57ª Edição da aNEMia

Caros leitores,

Em tempos conturbados de doença, dor e medo, em que a natureza comunitária e da vida em sociedade que tanto caracteriza o Homem nos é um pouco roubada, resta-nos fazer o melhor que podemos com os meios tecnológicos que temos ao nosso dispor – nunca pensámos que tão cedo chegaria o dia em que uma SMS equivale a um sorriso ou um GIF equivale a um abraço.
Também neste momento de distanciamento e isolamento social damos por nós com horas a mais para ocupar, livros insuficientes para ler e muito poucos filmes ainda por ver. Vemo-nos entediados… Logo nós, que estamos sempre à procura de experiências, aventuras – ou, se não é o caso, pelo menos procuramos incessantemente manter uma rotina que nos preencha.
Embora não possamos dar-te a nova edição da revista aNEMia em mão, para que possas folhear e partilhar com os teus amigos, não podíamos deixar de fazer chegar até a ti a 57ª edição da aNEMia, desta vez completamente rendida ao formato online. Ainda que concordemos que não é o seu formato ideal (há melhor do que o cheiro do papel acabado de imprimir ou que a sensação de abrir uma revista/livro pela primeira vez?), nada neste momento da nossa História é ideal. Por isso, devemos colher os frutos daquilo que temos em mãos e, por isso, convidamos-vos a aceder à versão digital da nova aNEMia, agora disponível no issu do NEM/AAC (icone do meio do lado direito na versão desktop).
A 57ª edição da aNEMia é, parece-nos, a mais heterogénea. Trazemos-vos um caleidoscópio de pensamentos, temas distintos e muitos sentimentos. No mundo caótico em que vivemos atualmente, escolhemos um conjunto de temas que por vezes assustam, chocam e intimidam. A desinformação é o pior inimigo da mente que fala e esperamos contribuir para que possam viver de olhos abertos para as questões mais importantes do dia a dia ou, pelo menos, do nosso enquanto estudantes. Conheçam os órgãos que nos representam, as dores que nos são comuns e as novidades que nos ameaçam.
Tudo isto sem esquecer a contribuição especial da revista mRNA, do curso de Bioquímica, a quem nos aliámos para tornar ambos os projetos ainda mais aliciantes! Lembrem-se sempre que é fora do nosso conforto que as coisas extraordinárias acontecem!
Infelizmente, a situação vivida atualmente com a pandemia e a necessidade de distanciamento levaram ao cancelamento inevitável do nosso evento de lançamento, que pensámos para vós com tanto carinho. Lamentamos essa situação, comprometendo-nos a colmatar esse vazio com mais novidades que preencherão o vosso tempo de formas diferentes!
Lembrem-se! As portas da nossa casa estão abertas para vos receber. Sempre que quiserem fazer parte deste projeto, enviem e-mail para anemia@nemaac.net, anónimo ou não, pois teremos todo o gosto em partilhá-lo com vocês. Obrigada por nos lerem, por nos procurarem e por nos ajudarem a dar um salto neste projeto. O progresso, mesmo que seja pequeno, é sempre um passo para a frente no caminho até aos nossos sonhos.
Fiquem em segurança!

A Coordenadora da aNEMia, Sara Cardoso, 4ºano
O Editor Assistente, Filipe Barbosa, 4º ano

Saúde Mental

Hoje venho falar-vos de saúde mental. Imaginem-se num Mundo paralelo a este, não tão paralelo como queríamos porque inevitavelmente para lá caminhamos, onde a saúde mental de cada um de nós estaria a ser levada por caminhos apertados. Imaginem-se em situações desconfortáveis para vocês, para os vossos corpos e corações e aniquilem a necessidade de se sentirem bem com isso, ficando, assim, a vossa sanidade mental na primeira linha de combate. E querendo eu trazer-vos motivos para acreditar que conseguimos tudo aquilo que quisermos e ultrapassaremos este momento de maior dificuldade mundial – na saúde pública, na economia, na política, na gestão de países, na rutura de stocks - assusta-me que se fale (porque se fala, se olharmos com olhos de ver) na prioridade na saúde mental.
Em todo o Mundo existem, neste momento, milhares de pessoas fechadas nas suas casas e, aqueles que não se encontram com as portas trancadas à pandemia, encontram-se fechados em si: profissionais de saúde e profissionais na linha da frente no que toca à necessidade de bens essenciais. Essencial é, também, olhar para isto e parar para pensar. Pensar no impacto gigante que este processo trará às nossas vidas, num futuro que ainda não sabemos quando chegará. Não sabemos para onde caminhamos, mas caminhamos juntos. Importa olharmos para as nossas rotinas que agora deverão ser sobrevalorizadas, redefinir objetivos e mantermo-nos conscientes, mas em equilíbrio, como uma corda bamba entre a preocupação e a satisfação de estarmos aqui.
Ninguém pode sair para tomar o café da manhã na esplanada, ouvir a peça de teatro que dá as boas vindas ao fim de semana, passar à frente na fila do supermercado porque estava demasiado grande para a nossa pequenez e os segundos contados da nossa agenda levam-nos a pedir permissão para passar à frente.
O mundo foi chamado a abrandar e, individualmente, cada de um de nós teve de parar ou teve de acelerar na luta contra a exponencialidade da curva epidemiológica. O fim que queremos é o mesmo, nisto a humanidade está de mãos dadas. Foi preciso algo invisível e poderoso para nos fazer dar as mãos, ironia do destino ou não, sem nos podermos tocar.
E falando daquilo que me preocupa para além de tudo aquilo que nos preocupa: quero falar-vos de saúde mental.
Mantenham hábitos de vida saudável: criem um ritmo de sono adequado às vossas necessidades, saiam da cama como se fossem sair de casa (e saiam do conforto do pijama), alimentem-se bem, sem exageros mas com espaço para aquecer o coração, pratiquem exercício físico, mesmo que o sofá e a vossa inércia queira falar mais alto, ouçam aquilo que vos faz feliz a cada dia e recordem-se disso todos os dias quando acordarem, leiam, mas, acima de tudo, escrevam. Escrever consciencializa-nos. Permitam-se. Não se descuidem, não deixem de olhar pela janela e ver a coisa pelo lado bom. Mantenham a casa limpa e o cabeça no sítio, atualizem-se com informações fidedignas e apenas durante o tempo necessário para não gerar em nós (ainda mais) ansiedade.
Preocupa-me o impacto da pandemia na saúde mental. Preocupa-me que quando possamos sair à rua e nos socorrermos à liberdade, de livres pouco teremos. Preocupa-me os profissionais que depois da guerra, terão pós-traumas importantes e que necessitarão de ajuda para serem ultrapassados. Preocupa-me que não procurem ajuda. Preocupa-me as populações, desde os mais novos aos mais velhos. Temos que tomar medidas individuais que nos permitam sermos melhores e continuar a alcançar objetivos e metas que antes nos pareciam insignificantes.
É urgente cuidarmos uns dos outros, mas é urgente que cuidemos de nós.
E, no meio da incerteza e da imprevisibilidade do destino, não se esqueçam de acreditar. Não se esqueçam de ser pacientes, compreensivos e amigos deste que é o único planeta que temos para estar. Encontrem-se. Acreditem. Vamos sair. Vamos voltar a sair e nada vai ser como antes, o que não será necessariamente mau, porque temos em nós as ferramentas necessárias para nos adaptarmos à mudança desde que nascemos.
Cuidem de vocês e cuidem da vossa saúde mental, porque sem ela, aí sim, estaremos perante outra crise mundial.
Eu acredito! E tu, acreditas?
Francisca Pinho, 5º ano

O Civismo no Egocentrismo de uma Sociedade Individualista

Enceto esta reflexão, referindo que todos somos agentes de saúde pública e que, no pugnar da presente pandemia, se revela impreterível o civismo, que preconiza o respeito pelo outro.
Nas palavras de José Saramago, “o egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses”. Daí que, me indigne que haja prevaricadores que se esquivem das medidas de contingência ao frequentar, desnecessariamente, espaços públicos movimentados, sendo relevante sublinhar que quarentena não é sinónimo de férias e que a recusa deste regime quando obrigatório em confinamento profilático pode constituir difusão voluntária de doenças, punível pelo código penal.
A verdade é que a infeção por SARS-CoV-2 é inócua para uma grande parte das faixas etárias quando saudáveis, com quadros benignos ou subclínicos. Não obstante, emerge a necessidade de responsabilização social no sentido de proteger grupos de risco, a citar pessoas idosas, imunodeprimidas e com quadros oncológicos e de doenças crónicas respiratórias associadas na medida em que os recursos do SNS são limitados no que diz respeito a ventiladores e camas nos Cuidados Intensivos, passando o intuito destas medidas de contingência por aplanar a curva de infeção, evitando picos de infetados num curto período temporal e assim o colapso dos sistemas de saúde. Perceba-se que o SNS tem lacunas face ao desinvestimento gradual e que, caso não se tomem medidas de prevenção e não reativas, se pode assistir a um cenário de calamidade como nunca antes visto em décadas.
Já no que concerne aos mecanismos biológicos da doença, sabe-se que o vírus SARS-CoV-2 se blinda ao recetor ECA2, o que tem inerentes implicações terapêuticas. Sabe-se ainda que estes recetores abundam no aparelho respiratório inferior e que, por cada década de vida, o seu número aumenta 20%, o que pode explicar a maior vulnerabilidade dos mais idosos. Sabe-se também que é altamente contagioso e manifesta-se assintomático na vasta maioria das crianças, o que pode ser preocupante pela disseminação “silenciosa” do vírus.
Entenda-se para os mais distraídos que a mortalidade por gripe sazonal não atinge os 0,1%, situando-se a taxa de letalidade do vírus SARS-CoV-2 entre 2% a 4%, sendo que para tal discrepância se deve essencialmente a inexistência da denominada imunização cruzada, que se adquire de um inverno para o seguinte e que confere alguma defesa ao vírus mesmo que mude, e naturalmente de vacina.
Assim, reitero a necessidade impreterível de se evitar o contacto social próximo e aglomerações, de manter uma higiene vigilante, lavando as mãos como sendo a medida mais profícua e também afastando as mãos da boca, nariz e olhos. E, acima de tudo, fiquem em casa, saindo só o estritamente necessário.
Ainda importante, denoto clara preocupação com a irracionalidade gerada pelo alarmismo desproporcionado que conduz as pessoas a irromper pelas farmácias e supermercados, comprando desmedidamente soluções desinfetantes, máscaras – que são exclusivas para grupos de risco-, papel higiénico e bens alimentares.
Finalmente, no papel de estudante da área médica, apelo veementemente a que todos sejamos meios condutores de exemplos, respeitando as normas e procedimentos da DGS, deixando um agradecimento a todos os profissionais de saúde pelo trabalho titânico e incansável na salvaguarda dos seus doentes, mesmo podendo também contrair a doença.
Em suma, termino enfatizando que a tempestade irá passar se estivermos todos no mesmo barco, mesmo em águas agitadas e ainda vastamente desconhecidas, e se cada um de nós cultivar o altruísmo e o civismo, mesmo no egocentrismo de uma sociedade individualista.

Luís Bernardo Damasceno Fernandes, 3º ano

Escrita Criativa - Ana Sousa

Aqui, agora. Final do dia. Fugaz novembro, terceiro dia da semana.
Eles estão sentados, despertos. Ouvem-se vozes abafadas pela luz incandescente. Não há brisa nem dia, mas um pedaço de noite fria lá corre pela janela. Esgota-se nas palavras.
Fechados numa sala, escutávamos o silêncio dos objetos. Não éramos muitos. Perdidas já, havia mesas, cadeiras e um quadro em branco que parecia preencher uma divisão quase vazia. Ou quase cheia.
À minha frente, uma rapariga sorridente e atenta, fixava um ponto no horizonte que me trespassava. Cabelo cor de mel, com um gancho em forma de borboleta dourada como que a querer levantar voo e ser livre.
Sinto-me pequena. Inerte, como se os meus pés estivessem suspensos no ar. Impera a presença de olhares sobre mim, como um bisturi que me lacera. Olhares que não foram convidados.
A pessoa que está à minha frente só pode ver o que não posso esconder, e isso incomoda. Mas também já não importa. Já só vejo chamas e sufoco, tudo à minha volta entra em combustão. Imagino as cinzas do que virá depois. Depois de me ir. Daqui, de mim. De todos. Tenho fósforos no bolso e quase que queimam.
E vou voar, como um corpo que flutua na água.
A médica olhava a doente de forma minuciosa e apenas a mesa as separava. Sabia que a sua decisão ia definir tudo dali para a frente. Parecia bem, estável. O último surto psicótico já quase havia sido esquecido. Aparentemente serena, a doente mexia na borboleta dourada que adornava o seu cabelo, tentava esconder as suas intenções. Mal podia esperar por ser livre, deixar os comprimidos, as conversas dissimuladas. Iria cometer a sua última (in)sanidade. Como (in)sana que era.
Como se o mundo fosse ressurgir.

Ana Sousa, 2º ano

Efeito Borboleta

Depois de sair da crisálida, a borboleta possui ainda pequenas e macias asas antes destas assumirem a sua verdadeira forma e endurecerem. Descobrem depois a leveza do primeiro voo e, nessa inocência, voam simplesmente…
Em momento algum nos é dito de que são feitas as coisas ou como são feitas. Vamos observando e experimentando aquilo que outros observaram e experimentaram e, dessa forma, vamos decidindo quais os atalhos que queremos percorrer. É um caminho fácil? Às vezes é! Umas vezes, tem apenas algumas facilidades. Outras, é “assim-assim” e em casos menos raros do que o que se possa imaginar, é um “assim- assim” que se prolonga indeterminadamente até não sabermos mais qual o princípio da questão. É verdade que aos 18 anos (ou por volta disso), temos de fazer escolhas. Importantes, assim o dizem. Depois, é só depositar todos os nossos sonhos, esperanças e capacidades nessas escolhas e esperar que o resto “venha por acréscimo”. Mas nem sempre esse acréscimo acrescenta nem tão pouco sabemos se nos vamos aperceber disso tardia ou prematuramente. Suponhamos que faz tudo parte do processo complexo que é a transformação de um jovem adolescente (des)preocupado num jovem adulto consciencioconformado, passo a expressão.
Ora, todo este discurso motivacional e retórico em forma de desabafo serviu para finalmente iniciarmos o tema central desta pseudocrónica: Concurso de Medicina para Licenciados. Alguns devem estar a pensar… “Isso existe?”… “É um tipo de medicina alternativa?”… “É uma maneira mais fácil de entrar em medicina?”… “É uma realidade disparatada perante a problemática das vagas para a especialidade nos dias de hoje?”
Sim. Não. Depende do ponto de vista. Disparate não creio, complicado talvez. Vamos então conversar.
Ingressar no Mestrado Integrado em Medicina nem sempre é fácil e as histórias divergem. Se, por um lado, temos aqueles que sempre quiseram entrar, conseguindo ou não, temos, numa outra esfera, aqueles que se mantiveram num limbo de escolhas polivalentes e que acabaram por deixar a hipótese de lado por diferentes razões. Estes últimos acabam por navegar sob efeito de outros ventos, muitas vezes sem saberem que acabarão por chegar, na proa, ao mesmo porto e com uma bagagem a transbordar.
Licenciados, Mestres, Doutorados (ou mais, porque o céu é o limite), muitos deles tentam a sua sorte neste concurso que vai passando despercebido a quem de nada disto percebe.
Na verdade, é um concurso que faz lembrar o ingresso no ensino médico, por exemplo, dos EUA. Lá, não é possível iniciar o curso de medicina logo após o ensino secundário e tem de haver a conclusão prévia de uma licenciatura noutra área (que tem de incluir as disciplinas pré-requisito para a posterior candidatura).
Anualmente, todas as Escolas Médicas portuguesas abrem vagas por este concurso para o Mestrado Integrado em Medicina, e estas podem ser preenchidas até 15% do numerus clausus previsto pelo concurso regular de acesso, segundo a legislação atual. Contudo, a tipologia do concurso varia de faculdade para faculdade. Foquemo-nos apenas no regulamento imposto pela FMUC.
Na candidatura, há que ter atenção aos procedimentos e prazos do regulamento, para que nada falhe.

QUEM É ADMITIDO A CONCURSO?

Os candidatos terão de ser titulares de uma licenciatura ou mestrado integrado nacional, em áreas afim da Medicina (Biologia, Bioquímica, Ciências da Nutrição, Ciências do Desporto, Ciências Farmacêuticas, Cursos de Tecnologia da Saúde, Enfermagem, Engenharia Biomédica, Medicina Dentária, Medicina Veterinária e Psicologia) e satisfazer o pré-requisito fixado para acesso ao curso no respetivo ano letivo (este último ponto é exatamente igual ao contingente normal).
Não será novidade dizer que a candidatura está sujeita a um emolumento no valor de 100€ (relativamente ao panorama nacional, até é simpático por ser dos menos dispendiosos) e que os devidos documentos (formulário de candidatura, comprovativo de pagamento, BI/CC, documentos oficiais comprovativos da conclusão do ensino secundário e de licenciatura ou mestrado integrado) têm obrigatoriamente de ser apresentados e as candidaturas que não cumpram qualquer um dos requisitos são liminarmente indeferidas pelo júri competente.

COMO TUDO SE PROCESSA?

O concurso é, antes de mais, dividido em duas fases.
Na 1ª fase, são aplicados critérios de seriação que se prendem com três etapas fundamentais que são, individualmente, cotadas para 20 pontos, num total de 60 pontos: idade (até aos 29 anos, não há penalização e são atribuídos 20 pontos, começando a ser descontados pontos a partir dessa idade) – e vocês dizem “Fácil!”, ao passo que eu digo “Olhem que às vezes este critério pode estragar os planos a muito boa gente!” –, média final do Ensino Secundário ou equivalente (numa escala de 20, a média arredondada às unidades corresponde à pontuação respetiva) – “Pois é, para quem pensa que as médias não interessam… interessam” – e, por último, média da licenciatura ou mestrado integrado – “Estão a ver como as médias continuam a interessar? Duplamente!”. Perante isto, feitas as contas de “sumir”, apenas 48 pessoas (os tais 15% das vagas mais 10) das centenas que costumam concorrer, vão estar do lado certo da matemática e vão passar à 2ª fase.
Esta última é talvez a mais desafiante e que deveria existir em todos os concursos para cursos que implicam relacionamento interpessoal, como é o caso de medicina: a entrevista. Tem a curta duração de 15 minutos, três atentos jurados e embala o projeto de um sonho. Na 2ª fase, o máximo de candidatos que podem ser admitidos não pode ser superior às 38 vagas disponíveis (mas mesmo estas 38 vagas podem não ser todas preenchidas, tudo vai depender dos candidatos a concurso e do seu desempenho na entrevista).
A entrevista varia entre candidatos, e procura avaliar o mesmo de uma forma geral e, simultaneamente, personalizada. A postura, a vontade e garra demonstradas para frequentar o curso de medicina são importantes, mas também são avaliados os atributos/valores que o corpo docente júri considera essenciais num futuro médico. A lista é extensa: empatia, discernimento, perseverança, argumentação sobre questões atuais, aspirações pessoais/profissionais, entre outros temas “fora da caixa” (o que talvez seja uma maneira eficaz de alavancar ou enterrar o candidato, já que a diferença entre quem entra ou não está nos detalhes).
Para os leitores que possam questionar-se: “Como se conhece alguém em 15 minutos? É impossível, até porque há muitos fatores externos que podem influenciar!” Tem razão, caro leitor. Não é uma tarefa fácil (daí apenas cerca de 20 pessoas terem entrado nos últimos anos), mas acredite que em 15 minutos de  pressão, eles vão testar o candidato até verem onde ele pode ir, esperando que o candidato se teste a si próprio.
A pressão pode pairar de várias formas: uma conversa informal, um questionário em que cada jurado desempenha o papel de “bom”, “mau” e “moderador”, uma “reunião” bem ao estilo tradicional de entrevista de emprego… É impossível saber o que vai suceder a cada um. Os candidatos devem mostrar ter disponibilidade total para a demanda exigente que o curso representa, e terem mais “vida” para lá do estudo é importante. Aptidões/interesses noutras áreas são valorizados, assim como motivações/opiniões pessoais, atividades extracurriculares socioculturais, percurso académico e/ou profissional… Acho que já me fiz entender.
Depois, é só esperar ansiosamente pela lista dos candidatos admitidos e ter fé.
Há que contextualizar este concurso no cenário atual. “Um disparate”, pensam muitos, face à realidade da falta de vagas para a especialidade que se tem verificado. Diria que é uma forma diferente de ingressar em medicina, mas não que é mais ou menos justa. Tem vantagens e desvantagens, como em tudo na vida, no entanto, não me cabe fazer juízos de valor acerca da abolição do mesmo. Estaria a dar a face à hipocrisia.
Mas, calma, temos pés bem assentes no chão e está claro que os problemas existem e não nos passam simplesmente ao lado (não a toda a gente), e são preocupantes. Vamos aos factos:
- Há uma distribuição anormal de médicos no país, sendo muitos deles atraídos para o setor privado, saindo assim do Serviço Nacional de Saúde (SNS);
- SNS está carenciado em médicos especialistas;
- Redução das vagas para a especialidade;
- Reitera-se que o numerus clausus de vagas em medicina é excessivo, o que não contribui favoravelmente para uma eficiente formação médica e põe o futuro dos jovens estudantes na corda bamba;
- Recém-formados portugueses que estudaram no estrangeiro, voltam com melhores médias para tirar especialidade;
- Caos instalado.
Estão a ver? Escrevo meia dúzia de premissas e rapidamente quem se esforça por entender esta trapalhada conclui: é uma questão política. E o panorama não vai melhorar (nisto, todos devemos concordar). Devido à falta de planificação de recursos humanos e pela dificuldade em atuar perante os obstáculos.
A existir, a redução das vagas no contingente normal repercutir-se-á automaticamente neste concurso. Ultimamente, não têm vindo a ser todas preenchidas (na FMUC) e isso já pode ser uma forma de restrição.
Pode acontecer que os licenciados sejam alvo de algumas críticas relativamente aos alunos do contingente geral, sendo “acusados de ingressarem com menos mérito”. Ao contrário do que já ouvi, estes licenciados podem ser tão brilhantes como os seus pares. Terem entrado por esta via não implica terem de ser rotulados como “pessoas cuja média não foi suficiente”. Essa ideia não deve ser generalizada como um dogma, porque a verdade é multifacetada. Isso pode ser efetivamente verdade em alguns casos, mas não noutros e, querendo optar por essa afirmação enviesada, ficam por analisar outras características tão importantes que não vêm anexadas às centésimas de uma média (do ensino secundário) final.
O percurso de vida de cada um, inclusive de um licenciado (ou mais graduado), como um origami, pode ser moldado sem nunca, porém, lhe serem apagados os vincos da sua história passada. Por isso… Voltar atrás para seguir em frente? Porque não? Se já deram o primeiro passo, que é optar por esta via (o que já demonstra muita capacidade de resiliência), só resta continuar. Vão ficar espantados com as repercussões que esse sonho poderá ter daí em diante, se o souberem agarrar.

Sublime, a borboleta vagueia na brisa estival exibindo o brilho na parte superior das suas asas. Numa elegância, dobram, desdobram e poisam gentilmente. Saberão elas da sua culpa na tempestade, por terem simplesmente voado?
Ana Sousa, 2º ano

Escrita Criativa - Pedro Silva

As canetas deslizam sobre o papel branco que contrasta com o céu lá fora. O dia está
a terminar com a folha rasurada e à espera de ser completada como pele cravada de tatuagens.
A palestra decorria numa sala carregada de recordações das aulas de medicina. Eu estava rodeado de pessoas fazendo relembrar alguns episódios até talvez marcantes na minha vida. A sala tinha a mente carregada.
Pequena e interessada, a rapariga ávida de curiosidade estava muito concentrada e compenetrada no discurso da palestrante. Percebia-se o entusiasmo incorporado por ela na sessão. Ela tinha vindo de propósito de Lisboa.
Eu sentia-me observada e fragmentada por um rapaz com aspeto descuidado. Queria desaparecer, fugir, destruir tudo à minha volta para que ele não me perseguisse. Repulsa é a palavra que sinto neste momento. Continuo a escrever condicionada por uma mão forte que se chama medo.
A sessão caminha a passos largos do fim, o desconforto da rapariga parece que está a desvanecer-se. O rapaz tirou os olhos dela e começou a escrever, a escrever, … tanto que a folha se encontrava totalmente cravejada de palavras. Finalmente o texto ganhava corpo.
O fim chegou. Cada um foi-se embora para as suas vidas, para o seu núcleo, sem mais se cruzarem: o rapaz e a rapariga. É o tempo que continua a andar até que estes fetos atinjam o final do tempo de gestação da vida.


              Pedro Silva, escrito no Workshop de Escrita Criativa

O Rescaldo da Nova Prova

Segunda feira, 18 de novembro, pelas 19h, decorreu um movimento em massa dos estudantes de Medicina com repercussão a nível nacional – Porto, Coimbra e Lisboa – do qual constou a assinatura de uma carta com propostas de resolução dos problemas que os estudantes de medicina estão a atravessar, o que se vê repercutido numa própria inviabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Este movimento apoiou sobretudo os colegas que prestavam exame, e reivindicou direitos pelos próximos.
O objetivo das cartas passou por chegar ao Ministério da saúde e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pela mão da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), já que sendo registadas, existe a obrigatoriedade de resposta.
Em Coimbra, Trouxemil, houve a oportunidade de entrevistar a Vice-presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), Carolina Caminata; a presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação Académica de Coimbra (NEM/AAC), Catarina Dourado; o Presidente do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade da beira Interior, Francisco Capinha; e os Mestres em Medicina e prestadores de Prova Nacional de Acesso à Especialidade, Dra. Cátia Sólis e Dr. Pedro Silva.

Catarina Dourado, quais são as principais críticas tecidas pelos estudantes, que os moveu a realizar o movimento?
Existe um problema no panorama nacional que temos enfrentado nos últimos anos e que a ANEM tem debatido afincadamente. Os estudantes não sabem o número exato de médicos que exercem medicina, tanto a nível público como privado e setor social; não sabem as exatas necessidades médicas da população a nível de especialidades, ou distribuição por região. Neste sentido vem a proposta da ANEM, depois de várias petições apresentadas em Assembleia da República com soluções para este problema, mas que têm vindo a ser constantemente ignoradas. Assim, vimos neste esforço conjunto com os candidatos que realizam a prova e os estudantes que se deslocam às caves de Coimbra, para que cheguem aos referidos Ministérios e possa ser feita alguma coisa.
Acrescento que não temos uma avaliação das necessidades do País que adeque as necessidades formativas pós-graduadas em termos de especialização médica e distribuição geográfica pelas regiões mais deficitárias dessas mesmas especialidades, para que depois também possam ser adequadas ao número de vagas, ao numerus clausus no curso de Mestrado Integrado em Medicina, para que a longo prazo haja um planeamento integrado dos recursos em Saúde.

Francisco Capinha, quais as propostas que considera mais relevantemente mencionadas na carta para solucionar o problema identificado?
A carta propõe um observatório para o planeamento de recursos humanos em saúde, que vem em Diário da República, e o objetivo passa por ter uma estrutura que congregue não só a Tutela, mas também a Ordem dos Médicos, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, o próprio Conselhos de Reitores da Universidade Portuguesa, servindo para aferir quais são as necessidades de recursos humanos em saúde em Portugal, e que permita estabelecer um planeamento estratégico do SNS a médio e longo prazo, e não só com medidas rápidas. É necessário que haja uma estrutura que consiga fazer o planeamento para sabermos onde temos de atuar, integrando e articulando aquilo que são necessidades do pós-graduados, profissionais de saúde efetivamente no ativo; e aquilo que são as necessidades de formação, isto é, no pré- graduado, quantos estudantes precisamos de formar e para que especialidades, o que  precisamos dos profissionais de saúde para termos um sistema eficiente e funcional.

Francisco, enquanto estudante da Universidade da beira Interior, hoje tiveste que te deslocar a Coimbra porque neste momento nem todas as cidades sede de escolas médicas têm possibilidade de realização de prova.
Sim, é o meu caso particular, que venho da Beira Interior, mas esta também é uma realidade da Universidade do Minho e da Universidade do Algarve, sendo que esta última nunca teve possibilidade de realização de prova e quer lutar para a ter, pois é uma grande limitação. No fundo os nossos estudantes estão dispersos pelo país, com custos acrescidos de deslocação e estadia, pontos muitos negativos que esperamos alterados num próximo ano. Questão que se pretende ver revertida para Braga e Covilhã, estendida para o Algarve.

Carolina Caminata, que resposta é espera da parte da Tutela?
A ANEM está a conversar com estes Ministérios há vários meses e nunca se passou da fase de conversação. Nunca se chegou à finalização e a uma proposta que realmente satisfizesse as necessidades do SNS de momento. O que esperamos é realmente a concretização da proposta para planeamento dos recursos de saúde em Portugal, no Diário da República, achamos ser uma necessidade grande deste momento.
Acrescento que a chave da resolução do problema também passa por juntar estes dois ministérios, que estão tão envolvidos na formação dos estudantes de Medicina em Portugal, que comecem a reunir para planear os recursos humanos em Portugal.

Interpelados os prestadores da Prova Nacional de Acesso à Especialidade, a nova prova correspondeu às expectativas criadas e deu reposta os flagelos identificados à anterior? O que achou da iniciativa do movimento das cartas?
Dra. Cátia Sólis: Em relação à Prova Piloto, o exame foi muito mais difícil e o tempo insuficiente para o seu término, havendo perguntas com a extensão de uma página ao integrarem análises laboratoriais e muito texto, muito também desnecessário e inútil para a resposta à questão. Em relação aprova anterior existe maior justiça, uma vez que pode ser questionada qualquer coisa, dada a amplitude da matriz e, portanto, não há forma das perguntas se repetirem constantemente. Há um maior apelo ao raciocínio clínico do que à memória.
Quanto ao movimento, gostei da ideia porque transpareceu o interesse e preocupação de todos para com o futuro. A Medicina está a “afundar” e quando entrámos no curso tal não se previa. O que parecia estável tornou-se uma incógnita. Há cada vez mais médicos não especializados e isso assusta. Sinceramente quando me perguntam se vale a pena entrar no Curso de Medicina, aconselho a ponderarem bem essa escolha.
Dr. Pedro Silva: Esta prova constitui uma maior aproximação àquilo que é a prática clínica, relativamente à anterior. No entanto, há certos pontos a ajustar: os enunciados por vezes demasiado longos não incentivam ao raciocínio clínico, mas sim à memorização, pelo que quase não há tempo nenhum para pensar. Acho positivo a ANEM levar as nossas reivindicações aos Ministérios, porém, acho que a situação não se vai alterar, devido às restrições impostas pelo Executivo.
A cobertura do evento terminou com a convicção de que, por mais incerto que seja o futuro da formação Médica em Portugal, os estudantes estão unidos numa luta perseverante e resistente pela qualidade da formação médica e, acima de tudo, pela melhor qualidade de prestação de serviço aos utentes.


Sara Meirinhos, 5º ano

Terapêuticas Não Convencionais

A “Lei do enquadramento base das terapêuticas não convencionais”, Decreto Lei no 45/2003, 22 de agosto, estabelece o “enquadramento da atividade e do exercício dos profissionais que aplicam as terapêuticas não convencionais, tal como são definidas pela Organização Mundial de Saúde”. Considera que delas fazem parte aquelas que “partem de uma base filosófica diferente da medicina convencional e aplicam processos específicos de diagnóstico e terapêuticas próprias” e esclarece que “para efeitos de aplicação da presente lei são reconhecidas como terapêuticas não convencionais as praticadas pela acupunctura, homeopatia, osteopatia, naturopatia, fitoterapia e quiropraxia”.
Apesar de terem legislação própria, estas técnicas não têm regulamentação que lhes permita aceder ao Sistema Nacional de Saúde (SNS), questão que se tem verdadeiramente imposto neste último ano no universo da saúde.
A 25 de janeiro de 2019, o Jornal de Notícias noticiou a assinatura de uma declaração conjunta entre a Ordem dos Médicos portuguesa e a congénere espanhola, Conselho Geral de Colégios Oficiais de Médicos, “em que rejeitam as pseudoterapias e as pseudociências e exigem que estas sejam retiradas dos serviços de saúde e dos consultórios médicos”.
O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, vetou a 31 de janeiro de 2019 o diploma do Governo que reconhecia interesse público à Escola Superior de Terapêuticas Não Convencionais, argumentando que “as Ordens Profissionais competentes não aprovam o ensino de terapêuticas não convencionais” e por “não haver validade cientificamente comprovada”. Na nota publicada no website da Presidência, foram ainda sublinhados os “recuos nesta matéria em países onde o seu ensino tinha sido liberalizado”, e lembrado que em Portugal “apenas foram autorizados cursos públicos deste tipo em dois Politécnicos, mas a título experimental e temporário, tendo sido recusados a outras universidades privadas” e, por conseguinte, “na ausência de garantias de futuro reconhecimento profissional [...] neste momento, não há condições [para a aprovação deste diploma]”.
A 29 de março de 2019 foi noticiado pelo Jornal Observador o manifesto “Por cuidados de saúde de base científica”, assinado por cerca de 700 pessoas, enviado a 26 de março do mesmo ano “a todas as forças políticas com representação na Assembleia da República e a três comissões parlamentares, juntamente com um pedido de audiência”, de acordo com a Comcept (Comunidade Cética Portuguesa), promotora do manifesto. Além de procurar destacar o “desperdício de recursos humanos e materiais”, alerta para “danos diretos, objetivos e mensuráveis, ou indiretos” das terapias não complementares, situação de particular alarme se forem integradas no SNS, principalmente pela falta de evidência científica. O manifesto pede, assim, que seja revogada a legislação própria a estas práticas. É afirmado que se “Portugal goza de níveis de saúde a par com os melhores do mundo”, isso se deve ao facto de as práticas médicas convencionais serem “cientificamente validados e em permanente evolução”, e que a legislação “não traz qualquer benefício concreto à saúde dos portugueses”, é “esbanjadora de recursos e, em última análise, deletéria para a saúde dos portugueses”.
Armando Brito de Sá, médico especialista em Medicina Geral e Familiar e membro da Comunidade Cética Portuguesa, primeiro subscritor do documento, em declarações ao Jornal Público, publicadas a 26 de março de 2019, defende que a intenção “não é, de todo, proibir estas práticas”. “Regulamentá-las, sim, mas fora do âmbito da saúde e não como disciplinas com igualdade científica, como se pretende fazer atualmente em termos de cursos superior. Que sejam remetidas para o seu verdadeiro lugar, o bem-estar, o lazer, e não como intervenções terapêuticas, de tratamento”.
Este tema já deu mote ao programa de debate “Prós e Contras” do dia 1 de abril de 2019 da RTP1, contrapondo médicos, investigadores e praticantes destas técnicas complementares, do qual se ressalva que a verdade científica deve prevalecer sempre, e a maior validade científica só é garantida por ensaios randomizados controlados revistos por pares, que não são efetuados pelos praticantes das “terapêuticas não convencionais”. Também no programa “Olhe que não” da Rádio TSF, de 13 de fevereiro de 2019, que colocou em debate o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, e o naturopata João Beles, foi trazido a público o facto de os produtos aconselhados por estas “terapêuticas não convencionais” estarem mal regulamentados, tendo um caminho alternativo para chegarem ao mercado, já que não seguem as mesmas regras dos ensaios clínicos, não tendo que passar por um longo e complexo percurso, à semelhança dos fármacos utilizados na medicina convencional.
É impreterivelmente importante a consciência de que são as forças políticas, por meio dos Deputados na Assembleia da República, que fazem ou não avançar as políticas em saúde. Que os saibamos sempre escolher. 
Sara Meirinhos, 5º ano

Errar é Médico

Dificilmente se podia ter escolhido um título mais problemático. Se “errar é humano” e se “um médico é deus, e não humano” (como muitos médicos gostam de ser olhados), então poderíamos talvez deduzir que “errar não é médico”. Ora tal é, se me perdoarem a redundância, um verdadeiro erro. O nosso primeiro defeito está em assumirmos que os médicos nunca se enganam. Quanto mais tempo passo no hospital, mais sou relembrada das falhas que são inerentes aos atos médicos.
Em Portugal, os médicos raramente falam sobre os erros – pelo menos, chega muito pouco aos mais novos, nomeadamente aos estudantes de medicina. Não só é um tema quase tabu, como também a nossa formação médica não inclui geralmente aulas sobre o que é o erro médico e como lhe podemos fazer face – muito provavelmente, porque nem sequer sabemos abordar este assunto. Os médicos portugueses têm o hábito de evitar falar sobre os erros dos outros, por medo de que um dia eles próprios venham a ser criticados.
Portugal encontra-se, pois, manifestamente atrasado em relação a outros países que, por anos de experiência a tentarem combater erros no diagnóstico e no tratamento de doentes, chegaram a conclusões bem estabelecidas sobre o porquê das falhas dos médicos e como as combater.
Muitos já terão ouvido falar acerca da analogia entre a medicina (em especial, os procedimentos cirúrgicos) e a aviação. Esta última foi sofrendo uma marcada evolução ao longo das décadas, culminando numa segurança quase irrepreensível dos seus passageiros. Numa cirurgia, existe um cirurgião principal e o seu assistente (havendo ainda a enfermeira-cirurgiã e podendo haver mais cirurgiões assistentes). Num voo, temos um piloto e o seu copiloto, bem como a restante equipa de bordo. Há o descolar (indução da anestesia) e o aterrar (retirada da sedação). Existe um controlo prévio dos passageiros antes de poderem entrar no avião, bem como existe uma decisão médica prévia sobre se um determinado doente é candidato a cirurgia ou não. Poderia enumerar muitos mais paralelismos, mas o importante é o que podemos retirar disto – nomeadamente, as lições que a aviação nos pode dar de modo a evitarmos o erro médico:
1 – Torre de controlo – todos os médicos devem ter a sua atividade supervisionada. A “torre de controlo” deve ser um médico com (boa!) experiência e que saiba igualmente ensinar. Durante um estágio no estrangeiro, aprendi que certas instituições efetuam gravações de cirurgias (nomeadamente as laparoscópicas e robóticas) que depois são revistas por um ou mais cirurgiões peritos na área em questão. Tal permite registar possíveis erros e perceber melhor porque ocorreram; as gravações vídeo permitem também o seu uso posterior em sessões de formação para cirurgiões, de modo a que estes últimos estejam alertados para tais possibilidades.
2 – Simulação – é obrigatório que os pilotos, antes de começarem a pilotar aviões reais, pratiquem um número mínimo de horas em simuladores de voo. Também os médicos deveriam poder treinar virtualmente qualquer ato médico ou cirúrgico num modelo (em computador, manequim ou cadáver) antes de passarem para um doente. Como o leitor saberá, tal dificilmente corresponde à realidade em Portugal.
3 – Checklists – antes de descolar, estarão todos os motores operacionais? Haverá algum problema nos controlos do avião? A quantidade de gasolina será suficiente para a viagem? Os médicos têm também a obrigação de verificar que “tudo está a postos” antes de iniciarem uma intervenção. Existem já checklists preparadas por peritos internacionais, como a WHO Surgical Safety Checklist, que reúne vários pontos cruciais a ter em conta numa cirurgia, tais como a certificação da identidade do doente, marcação do sítio correto a operar, existência de alergias por parte do doente, entre outros.

O caso mais recente de erro médico que fez escorrer muita tinta jornalística foi precisamente o de um obstetra que tinha simplesmente “degenerado” como médico (assumindo que os erros que cometia não vinham já desde o início da sua carreira). Este caso não é uma novidade, e o fenómeno de médicos que a certo ponto da carreira começam a falhar sistematicamente, por motivos de deterioração de saúde mental ou outros, é já conhecido noutros países. Se houvesse uma torre de controlo, imparcial e abrangente, provavelmente ter-se-ia evitado estes e outros tantos erros.
Podíamos falar aqui de mil e um exemplos de erros cometidos por médicos. É importante conhecermos estas histórias para não as repetirmos nós próprios, mas, infelizmente, o que é passado já nunca se poderá alterar. Está bem estabelecido que os sistemas que tentavam condenar o autor do erro, e não o erro em si, falharam tremendamente na sua missão de diminuir a ocorrência de falhas. Por mais que queiramos apontar o dedo a alguém, o mais importante é falar sobre o que correu mal. Em países anglo-saxónicos, atos médicos e cirúrgicos que tiveram um desfecho negativo são discutidos em reuniões à porta fechada entre os médicos de um determinado serviço ou hospital (morbidity and mortality conferences). Tal também não é uma prática corrente em Portugal, infelizmente.

Em jeito de conclusão, peguei nalgumas máximas da vida e tentei adaptá-las a mensagens que considero fulcrais para qualquer clínico em geral:
1 – Sê o médico que gostarias que alguém fosse para ti
·     Olha-te ao espelho e pergunta-te a ti mesmo: “se viesse a ser tratado por alguém que soubesse tanto como eu, confiaria nessa pessoa?” Se a resposta for negativa, é imperativo que cada um reconheça a necessidade de aprender para poder inverter essa situação.
2 – A tua licença de médico acaba onde começa a dos outros
·   Aproveita para ensinar. Poderás não trabalhar para sempre, mas os teus ensinamentos podem. Ser médico é também ser professor.
3 – Dreno mole em fígado duro, tanto bate até que fura
·      Sim, um dia vais errar, por melhor médica(o) que sejas. Só não errou quem nunca fez nada. Embora não seja completamente evitável, podemos diminuir tanto a frequência como a gravidade do erro médico. Assim, esperemos que em vez de acertar no fígado, um dreno torácico fique apenas ligeiramente mal colocado, e que tal seja prontamente corrigido assim que o erro for detetado…
4 – Quem te avisa, teu doente é
·      Se uma doente afirma que tem um nódulo mamário e o médico responde “Não tem nada!”, atrasando o diagnóstico de cancro de mama por vários meses (história verídica), o mesmo não pode voltar a acontecer no futuro com outras doentes.
5 – Ignorância é infelicidade
·     Já ouviram dizer que a ignorância significa felicidade? No caso dos médicos, é uma total calamidade. Somos todos perfeitos? Mais uma vez não, mas há sempre coisas básicas que devemos saber: se, por exemplo, achas que não há problema em prescrever enalapril a uma grávida, talvez seja altura de atualizares os teus conhecimentos!
6 – O erro não morreu solteiro
·   Importa salientar que, muitas vezes, não foi um único médico quem levou ao desfecho negativo; foi também, por falta de atuação dos restantes médicos que deixaram que o erro permanecesse ou, até, se repetisse. Não é só o erro que pode resultar de um “trabalho” coletivo, mas também a própria prevenção deste pode ser feita em equipa. Por exemplo, um médico pode vir a prescrever uma medicação errada para um determinado doente; se outro médico ou profissional de saúde se aperceber desta falha e a corrigir antes da administração do fármaco, teremos evitado potenciais problemas para o doente.
7 – A justiça é cega e a medicina é muda
·    Os médicos tendem a olhar para o lado e calar-se sempre que um colega “faz asneira”. Novamente, o autor do erro, apesar de em casos muito graves dever ser punido, é quem menos nos interessa. Falar de um erro não significa envio para a prisão; contudo, pela comunidade médica temer demasiado as represálias, acaba por não querer falar dos erros em concreto – esquecemo-nos, pois, que os erros de uns são as lições de todos.
8 – Quem tem medo, compra um livro
·      O medo, em dose adequada, pode ser um bom medicamento contra o erro médico. O excesso de confiança poderá levar aos maiores erros da carreira de um médico. Importa, pois, manter a dose certa de medo, a correr em contínuo como um soro endovenoso…

Uma discussão sobre o erro em medicina necessitaria de um livro inteiro para que fosse minimamente cabal. Contudo, os estudantes de medicina portugueses têm hoje ao seu alcance palestras onde este assunto pode ser abordado, o que é ainda mais importante dada a possibilidade de o fazerem de um modo interativo. Nos dias 16 e 17 de novembro de 2019, decorrerá a 6ª edição do Congresso Nacional de Estudantes de Medicina (CNEM), em Lisboa, que trará este tema para uma Sessão Paralela, juntamente com tantos outros. Discutir o erro será, pois, a escolha mais acertada.

Eduarda Sá-Marta, 6º ano

Primeira Publicação

Caros Leitores,

Bem-vindos à Página Digital da revista do NEM/AAC: a aNEMia! A XXII Direção do NEM decidiu alargar os nossos horizontes e, por isso, criar um departamento reservado para a revista aNEMia. Esta inovação permitiu-nos dedicar mais tempo a este projeto e encontrar formas inovadoras de o levar mais longe. Assim, decidimos dar à aNEMia mais do que somente o formato impresso e conquistar os leitores no meio digital. É, para nós, um enorme orgulho atingir este objetivo e partilhar o fantástico conteúdo produzido pela nossa Redação com mais e mais pessoas.
Deste modo, comprometemo-nos a continuar o fascinante trabalho da redação anterior, aceitando novos desafios e contando sempre com a vossa companhia! Esperamos proporcionar uma fonte de leitura cativante e pertinente para o nosso círculo de leitores!
Queremos, através desta página e da nossa revista, promover a expressão dos estudantes e aumentar a sua ligação não só com o NEM, mas também com a Faculdade, a Medicina e o Mundo.
É assim, com um enorme prazer e com a perspetiva de caminhar a passos de gigante, aproximando-nos de todos aqueles que nos quiserem ler e conhecer, que vos apresentamos a renovada aNEMia!

“Tudo pode ser escrito, se houver coragem para o fazer. O pior inimigo da criatividade é a Insegurança” – Sylvia Plath

A Coordenadora da aNEMia, Sara Cardoso, 4º ano
O Editor Assistente da aNEMia, Filipe Barbosa, 4º ano

Heróis do Quotidiano

Andamos pelas ruas, pelos passeios, dentro de carros, olhamos pelas janelas, cruzamo-nos com eles, mas não os vemos. Nunca os vemos. Nunca sabemos. Se olhamos, não notamos. Talvez não nos interessem, talvez nos sejam invisíveis.
São eles, são os heróis que nos guiam, que nos salvam, que nos inspiram. Inspiram-nos a ser o nosso melhor. Ensinam-nos a inspirar, a mostrar que o podemos ser, que podemos fazer melhor, que podemos ser os nossos próprios heróis.
Um herói não tem de ser aquele homem gigante de capa ao vento, com collants demasiado apertados e roupa interior vestida por cima da restante. Heróis! Uma palavra tão estranha para os nossos ouvidos, mas tão familiar. Eles existem, andam por aí. Andam por aí, mas não os vemos. Não nos interessam.
Temos os olhos virados para nós mesmos, alheios de tudo o que não o nosso umbigo. Não temos noção do que nos rodeia, dos heróis que temos à nossa volta. Heróis como aquela mãe que nos acorda, nos faz o pequeno-almoço e nos leva à escola, mesmo tendo aquela dor de cabeça que parece nunca passar. Heróis como um pai que nunca para em casa, que se mata a trabalhar para pôr comida na mesa e, especialmente, para pagar aquelas sapatilhas fixes que todos os famosos usam hoje em dia e que todos os filhos querem.
Estes são os heróis. Heróis que não vemos, que nos seguem e que nós seguimos. Estão sempre lá, mesmo passando despercebidos. E nós? Será que estamos?
Existem mais, claro. Não são apenas estes. Também outros o são. Também outros merecem uma capa. Heróis como um tio, cuja paixão eram os aviões, cuja paixão era voar, mas que nunca pode realmente abrir asas. Não passava de um rapaz. Um rapaz a seguir um sonho que nunca chegaria. Ficou cego. Sim, cego. Tudo por causa de uma brincadeira e uma granada supostamente desativada. Um azar que lhe tirou a visão e a vida como a conhecia. Também o seu futuro lhe fora roubado. Estava tão perto e não chegou lá. Herói? Parece mais alguém sem sorte. Mas sim, trata-se realmente de um herói, de alguém cuja esmagadora força de vontade prevaleceu sobre os obstáculos.
São heróis como este que nos fazem pensar, aproveitar a vida, querer ser como eles: fortes, perseverantes, felizes. Enfim, heróis. Pessoas que apesar de terem perdido o seu sonho, a sua razão de viver, encontraram uma nova. Continuaram, formaram-se em Direito, escreveram, fizeram pelos outros, fundaram e presidiram a ACAPO e, acima de tudo, foram felizes. Conhecem algo mais irónico do que um cego numa biblioteca? Bem, este cego criou o Serviço de Leitura Especial para Deficientes Visuais, na Biblioteca Municipal de Coimbra, onde trabalhou até ao fim da sua vida. Não ficou por aí, passou por muitos cargos, desde diretor das revistas “Luís Braille” e “Jardim da Sereia” a pai. Sim, pai. Para mim não pode deixar de ser um herói. Nunca viu a sua mulher, nem ela o viu a ele. Nunca viu os seus filhos, mas criou-os e, à sua maneira, viu-os crescer. Foi alguém que não se deixou levar pela corrente, que escolheu o seu rumo passando por cima dos obstáculos, por maiores que fossem e mesmo não os vendo. Alguém com uma força sobre-humana, força essa que a maior parte de nós apenas ousa aspirar a ter.
Como ele há mais. Provavelmente não os vemos, mas em cada um de nós, há um herói. Podemos não o encontrar. Podemos pensar que não está lá. Ou talvez apenas precisemos de olhar com mais atenção.
Se calhar aquela pessoa que nos serve o pequeno almoço no café, aquele taxista que nos deu boleia depois de uma noite na Praça ou a senhora simpática do minimercado do fim da rua também são heróis. Não há forma de saber, não os conhecemos. Talvez nós próprios o sejamos. Não para nós, claro, para outros.
Um herói não tem de mudar o mundo inteiro. Se mudar uma pessoa, já o tornou num lugar melhor para todos. Pouco bem se faz em grandes quantidades. Um resultado qb pode mudar vidas.

Josefa Guerra, 3º ano