1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #11 – Psiquiatria

 O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?

Ser Psiquiatra não é ter uma especialidade, é uma forma de estar na vida. Com competências clínicas especializadas, é verdade, mas deixando subjacente outra componente que deveria ser transversal a todos os seres humanos: capacidade de empatia e de valorização das emoções positivas, sem descurar a importância das negativas.
Assim, as frentes de ação são: todas. Onde haja pessoas. Por vezes, mesmo na ausência destas, quando estamos sozinhos connosco próprios. Uma velha máxima é: "para podermos compreender e ajudar as pessoas, temos primeiro de nos conhecer a nós próprios". Com o passar do tempo, esta máxima vai ganhando crescente relevância.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
A decisão foi linear, descomplicada e apaziguadora. Foi tomada no 4º ano, quando passei pela unidade curricular de Neurociências e Saúde Mental. Antes disso, nunca me ocorrera pensar no “caminho a seguir” - encarava essa escolha como algo longínquo, que preferia protelar. Porém, nesse momento não houve dúvidas. Em diálogo com outros colegas, apercebo-me que os percursos acabam por ser semelhantes. Em alguns casos existe, contudo, desde o início do curso uma tendência ou inclinação natural para a área da Saúde Mental, que se confirma ao concluir a unidade curricular ou estágio clínico na especialidade.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
A principal razão terá sido a possibilidade de poder ajudar pessoas apenas e simplesmente através da comunicação. Como é óbvio, nem todas as situações podem ser resolvidas dessa forma, nem este aspeto é um que diga respeito apenas à Psiquiatria (pode e deve ser aplicado em todas as especialidades). Nesta, porém, será provavelmente onde é mais relevante.
Acrescento o seguinte: embora o aspeto que refiro acima tenha, entre tantos outros, contribuído para a minha escolha e entusiasmo perante a mesma, esta decisão foi tomada com o coração, atendendo àquela que considerei ser a minha vocação e a área onde, provavelmente, seria mais feliz a exercer. Assinalo que ter este princípio em mente não é, nem deve ser, encarado como algo egoísta: um médico que seja feliz a exercer destacar-se-á invariavelmente daquele que não o é, refletindo-se essa diferença no cuidado prestado e no bem-estar do próprio, dos colegas e dos doentes.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
No internamento (numa das várias enfermarias distribuídas pelos dois pólos - H.U.C e Sobral Cid), serviço de urgência e consulta externa do Hospital.
Há também outros contextos de trabalho assistencial, mais específicos, como as Equipas de Saúde Mental Comunitária (que se deslocam a Centros de Saúde e/ou ao domicílio de doentes em áreas descentralizadas do distrito de Coimbra), a Unidade de Alcoologia, a Psiquiatria Forense, entre outros.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Estes aspetos podem variar substancialmente entre estabelecimentos/centros hospitalares. No CHUC, felizmente, há um ambiente bastante positivo nas equipas. Acredito que as competências comunicacionais essenciais para o desempenho bem-sucedido nesta área acabam por ser aplicadas também no quotidiano da maioria dessas pessoas. É dada uma maior atenção à criação de boas relações laborais, à minimização de situações de conflituosidade e ao espírito de entreajuda entre profissionais. Tudo isto permite um desempenho mais prazeroso e, no fundo, mais fácil da nossa profissão, algo que tem relevância principalmente a longo prazo (reduzindo em muito a probabilidade de burnout, por exemplo).
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
O CHUC apresenta idoneidade na maior parte das valências, com uma ou outra exceção que pode ser devidamente acautelada ao longo do internato. A formação é, de um modo geral, muito boa, também fruto da grande disponibilidade dos Psiquiatras especialistas em partilhar o seu saber e esclarecer dúvidas. Além disso, como hospital central, recebe um grande volume e variedade de doentes, com uma multiplicidade de características sociodemográficas e clínicas, enriquecendo a nossa aprendizagem.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim. Estão contemplados, na portaria do internato de Psiquiatria, 6 meses para a realização de valências opcionais. A realização destes estágios no estrangeiro é até incentivada, principalmente nos que forem de referência nas respetivas áreas.
Relativamente à realização de estágios noutros centros a nível nacional (e fora deste âmbito opcional), existe essa possibilidade, embora esse pedido tenha de ser muito bem justificado, nomeadamente quanto à pertinência daquele local específico para a realização desse estágio em detrimento da instituição de origem. À partida, existe idoneidade para a realização do mesmo no CHUC, com boa qualidade formativa.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Uma semana de trabalho típica inclui um a dois turnos de 12h de urgência (diurnos e/ou noturnos), um a três períodos de consulta (que pode ser de Psiquiatria Geral e/ou de uma subespecialidade da Psiquiatria), sendo que um período corresponde, geralmente, a uma manhã ou uma tarde, com duração aproximada de 3 a 4 horas. Durante o restante tempo, faz-se atividade assistencial em serviço de internamento. Esta distribuição permitirá, com grande probabilidade, não exceder as 40 horas de trabalho semanal. Haverá ainda tempo para, no caso dos médicos internos, assistir a atividades formativas, estudar ou preparar trabalhos, tudo dentro das 40 horas.
Dependendo do contexto (internamento, urgência ou consulta), a intensidade do trabalho pode variar. Porém, é um dado relativamente adquirido que na Psiquiatria é preciso mais tempo para cada observação do que na maioria das restantes especialidades (e esse pressuposto acaba por ser, no geral, tido em conta e respeitado, tanto a nível de organização interna como de administração superior).
Um dia típico de trabalho envolve o diálogo com alguns doentes (em contexto de urgência, com duração esperada de 10-15 minutos com cada doente; até 1 hora ou até mais em situação de primeira consulta ou de internamento), havendo ainda lugar para discussão com os restantes elementos da equipa que o acompanham (outros médicos, enfermeiros, assistentes sociais, etc.) ou com familiares e/ou outros entes significativos.
Apesar de cada entrevista clínica poder ser algo desgastante (principalmente quando é preciso entrar em maior detalhe ou ultrapassar alguma resistência por parte do doente em debater determinados assuntos), acaba por haver sempre tempo para tudo. Deste modo, geralmente, não existem níveis de stresse de base elevados que poderiam comprometer o bom desempenho das nossas funções.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sem dúvida! Comparativamente a muitas outras especialidades, o nosso horário é leve e flexível. Caberá a cada um o envolvimento em atividades de lazer e desenvolvimento pessoal, mas isso trata-se em grande medida da gestão pessoal e preferências de cada um. Da mesma forma, é perfeitamente possível conciliar a carreira com uma vida pessoal e familiar preenchida.
É importante frisar que a Psiquiatria anda, frequentemente, de mãos dadas com a cultura, pelo que o investimento em atividades deste cariz (literatura, música, outros tipos de arte) acaba por trazer, muitas vezes, retorno a nível pessoal e profissional.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
A estrutura base da semana de trabalho foi já descrita.
No início do internato, a carga horária é reduzida, uma vez que a atividade é quase exclusivamente observacional e fornece vários momentos para investir na componente teórica. No decorrer do 1º ano, os internos iniciam o apoio ao Serviço de Urgência de Psiquiatria, exclusivamente em turnos de 12 horas diurnos. No 2º ano, iniciam a própria consulta, de forma autónoma e começam a fazer turnos noturnos de urgência (12 horas). A carga de trabalho também depende e reflete, em cada momento do internato, o estágio em que o interno se encontra, havendo algumas diferenças entre estágios a esse respeito. Até ao final do internato, vai-se aumentando essencialmente a carga em consulta (com um aumento progressivo do ficheiro de cada um) e em atividades formativas, como participação em projetos de investigação, lecionação em colaboração com a FMUC, etc.
O horário de trabalho de base não subentende uma sobrecarga laboral. Dependendo do investimento que cada um pretende fazer na formação, ele poderá ficar mais ou menos ocupado. No CHUC, transversalmente a todas as especialidades, esse investimento é bastante incentivado, pelo que no final do internato é provável que haja o envolvimento em várias atividades desse género.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Na minha opinião, o adequado. Há um período inicial de aprendizagem, essencialmente observacional, transitando gradualmente para o contacto direto com os doentes, mas sempre tutorizado. Quando o interno se sente confortável em assumir funções com maior autonomia, tem também essa liberdade.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
Na Psiquiatria existem várias subespecialidades, grande parte delas com consulta respetiva no CHUC. Alguns exemplos são: perturbação obsessiva-compulsiva; primeiro episódio psicótico; prevenção do suicídio; gerontopsiquiatria; perturbações do comportamento alimentar; psiquiatria de ligação às doenças do movimento; perturbações do neurodesenvolvimento; medicina psicossomática; adições; entre outras.
Tradicionalmente, a escolha das subespecialidades por parte dos internos é feita sob influência do Orientador de Formação. Porém, nos últimos anos, tem havido uma tentativa de permitir um fluxo mais livre e escolha independente do orientador, fornecendo aos internos a possibilidade de contactar com cada uma destas ao longo da sua formação, de forma a fazer uma escolha mais informada.
 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Atualmente, há 3 momentos de avaliação intercalar ao longo do internato (excluindo o exame final para aquisição do grau de Especialista), seguindo-se aos estágios de maior duração - internamento feminino/masculino e hospital de dia.
O exame intercalar, em termos de estrutura, consiste na colheita de uma história clínica sobre um/a doente do respetivo serviço onde o estágio foi realizado. Esta história será apresentada, num momento formal, a um júri constituído pelo/a Orientador/a, Tutor/a desse estágio e Diretor de Serviço. Há, adicionalmente, espaço para debater aspetos formais e teóricos dessa mesma história clínica, bem como expor e discutir o currículo e relatório de atividades do período transato. Finalmente, existe um breve exame oral com questões teóricas.
Embora sejam sempre momentos de alguma tensão, o primeiro exame acaba por ser o mais marcante e gerador de stresse e ansiedade. Os exames posteriores vão sendo, gradualmente, encarados com maior naturalidade, quase como se de uma mera formalidade se tratasse.
Ao longo do internato vamos, naturalmente, estudando todos os conteúdos que acabam por ser perguntados e abordados nos momentos de exame, pelo que o estudo nas semanas e dias prévios ao exame acaba por consistir mais numa espécie de revisão de matéria e conteúdos.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
Confrontar-nos com situações de doentes que se recusam a aceitar que precisam de ajuda. Apesar de ser uma grande dificuldade, encaro-a como um fator desafiante, já que a relação médico-doente nestes casos assume uma importância vital.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
Destaco três:
1. A sensação de gratidão em conseguir ajudar os outros com poucos recursos - muitas vezes, simplesmente através da comunicação;
2. O aprofundamento do conhecimento do Ser Humano e das suas emoções, cognições e comportamentos;
3. O desenvolvimento da empatia como a mais poderosa ferramenta terapêutica – o verdadeiro solvente das relações humanas.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – Julgo que idêntica a qualquer outra – é possível, desde que haja vontade.
Enveredar pela carreira investigacional – Está previsto que a geração que começa agora a dar os primeiros passos na Medicina irá, ao longo da sua carreira, enfrentar o "boom" de conhecimento na área da Psiquiatria. Ainda sabemos muito pouca coisa, mas os mecanismos neurobiológicos são cada vez mais relevantes e, a próxima geração vai ser responsável por esses grandes desenvolvimentos que irão revolucionar a prática psiquiátrica. Para além disso, a aliança já antiga, mas sempre atual e cada vez mais relevante, entre a Psiquiatria e outras áreas muito relevantes do Saber, como a Psicologia, abre portas a uma multiplicidade de campos de investigação, tais como: o desenvolvimento de instrumentos de diagnóstico para fins clínicos e de investigação; desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação psicológica; implementação de programas de prevenção e intervenção psicoterapêuticos, entre outras.
Constante inovação científica – Tal como mencionado na resposta anterior, será muito provavelmente na nossa geração que encontraremos a maior revolução na Psiquiatria como a conhecemos. Vamos ter muitas novidades a breve e longo prazo.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Existe muita procura no setor privado e prevê-se que seja cada vez maior. Relativamente ao setor público, são muitos os estabelecimentos do SNS por todo o país que têm a especialidade de Psiquiatria, sendo que existe alguma variância quanto à oferta assistencial entre eles, sobretudo nos mais pequenos/distritais. Estes podem, por exemplo, ter apenas serviço de consulta externa (e não internamento ou serviço de urgência). Assim sendo, é frequente abrirem concursos para vagas de assistente hospitalar de Psiquiatria.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Tinha 99% de certeza quando escolhi. Desde então (e sem algum momento de arrependimento), é um 100% seguro.
Diria que a principal surpresa foi perceber o avanço que está a ser feito em termos de investigação, na área da Saúde Mental. É algo que me deixa otimista e com vontade de fazer parte do que está para vir!
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Não descurando a vertente teórica e a importância do esforço para TUDO na vida, é essencial que um bom Psiquiatria tenha boas competências de comunicação, seja observador e empático. Estas competências, esta arte, geralmente já “vem com a pessoa", embora possa ser desenvolvida e melhorada com os anos e seja previsível que assim seja. Assim, pessoalmente, valorizaria mais a componente "talento". Voltemos a uma das questões iniciais, em que vos confessei que escolhi com o coração. Talvez esta pergunta feita a diferentes pessoas fosse, de todas, a que teria maior variabilidade nas respostas. A natureza da resposta é, provavelmente, um reflexo bastante fiel da natureza da pessoa. Mas para vos provar o meu ponto, desafio-vos a imaginarem o Dr. House como Psiquiatra, independentemente de todo o seu conhecimento teórico.
 
Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
Quando escolherem, escolham o que acreditam que vos fará felizes.
Se, após a escolha, não forem felizes… escolham outra vez. Não tenham pressa. Nesse caso, repetir o exame nunca será um ano perdido: será sempre um ano a ganhar e cada um de vós deve isso a si próprio – escolher ser feliz para o resto da vida. O trabalho ocupa uma parte importante do nosso tempo e acaba por ser uma fatia substancial da nossa identidade. Sermos infelizes nele é abrirmos a porta para sermos infelizes no resto, na vida. Não o façam. Nas palavras de Raul Solnado: “Façam o favor de ser felizes!”.

Texto redigido com a ajuda da Dra. Carolina Cabaços, em colaboração com outros colegas de Psiquiatria do CHUC 

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #10 – Hematologia Clínica

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Esta é uma especialidade que aborda principalmente patologias oncológicas e doenças crónicas, permitindo um contacto mais próximo e duradouro com os doentes. Mais ainda, está em constante evolução científica.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Sempre foi uma temática que me interessou. Mas foi apenas no ano comum, quando tive oportunidade de ter um contacto mais próximo e prolongado com ela, que me apercebi que não só as patologias abordadas como também a sua prática clínica me entusiasmavam.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
O que me fez escolher esta especialidade foi o facto de permitir o acompanhamento prolongado dos doentes, com seguimentos que por vezes duram 5 a 10 anos, permitindo-nos ter um contacto próximo com eles. Para além disto, envolve patologias oncológicas, o que faz com que o impacto do nosso trabalho na vida dos doentes seja enorme, podendo até mesmo determinar o prolongamento das suas vidas.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Dependendo do hospital, a maioria do trabalho é realizado no internamento, hospital de dia e consulta.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Tendo em conta a especificidade do trabalho realizado, muitas vezes os enfermeiros são especializados na área, o que permite uma colaboração mais estreita com eles. Em geral, nos serviços que conheço, há um ambiente de ensino e entreajuda tanto com especialistas como internos.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Apesar de Portugal não ser um centro de referência (comparativamente com outros países), temos acesso a todo o tipo de tratamentos e ensaios clínicos, felizmente, o que nos permite ter contacto com todo o tipo de valências da especialidade.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim e, em geral, são incentivados. Principalmente nas áreas em que temos menores números, como o transplante e pediatria.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
A nível do internamento, acaba por ser como qualquer outra especialidade médica. Contudo, há uma necessidade de estudo contínuo, pois apesar de existirem muitos protocolos de tratamento, todos os doentes exigem uma abordagem específica. Ao nível dos números, hospital de dia e consulta, é possível fazer uma boa gestão de tempo e não ter uma carga de trabalho exagerada. Porém, devido ao tipo de patologias, por vezes 20 minutos de consulta não é o ideal.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, com uma boa gestão de tempo, não haverá grande problema em conciliar com outras atividades. Durante o internato poderá sempre ser mais difícil, tendo em conta que existirá sempre muito estudo e trabalhos a realizar, mas, mesmo assim, será sempre possível.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)?
Normalmente, a carga horaria cinge-se às 40 horas semanais, podendo alongar-se um pouco. Em termos de urgências, em alguns hospitais fazem-se 24h (como especialista) e noutros apenas 12h, mas nunca se costuma ultrapassar o estipulado em horário. Com o avançar do internado poderão existir sempre mais responsabilidades, o que poderá incrementar mais algumas horas de trabalho.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Estando ainda no primeiro ano, tive a oportunidade de fazer a abordagem ao doente e algumas técnicas, ficando a parte do tratamento e de estudos mais específicos a cargo do especialista.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?

Conforme a necessidade do serviço onde estão colocados, poderão ter de se dedicar mais a uma patologia (mieloma múltiplo, doenças linfoproliferativas, coagulação). Contudo, isto vai variando com o tempo e acaba sempre por haver oportunidade para nos dedicarmos mais a um assunto ou outro.

 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Os momentos de avaliação são feitos no final de cada ano. Não tendo feito ainda nenhuma avaliação, não sei responder ao resto da questão.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
A constante evolução dos tratamentos e a dificuldade em consegui-los atempadamente, em algumas circunstâncias.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
A melhoria permanente dos tratamentos e o impacto que tem na vida dos doentes, tratando-se muitas vezes de situações de vida ou morte.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Enveredar pela carreira investigacional – É uma especialidade que muito prolifera no que toca a investigação e inovação científica, sendo possível seguir uma carreira na investigação, em Portugal ou noutros países.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como pública – Geralmente, a carreira evolui apenas a nível do setor público, uma vez que poucas são as instituições privadas com envergadura para ter um serviço de hematologia. Há, no entanto, alguma atividade possível de ser feita em sector privado, sobretudo consultas.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Continuaria a ser a minha escolha e está a corresponder às minhas expectativas. Conforme uma pessoa se vai inteirando dos assuntos e se vai envolvendo mais com os doentes, maior é o gosto e vontade de aprender.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sem dúvida que é uma especialidade que exige muito estudo e atualização constante. Porém, penso que as capacidades humanas são as mais importantes para lidar com os doentes afetados por doenças hemato-oncológicas.
 

Texto redigido com a ajuda da Dra. Mariana Trigo Miranda, Interna de Hematologia Clínica

2ª Edição do 1001 Especialidades: Manual de um Estudante Indeciso



Queres saber mais sobre as especialidades que tanto gostas, mas não sabes como aceder a essas informações? Gostavas de descobrir como é viver na pele dos especialistas que tanto admiras? Ou então ainda não descobriste qual é a tua especialidade de sonho?
A 2ª edição da rúbrica “1001 Especialidades: Manual de um Estudante Indeciso”, numa parceria entre a aNEMia e o Departamento de Educação Médica, traz de volta as entrevistas que prometem responder a todas as dúvidas!
Relembramos que podes ainda ver as várias especialidades da 1ª edição em detalhe aqui no site e seguir todos os lançamentos para breve! Fica atento às próximas novidades!
 
Cartaz elaborado por: Francisca Delfim

Um Diário de Viagem da Ilha da Madeira

“Comecemos este diário pela sua última entrada, dia 15 de Agosto de 2020. Não é por ser do contra (embora muitos digam que o sou), mas por estar convicta que fará mais sentido transmitir a minha profunda adoração por esta ilha apenas após ter experienciado tudo. Previsões são mais fáceis no final do jogo, certo?"

Assim começa este projeto maravilhoso, trazido pela nossa colaboradora Rita Rodrigues, que promete mostrar-vos o que a Madeira tem de bom e de melhor. Não percam a oportunidade de ler e acompanhar esta viagem assombrante (no melhor dos sentidos)!
Podem consultar a versão completa no nosso Issuu, clicando no ícone à direita (apenas na versão desktop)!



1 minuto e 36 segundos

 

18 de setembro de 2020:

 

Foi nesta madrugada - sim, porque reuniões nunca terminam em horário nobre – que descobri a Pilar. Estava há uma hora inquieta (não vou mentir) por um momento oportuno para abandonar, pela primeira vez, uma reunião antes da mesma terminar. Meia envolvida pela desculpa que o sexto ano começa a pesar, decidi esperar para ouvir o que a nossa Sara tinha para dizer e – sorte a minha! – conheci a Pilar. “Existe uma autora que nos enviou um livro sobre como lidar com o ano da PNA1”. O meu ano, portanto. Escusado será dizer que não foi desta que saí antes do final da reunião e, muito menos, que foi desta que a cama me recebeu para um número considerável de horas de sono.
Acredito que conhecer a Pilar pelos seus textos é uma boa forma de o fazer. Acredito na sua transparência e na qualidade da sua escrita. Não demorei muito a identificar-me com aquilo que ela escreve, tanto no seu blogue The Nutsbook, como no livro, assim como não demorei muito a agarrar no telemóvel para o encomendar de uma livraria.
A Pilar escreve, neste livro, sobre saúde mental, sobre histórias hilariantes passadas entre viagens de comboio e madrugadas em tentativas de posição de lótus. Escreve sobre ansiedade e tudo aquilo que um estudante de Medicina poderá ter de enfrentar antes de ingressar para a sua formação especializada. 150 perguntas. 1 minuto e 36 segundos para cada uma delas. Uma maratona onde muitos de nós ficam (infelizmente) sem acesso a uma vaga.
Mais do que isso, a Pilar abre o seu coração e começa por dissecar tudo aquilo que faz parte do seu batimento cardíaco. Não fosse Cardio o primeiro capítulo.
“Ou paras ou param-te”: Conta-nos como é viver (e sobreviver) no meio das infindáveis horas de estudo para um só exame que, assim meio a brincar, pode definir o nosso futuro. Que se lixem os cinco anos que passamos a tentar obter uma média razoável nas inúmeras cadeiras que ainda hoje não sabemos para que serviram. Não é a brincar. É – apenas – aquilo que a língua portuguesa chama de figuras de estilos.
Ironias à parte, conta-nos (sem medos!) como foi lidar com os seus conflitos internos. Creio que todos passamos por isto, mas poucos de nós tem coragem de o admitir. É como se diz na mesa do café, “Em casa de ferreiro, espeto de pau”. Mas, encarar fantasmas interiores é importante e a Pilar dá-nos uma curta e grossa noção de qual é o caminho para os enfrentar por muito descrentes que tenhamos sido até então: “Mindfulness, meditação, ficar-ali-a-pensar-em-nada”.
Uma centena de páginas onde são abordados muitos assuntos. A Pilar mostra-nos, sem se enrolar, que nenhuma família é perfeita e que as pausas de estudo não são sempre aquilo que queríamos que fossem.

 

25 de setembro de 2020:

 

        Corri até à livraria. O livro tinha chegado. Voltei para casa. Agarrei na caneta para sublinhar aquilo que mais gosto, como faço sempre que leio um livro. Dei por mim a sublinhar páginas inteiras, capítulos de uma ponta à outra. A Pilar sabe como nos prender a uma leitura. Em menos tempo do que aquele que previa, cheguei ao último. “Calma lá, não quero que isto acabe”. Pensei. É assim que sei quando vale a pena continuar desenfreadamente a devorar as restantes páginas. Num misto e numa dualidade de sentimentos que sempre me caracterizou, continuei a ler. É impossível parar porque quando damos conta já estamos demasiado envolvidos e apaixonados por aquelas páginas. Continuei e duas horas depois desde que havia começado, pronto. Pronto nada! Sei que o vou reler vezes sem conta porque sempre fui pessoa de voltar aos lugares, às pessoas e aos livros onde fui feliz.
“Estás a fazer-te à pista e daqui a uns meses levantas voo.” Confio em cada palavra deste livro porque me identifiquei com muito daquilo que ele transmite: “Sangue, Suor e Sangria.”
Estas páginas são um lugar seguro onde transborda amor.
A Pilar é, verdadeiramente, um grande pilar: de como sobreviver a mais uma loucura no meio de tantas as que são ser estudante de Medicina; de como encarar a prova e aceitar que não vamos estar sempre no nosso melhor; de como confiar no Universo e que, no final, pode acabar por dar certo.
Enquanto aluna do sexto ano e especialmente apaixonada por cada conjugação de palavras desta magnífica história, deixem-me que vos diga, sem mais spoilers, apenas com aquele que a Pilar faz questão de mencionar desde início: este livro não faz parte da bibliografia recomendada, mas, garanto-vos, é um bom ponto de partida para levantar voo.
O Mundo precisa de mais médicos e escritores como a Pilar: alguém que sabe o lugar anatómico do coração e que o coloca acima de qualquer medicina nas horas vagas.
Obrigada, encheste-me o peito de ar.



                                                              Francisca Rocha, 6º ano





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1PNA – Prova Nacional de Acesso (o exame que os alunos de Medicina realizam no final do Mestrado para obterem classificação que lhes permita aceder à formação especializada).

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #9 – Neonatologia

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Ser médico neonatologista significa ser pediatra de formação e ter-se dedicado à Pediatria dos mais pequenitos. Implica, portanto: escolher Pediatria como especialidade médica no Internato do Ano Comum, fazer 5 anos de formação em Pediatria (com as valências de Neonatologia e Intensivos Neonatais) e depois do exame final de especialidade, escolher um hospital em que se possa fazer diferenciação em Neonatologia (subespecialidade da Pediatria).
A Neonatologia é a área da Pediatria que trata os recém-nascidos (RN) de termo e RN prematuros (PT).
Somos responsáveis pelos RN de termo, saudáveis, com boa adaptação à vida extrauterina, que ficam em alojamento conjunto com a mãe depois do nascimento. Mas somos também responsáveis pelos RN doentes e RN prematuros que necessitam de cuidados diferenciados, intermédios ou de intensivos, adaptados a cada situação. Nas maternidades da zona centro, estamos presentes em todos os partos.

Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Sempre senti interesse pela Pediatria! Cliché! Mas quero ser pediatra desde muito cedo. O interesse pela Neonatologia surgiu já na especialidade de Pediatria, durante os estágios de Neonatologia (2º ano de internato) e Cuidados Intensivos Neonatais (4º ano de internato). De tal forma que, mesmo fora dos períodos de estágios, tentei sempre que possível, manter contacto com a Neonatologia e de forma, voluntária, continuava a fazer urgências na maternidade.

Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
A Neonatologia tem a parte boa do RN de termo, muito desejado, que nasce sem qualquer patologia, com boa adaptação à vida extrauterina. Simultaneamente somos chamados a intervir nos RN de termo com patologia com diagnóstico pré-natal (com possibilidade de preparação e planeamento) ou diagnóstico ao nascimento e com necessidade de intervenção e orientação. Acompanha-se também pelo desafio da prematuridade (muitas vezes inesperada) com possibilidade de intervir e ajudar estes pequenitos a sobreviver. Os internamentos dos prematuros são internamentos prolongados, cheios de desafio com as várias complicações da prematuridade, que nos trazem muita satisfação quando conseguimos ajudar.

Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
A equipa da neonatologia da minha maternidade divide o seu trabalho diário, de forma rotativa, em dois internamentos diferentes: enfermaria de puérperas e RN (RN termo saudáveis) e unidade de cuidados intensivos neonatais (RN doente e RN prematuro). Tenho também um período de consulta semanal – consulta de follow-up neurológico – onde seguimos grande prematuros (abaixo das 32S ou PN < 1500gr) e/ou RN termo ou PT com risco de lesão neurológica. Trata-se de uma consulta de Pediatria onde incidimos principalmente nas complicações inerentes à prematuridade e avaliação do desenvolvimento nos 2/3 primeiros anos de vida.
Existem consultas com objetivos diferentes na maternidade. Cada um de nós dedica-se a uma área de interesse – risco psicossocial, infeções congénitas, gémeos, Patologia renal, …

Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Trata-se de um serviço com bom ambiente e espírito de entreajuda e trabalho de equipa entre médicos das diferentes especialidades (neonatologia, obstetrícia e anestesia), médicos internos e enfermeiros. É um bom serviço para se trabalhar diariamente.

Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Fiz tudo cá em Coimbra – Faculdade, Internato do Ano Comum e especialidade de Pediatria. Do ponto de vista de Internato, o Hospital Pediátrico de Coimbra permite uma formação sólida em Pediatria Geral e um contacto precoce com as subespecialidades e patologia rara. Nos primeiros anos de internato, quase que nos perdemos um bocadinho na patologia rara, enquanto ainda estamos a tentar aprender as bases da Pediatria Geral. Do ponto de vista de Neonatologia, durante o internato, as vezes sentimos que “pomos pouco a mão na massa”. Somos muito protegidos principalmente nos prematuros, pela especificidade inerente à reanimação nestes RN. Tudo isso fica diluído após terminar a especialidade e integrando a equipa de Neonatologia, em que os procedimentos sempre que possíveis ficam a nossa cargo para “ganharmos” mão. Sinto que recebi uma boa formação.

Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Existe e é aconselhado. A dificuldade as vezes prende-se com o facto de o serviço ser pequeno e precisar muito de nós para a atividade do dia-a-dia e para a escala de urgência. Eu fiz a formação da Neonatologia na minha maternidade, mas existe sempre a possibilidade de fazer formação / ciclo de estudos especiais em Neonatologia (na totalidade ou numa área em especifica) noutros hospitais.

Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Como expliquei acima tenho uma manhã semanal de consulta e nos restantes dias estou na enfermaria de puérperas e RN ou na UCIN, acompanhado os RN internados (vamos rodando pelos dois internamentos a cada 6 meses). Sou também responsável pela realização de ecografia transfontanelar e ecocardíaca funcional.
Tenho um horário de 40 horas semanais, sendo que pelo menos 12h são de urgência. As nossas urgências começam as 13h da tarde e tem sempre 2 elementos na escala (2 especialistas em neonatologia ou 1 especialista e 1 interno de Pediatria). No horário de urgência passamos a ser responsáveis por todos os RN da maternidade: internados na enfermaria de puérperas e RN e na UCIN e pela sala de partos.
A especialidade de Neonatologia caracteriza-se por alguma imprevisibilidade. A maioria dos partos prematuros são inesperados e nos dias em que nascem prematuros ou RN doentes, podemos passar várias horas seguidas de volta deles (entre entubações, cateterismo, e outros procedimentos mais ou menos invasivos).

Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
A equipa da maternidade onde trabalho é uma equipa com poucos elementos e envelhecida, o que traz vários turnos de urgência… A nível nacional, é o que acontece em muitas maternidades do país – poucos neonatologistas e pouca renovação da equipa. Mas é o que acontece também noutras especialidades médicas e cirúrgicas neste momento.
Até a data, julgo que dá para conciliar com hobbies e a vida pessoal e familiar! Mas é uma especialidade que tem urgências de noite e ao fim-de-semana, ao contrário de outras!

Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Já não sou interna e as minhas respostas referem-se ao período de neonatologia, ou seja, já no pós- internato. Pelo que expliquei acima, trata-se de um serviço pequeno logo bancos de urgência extras. E claro que na fase de formação de Neonatologia, dediquei muitas horas ao serviço. Tinha de tentar aproveitar quando nasciam prematuros e patologias raras para treinar técnicas. Estes casos nem sempre nascem quando estamos no serviço e por isso, às vezes, é preciso estar disponível e ficar de chamada e vir de casa até ganhar treino!

Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
A Neonatologia é uma área muito específica principalmente quando se trata de um prematuro de 24 ou 25 semanas. Quando perceberam o meu interesse mesmo durante o internato, deixaram-me “por a mão na massa”, mas nos maiores. Temos sempre “as costas quentes” e ainda bem quando se trata de meninos tão pequeninos.
Durante o internato, temos de ser treinados enquanto pediatras, a receber RN de termo que precisam de reanimação na sala de partos, orientar as principais patologias do RN e orientar RN PT >32S, estes sim que podem nascer em qualquer hospital (os PT <32S só nascerão em maternidades de apoio perinatal diferenciado). Nestas situações, sinto que recebi uma formação adequada durante o internato. O treino nos prematuros mais pequenos adquiri já enquanto especialista quando me dediquei à área da Neonatologia.

Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
A Neonatologia é já uma subespecialidade da Pediatria. A liberdade não é total. Temos de ser colocados num hospital em que exista interesse na nossa diferenciação nesta área e depois da autorização, concorrer a concursos nacionais para ciclo de estudos especiais.

Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
A subespecialidade de Neonatologia pode ser adquirida por ciclo de estudos especiais ou solicitada equivalência após 2 anos de treino num serviço com apoio perinatal diferenciado depois de entregar CV que será avaliado por um grupo de peritos.

Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
A abordagem da grande prematuridade e do limite da viabilidade é um dos maiores desafios. É o que nos dá também maior gozo no nosso dia-a-dia, principalmente quando corre tudo pelo melhor, mas é a parte sem dúvida mais difícil e desafiante.

Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
O que conseguimos fazer com os avanços da neonatologia…manter e suportar RN prematuros de 24/25 semanas, cada vez com menos sequelas, é sem dúvida um dos aspectos mais importantes e positivos da nossa especialidade!

Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – A carreira médica está “paradinha” em qualquer especialidade neste momento…
Enveredar pela carreira investigacional – A investigação em Portugal é com muito boa vontade de todos nós e nos grandes centros, mas não diria que impossível.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Como neonatologista pode trabalhar no sector público e privado (Lisboa e Porto têm maternidades privadas com unidades de cuidados intensivos que recebem prematuros pelo menos a partir das 32-34S). Pode também fazer consulta de pediatria na privada (somos pediatras na nossa formação de base).

Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Escolheria outra vez por todos os motivos acima apresentados. É um desafio diário, mas muito compensador. Quem gosta de técnica, intensivos, de “por a mão na massa” e pequenitos, gosta de neonatologia!

Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
É preciso gostar de adrenalina. As algoritmos de reanimação e as técnicas treinam-se!

Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
Não se esqueçam que a Neonatologia é uma subespecialidade da Pediatria. Primeiro é preciso ser Pediatra!

Texto redigido com a ajuda da Dra. Muriel Ferreira, Médica Neonatologista

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #8 – Cardiologia

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Cardiologia é uma especialidade com a qual muito me identifico, com a sua componente clínica, de intervenção (seja tecnicamente ou em saúde pública), educação e investigação, acompanhado por uma vontade de querer mais, mas com qualidade.

Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
A primeira vez que considerei realmente a especialidade de Cardiologia foi na aula de apresentação da cadeira de Cardiologia pelo Professor Lino Gonçalves. No seu discurso, o Professor apresentou a cadeira/especialidade como desafiante, inovadora, mas transversal a uma grande população de doentes. Achei mesmo inspirador!

Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
Acho que além de considerar extremamente desafiante, é uma especialidade com imensas áreas de intervenção: cardiologia de intervenção, imagiologia, saúde pública, clínica e investigacional.

Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Como interno de especialidade, a minha rotina diária envolve o internamento de doentes. No entanto, ao longo dos diferentes estágios, vamos passando no local de realização de ecocardiografia, sala de hemodinâmica, sala de pacemaker, etc.

Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes? 
Como em todos os locais existem colegas de trabalho com mais ou menos disponibilidade para ajudar.

Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Sim. Muito boa! Há especialistas com muita experiência em todas as áreas do internato.

Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim. Todos os internos têm oportunidade de fazer o estágio no estrangeiro, organizado pelo Prof. Lino.

Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sem dúvida! Contudo, é preciso uma boa gestão de tempo. Trabalhar quando é para trabalhar e divertir-me quando é altura para isso. Dito isto, por vezes pode ser mais fácil falar do que realmente colocar isto em prática, mas é algo que se vai ganhando prática.

Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Em Coimbra, existe uma boa política que protege os internos: não fazemos noites até ao 5º ano, temos urgências extras que não eram pagas até este ano, mas vai ser alterado ainda este ano. A grande alteração é quando se passa para o 5º ano (último ano) e somos considerados já como especialistas. A meu ver existe uma gradual passagem de responsabilidade.

Como interno, como é o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Ainda me encontro no início do internato para responder pormenorizadamente a esta pergunta.

Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Acontecem anualmente. Envolve:
● Avaliação curricular
● Realização de colheita de história clínica (2-3 vezes ao longo do internato)
● Avaliação 360 graus (comissão que envolve com o Diretor de Serviço, todos os tutores e o interno mais graduado) onde se discute a nossa performance clínica e investigacional, além da relação interpessoal com os nossos colegas e doentes.

Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
“Curriculite”, constante atualização do conhecimento e alta exigência na publicação de artigos.

Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
Especialidade com grande componente clínica, interventiva e investigacional. Imensas subespecialidades com grande previsão de crescimento. Disponibilidade de trabalhar no setor público e privado.

Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – Atualmente, é muito difícil ficar nos grandes centros hospitalares que formam os novos especialistas de Cardiologia.
Enveredar pela carreira investigacional – Há sempre a opção de realizar investigação clínica. Contudo, algo mais translacional ou básico é necessário o contacto com centros de investigação laboratorial.
Constante inovação científica – Tem havido uma constante inovação na parte da Cardiologia de Intervenção e Imagiologia Cardíaca.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Durante o internato não há muitas oportunidades de trabalhar no sector privado, mas após terminar a especialidade, existem imensas oportunidades.

Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Sem dúvida, adoro o contacto com pessoas tão desafiantes e que querem dar o seu melhor pelo doente, fazer a diferença.

Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sem dúvida é necessário muito estudo e dedicação para esta especialidade. Estudar para prestar excelentes cuidados ao doente em todas as fases da patologia: desde a fase aguda no Serviço de Urgência à reabilitação e otimização da terapêutica crónica e modificadora de prognóstica. Dedicação para se manter atualizado dos mais recentes ensaios clínicos, ao mesmo tempo que se realiza a própria investigação.

Texto redigido com a ajuda do Dr. Gonçalo Costa, Interno de 1º ano da Especialidade de Cardiologia no CHUC