de acesso à especialização que necessita de várias adaptações subsequentes, nomeadamente dos currículos para a prova. Para além destes fatores, também o componente político deve ser tido em conta como afirma o Dr. João Cardoso, Interno de Cirurgia Cardiotorácica no CHUC, uma vez que dizer “aumentamos o número de estudantes de medicina” fica bem politicamente. O Dr. Luís Trindade, Presidente do Internato Médico do CHUC, conclui que o número de estudantes depende da formação e esta última da qualidade, logo, devemos refletir sobre a qualidade que pretendemos para este curso com uma média de 30 anos de serviço.
Sendo cada vez mais evidente a existência dos médicos sem especialidade, é colocada uma nova questão que se centraliza no papel destes médicos no SNS, perante a qual são mencionadas tarefas múltiplas asseguradas por uma mão-de-obra barata. “À partida, quem faz medicina é médico, mas que modelo queremos?”, é a pergunta lançada pelo Dr. Fausto Pinto, uma vez que devemos perceber se pretendemos investir numa diferenciação correta com a devida monitorização ou prolongar esta situação, mantendo alguns de parte para outras funções. Apelando a todos nós, o presidente do CEMP afirma que existe uma grande inércia e, portanto, temos de ser criativos nas soluções e propostas. Na verdade, segundo Vasco Mendes, os indiferenciados representam um encargo mais significativo na gestão hospitalar relativamente aos outros profissionais de saúde, dadas as contratações através de empresas (geridas por Médicos Especialistas…) sobretudo num país com elevada recorrência ao Serviço de Urgência. Grande parte da frente de ataque das urgências é, neste momento, assegurada por indiferenciados para satisfazerem as necessidades que deveriam ser confiadas a outros.
Com o avançar da noite, tornou-se notável a necessidade de nos fazermos uma voz cada vez mais firme e audível, de transmitirmos a vontade de nos diferenciarmos e de transformarmos este conformismo sobre o qual os políticos dormem tranquilamente. Quando questionado sobre o papel ativo de um estudante na resolução desta problemática, o Dr. Luís Trindade estimulou a proatividade dos presentes e acrescentou que não devemos deixar fragilizar a nossa estrutura, fazendo notar que a ausência de uma Comissão de Internos, quando existem cerca de mil, é uma falha a colmatar. O Dr. João Cardoso declara que é efetivamente vantajoso estar envolvido em associações que nos representam, no entanto, não nos devemos esconder atrás das grandes estruturas, devendo investir na voz conjunta que ecoa no nosso futuro, espelhada na força que nos impele a viver o sonho pelo qual abdicamos de estar noutro lugar a pensar noutra perspetiva qualquer. Queremos mais e temos o direito de concluir qualitativamente o curso pelo qual conquistámos, um dia, a nossa vaga, o nosso “sim”. Ser indiferenciado não é, de todo, o objetivo pelo qual fomos admitidos em Medicina.
Para terminar, procurou-se responder à questão “Partindo do princípio de que não queremos médicos indiferenciados no país, quais as medidas a ser tomadas nos próximos tempos?”, concluindo-se que é imprescindível uma maior comunicação entre os órgãos responsáveis e uma passagem definitiva da teoria para a prática. Para além disso, considerou-se problemático o facto de a Ordem dos Médicos não possuir um gabinete dedicado ao ensino pré-graduado, pois a existir promover-se-ia uma conversa e, consequentemente, a resolução de vários problemas.
Encerrado o debate, a noite avançou com uma nota sobre a Conferência Médica “Call Me”, a realizar-se nos dias 25, 26 e 27 de outubro, onde este também será um tema de destaque. Depois dos agradecimentos e breves palavras de encorajamento do Dr. Robalo Cordeiro, o evento terminou com um coffee break preparado pelos colaboradores do departamento, dando asas a mais um tempo de convívio e discussão pessoal. A revista, na sua totalidade, expôs-se aos mais diversos olhares, foi tocada e explorada, foi levada e finalmente lançada.
Agora que expusemos esta indiferenciação à qual estamos sujeitos, não nos deixaremos acomodar; apostaremos na continuidade e na insistência de uma história alarmante vivida atualmente por médicos que não queremos que seja a nossa.

Inês Teixeira, 3º ano
Maria Gomes, 3º ano