1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #10 – Hematologia Clínica

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Esta é uma especialidade que aborda principalmente patologias oncológicas e doenças crónicas, permitindo um contacto mais próximo e duradouro com os doentes. Mais ainda, está em constante evolução científica.
 
Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Sempre foi uma temática que me interessou. Mas foi apenas no ano comum, quando tive oportunidade de ter um contacto mais próximo e prolongado com ela, que me apercebi que não só as patologias abordadas como também a sua prática clínica me entusiasmavam.
 
Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
O que me fez escolher esta especialidade foi o facto de permitir o acompanhamento prolongado dos doentes, com seguimentos que por vezes duram 5 a 10 anos, permitindo-nos ter um contacto próximo com eles. Para além disto, envolve patologias oncológicas, o que faz com que o impacto do nosso trabalho na vida dos doentes seja enorme, podendo até mesmo determinar o prolongamento das suas vidas.
 
Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Dependendo do hospital, a maioria do trabalho é realizado no internamento, hospital de dia e consulta.
 
Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/ enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Tendo em conta a especificidade do trabalho realizado, muitas vezes os enfermeiros são especializados na área, o que permite uma colaboração mais estreita com eles. Em geral, nos serviços que conheço, há um ambiente de ensino e entreajuda tanto com especialistas como internos.
 
Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Apesar de Portugal não ser um centro de referência (comparativamente com outros países), temos acesso a todo o tipo de tratamentos e ensaios clínicos, felizmente, o que nos permite ter contacto com todo o tipo de valências da especialidade.
 
Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim e, em geral, são incentivados. Principalmente nas áreas em que temos menores números, como o transplante e pediatria.
 
Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
A nível do internamento, acaba por ser como qualquer outra especialidade médica. Contudo, há uma necessidade de estudo contínuo, pois apesar de existirem muitos protocolos de tratamento, todos os doentes exigem uma abordagem específica. Ao nível dos números, hospital de dia e consulta, é possível fazer uma boa gestão de tempo e não ter uma carga de trabalho exagerada. Porém, devido ao tipo de patologias, por vezes 20 minutos de consulta não é o ideal.
 
Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, com uma boa gestão de tempo, não haverá grande problema em conciliar com outras atividades. Durante o internato poderá sempre ser mais difícil, tendo em conta que existirá sempre muito estudo e trabalhos a realizar, mas, mesmo assim, será sempre possível.
 
Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)?
Normalmente, a carga horaria cinge-se às 40 horas semanais, podendo alongar-se um pouco. Em termos de urgências, em alguns hospitais fazem-se 24h (como especialista) e noutros apenas 12h, mas nunca se costuma ultrapassar o estipulado em horário. Com o avançar do internado poderão existir sempre mais responsabilidades, o que poderá incrementar mais algumas horas de trabalho.
 
Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Estando ainda no primeiro ano, tive a oportunidade de fazer a abordagem ao doente e algumas técnicas, ficando a parte do tratamento e de estudos mais específicos a cargo do especialista.
 
Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?

Conforme a necessidade do serviço onde estão colocados, poderão ter de se dedicar mais a uma patologia (mieloma múltiplo, doenças linfoproliferativas, coagulação). Contudo, isto vai variando com o tempo e acaba sempre por haver oportunidade para nos dedicarmos mais a um assunto ou outro.

 
Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Os momentos de avaliação são feitos no final de cada ano. Não tendo feito ainda nenhuma avaliação, não sei responder ao resto da questão.
 
Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
A constante evolução dos tratamentos e a dificuldade em consegui-los atempadamente, em algumas circunstâncias.
 
Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
A melhoria permanente dos tratamentos e o impacto que tem na vida dos doentes, tratando-se muitas vezes de situações de vida ou morte.
 
Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Enveredar pela carreira investigacional – É uma especialidade que muito prolifera no que toca a investigação e inovação científica, sendo possível seguir uma carreira na investigação, em Portugal ou noutros países.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como pública – Geralmente, a carreira evolui apenas a nível do setor público, uma vez que poucas são as instituições privadas com envergadura para ter um serviço de hematologia. Há, no entanto, alguma atividade possível de ser feita em sector privado, sobretudo consultas.
 
Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Continuaria a ser a minha escolha e está a corresponder às minhas expectativas. Conforme uma pessoa se vai inteirando dos assuntos e se vai envolvendo mais com os doentes, maior é o gosto e vontade de aprender.
 
Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sem dúvida que é uma especialidade que exige muito estudo e atualização constante. Porém, penso que as capacidades humanas são as mais importantes para lidar com os doentes afetados por doenças hemato-oncológicas.
 

Texto redigido com a ajuda da Dra. Mariana Trigo Miranda, Interna de Hematologia Clínica

2ª Edição do 1001 Especialidades: Manual de um Estudante Indeciso



Queres saber mais sobre as especialidades que tanto gostas, mas não sabes como aceder a essas informações? Gostavas de descobrir como é viver na pele dos especialistas que tanto admiras? Ou então ainda não descobriste qual é a tua especialidade de sonho?
A 2ª edição da rúbrica “1001 Especialidades: Manual de um Estudante Indeciso”, numa parceria entre a aNEMia e o Departamento de Educação Médica, traz de volta as entrevistas que prometem responder a todas as dúvidas!
Relembramos que podes ainda ver as várias especialidades da 1ª edição em detalhe aqui no site e seguir todos os lançamentos para breve! Fica atento às próximas novidades!
 
Cartaz elaborado por: Francisca Delfim

Um Diário de Viagem da Ilha da Madeira

“Comecemos este diário pela sua última entrada, dia 15 de Agosto de 2020. Não é por ser do contra (embora muitos digam que o sou), mas por estar convicta que fará mais sentido transmitir a minha profunda adoração por esta ilha apenas após ter experienciado tudo. Previsões são mais fáceis no final do jogo, certo?"

Assim começa este projeto maravilhoso, trazido pela nossa colaboradora Rita Rodrigues, que promete mostrar-vos o que a Madeira tem de bom e de melhor. Não percam a oportunidade de ler e acompanhar esta viagem assombrante (no melhor dos sentidos)!
Podem consultar a versão completa no nosso Issuu, clicando no ícone à direita (apenas na versão desktop)!



1 minuto e 36 segundos

 

18 de setembro de 2020:

 

Foi nesta madrugada - sim, porque reuniões nunca terminam em horário nobre – que descobri a Pilar. Estava há uma hora inquieta (não vou mentir) por um momento oportuno para abandonar, pela primeira vez, uma reunião antes da mesma terminar. Meia envolvida pela desculpa que o sexto ano começa a pesar, decidi esperar para ouvir o que a nossa Sara tinha para dizer e – sorte a minha! – conheci a Pilar. “Existe uma autora que nos enviou um livro sobre como lidar com o ano da PNA1”. O meu ano, portanto. Escusado será dizer que não foi desta que saí antes do final da reunião e, muito menos, que foi desta que a cama me recebeu para um número considerável de horas de sono.
Acredito que conhecer a Pilar pelos seus textos é uma boa forma de o fazer. Acredito na sua transparência e na qualidade da sua escrita. Não demorei muito a identificar-me com aquilo que ela escreve, tanto no seu blogue The Nutsbook, como no livro, assim como não demorei muito a agarrar no telemóvel para o encomendar de uma livraria.
A Pilar escreve, neste livro, sobre saúde mental, sobre histórias hilariantes passadas entre viagens de comboio e madrugadas em tentativas de posição de lótus. Escreve sobre ansiedade e tudo aquilo que um estudante de Medicina poderá ter de enfrentar antes de ingressar para a sua formação especializada. 150 perguntas. 1 minuto e 36 segundos para cada uma delas. Uma maratona onde muitos de nós ficam (infelizmente) sem acesso a uma vaga.
Mais do que isso, a Pilar abre o seu coração e começa por dissecar tudo aquilo que faz parte do seu batimento cardíaco. Não fosse Cardio o primeiro capítulo.
“Ou paras ou param-te”: Conta-nos como é viver (e sobreviver) no meio das infindáveis horas de estudo para um só exame que, assim meio a brincar, pode definir o nosso futuro. Que se lixem os cinco anos que passamos a tentar obter uma média razoável nas inúmeras cadeiras que ainda hoje não sabemos para que serviram. Não é a brincar. É – apenas – aquilo que a língua portuguesa chama de figuras de estilos.
Ironias à parte, conta-nos (sem medos!) como foi lidar com os seus conflitos internos. Creio que todos passamos por isto, mas poucos de nós tem coragem de o admitir. É como se diz na mesa do café, “Em casa de ferreiro, espeto de pau”. Mas, encarar fantasmas interiores é importante e a Pilar dá-nos uma curta e grossa noção de qual é o caminho para os enfrentar por muito descrentes que tenhamos sido até então: “Mindfulness, meditação, ficar-ali-a-pensar-em-nada”.
Uma centena de páginas onde são abordados muitos assuntos. A Pilar mostra-nos, sem se enrolar, que nenhuma família é perfeita e que as pausas de estudo não são sempre aquilo que queríamos que fossem.

 

25 de setembro de 2020:

 

        Corri até à livraria. O livro tinha chegado. Voltei para casa. Agarrei na caneta para sublinhar aquilo que mais gosto, como faço sempre que leio um livro. Dei por mim a sublinhar páginas inteiras, capítulos de uma ponta à outra. A Pilar sabe como nos prender a uma leitura. Em menos tempo do que aquele que previa, cheguei ao último. “Calma lá, não quero que isto acabe”. Pensei. É assim que sei quando vale a pena continuar desenfreadamente a devorar as restantes páginas. Num misto e numa dualidade de sentimentos que sempre me caracterizou, continuei a ler. É impossível parar porque quando damos conta já estamos demasiado envolvidos e apaixonados por aquelas páginas. Continuei e duas horas depois desde que havia começado, pronto. Pronto nada! Sei que o vou reler vezes sem conta porque sempre fui pessoa de voltar aos lugares, às pessoas e aos livros onde fui feliz.
“Estás a fazer-te à pista e daqui a uns meses levantas voo.” Confio em cada palavra deste livro porque me identifiquei com muito daquilo que ele transmite: “Sangue, Suor e Sangria.”
Estas páginas são um lugar seguro onde transborda amor.
A Pilar é, verdadeiramente, um grande pilar: de como sobreviver a mais uma loucura no meio de tantas as que são ser estudante de Medicina; de como encarar a prova e aceitar que não vamos estar sempre no nosso melhor; de como confiar no Universo e que, no final, pode acabar por dar certo.
Enquanto aluna do sexto ano e especialmente apaixonada por cada conjugação de palavras desta magnífica história, deixem-me que vos diga, sem mais spoilers, apenas com aquele que a Pilar faz questão de mencionar desde início: este livro não faz parte da bibliografia recomendada, mas, garanto-vos, é um bom ponto de partida para levantar voo.
O Mundo precisa de mais médicos e escritores como a Pilar: alguém que sabe o lugar anatómico do coração e que o coloca acima de qualquer medicina nas horas vagas.
Obrigada, encheste-me o peito de ar.



                                                              Francisca Rocha, 6º ano





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1PNA – Prova Nacional de Acesso (o exame que os alunos de Medicina realizam no final do Mestrado para obterem classificação que lhes permita aceder à formação especializada).

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #9 – Neonatologia

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Ser médico neonatologista significa ser pediatra de formação e ter-se dedicado à Pediatria dos mais pequenitos. Implica, portanto: escolher Pediatria como especialidade médica no Internato do Ano Comum, fazer 5 anos de formação em Pediatria (com as valências de Neonatologia e Intensivos Neonatais) e depois do exame final de especialidade, escolher um hospital em que se possa fazer diferenciação em Neonatologia (subespecialidade da Pediatria).
A Neonatologia é a área da Pediatria que trata os recém-nascidos (RN) de termo e RN prematuros (PT).
Somos responsáveis pelos RN de termo, saudáveis, com boa adaptação à vida extrauterina, que ficam em alojamento conjunto com a mãe depois do nascimento. Mas somos também responsáveis pelos RN doentes e RN prematuros que necessitam de cuidados diferenciados, intermédios ou de intensivos, adaptados a cada situação. Nas maternidades da zona centro, estamos presentes em todos os partos.

Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Sempre senti interesse pela Pediatria! Cliché! Mas quero ser pediatra desde muito cedo. O interesse pela Neonatologia surgiu já na especialidade de Pediatria, durante os estágios de Neonatologia (2º ano de internato) e Cuidados Intensivos Neonatais (4º ano de internato). De tal forma que, mesmo fora dos períodos de estágios, tentei sempre que possível, manter contacto com a Neonatologia e de forma, voluntária, continuava a fazer urgências na maternidade.

Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
A Neonatologia tem a parte boa do RN de termo, muito desejado, que nasce sem qualquer patologia, com boa adaptação à vida extrauterina. Simultaneamente somos chamados a intervir nos RN de termo com patologia com diagnóstico pré-natal (com possibilidade de preparação e planeamento) ou diagnóstico ao nascimento e com necessidade de intervenção e orientação. Acompanha-se também pelo desafio da prematuridade (muitas vezes inesperada) com possibilidade de intervir e ajudar estes pequenitos a sobreviver. Os internamentos dos prematuros são internamentos prolongados, cheios de desafio com as várias complicações da prematuridade, que nos trazem muita satisfação quando conseguimos ajudar.

Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
A equipa da neonatologia da minha maternidade divide o seu trabalho diário, de forma rotativa, em dois internamentos diferentes: enfermaria de puérperas e RN (RN termo saudáveis) e unidade de cuidados intensivos neonatais (RN doente e RN prematuro). Tenho também um período de consulta semanal – consulta de follow-up neurológico – onde seguimos grande prematuros (abaixo das 32S ou PN < 1500gr) e/ou RN termo ou PT com risco de lesão neurológica. Trata-se de uma consulta de Pediatria onde incidimos principalmente nas complicações inerentes à prematuridade e avaliação do desenvolvimento nos 2/3 primeiros anos de vida.
Existem consultas com objetivos diferentes na maternidade. Cada um de nós dedica-se a uma área de interesse – risco psicossocial, infeções congénitas, gémeos, Patologia renal, …

Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Trata-se de um serviço com bom ambiente e espírito de entreajuda e trabalho de equipa entre médicos das diferentes especialidades (neonatologia, obstetrícia e anestesia), médicos internos e enfermeiros. É um bom serviço para se trabalhar diariamente.

Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Fiz tudo cá em Coimbra – Faculdade, Internato do Ano Comum e especialidade de Pediatria. Do ponto de vista de Internato, o Hospital Pediátrico de Coimbra permite uma formação sólida em Pediatria Geral e um contacto precoce com as subespecialidades e patologia rara. Nos primeiros anos de internato, quase que nos perdemos um bocadinho na patologia rara, enquanto ainda estamos a tentar aprender as bases da Pediatria Geral. Do ponto de vista de Neonatologia, durante o internato, as vezes sentimos que “pomos pouco a mão na massa”. Somos muito protegidos principalmente nos prematuros, pela especificidade inerente à reanimação nestes RN. Tudo isso fica diluído após terminar a especialidade e integrando a equipa de Neonatologia, em que os procedimentos sempre que possíveis ficam a nossa cargo para “ganharmos” mão. Sinto que recebi uma boa formação.

Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Existe e é aconselhado. A dificuldade as vezes prende-se com o facto de o serviço ser pequeno e precisar muito de nós para a atividade do dia-a-dia e para a escala de urgência. Eu fiz a formação da Neonatologia na minha maternidade, mas existe sempre a possibilidade de fazer formação / ciclo de estudos especiais em Neonatologia (na totalidade ou numa área em especifica) noutros hospitais.

Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Como expliquei acima tenho uma manhã semanal de consulta e nos restantes dias estou na enfermaria de puérperas e RN ou na UCIN, acompanhado os RN internados (vamos rodando pelos dois internamentos a cada 6 meses). Sou também responsável pela realização de ecografia transfontanelar e ecocardíaca funcional.
Tenho um horário de 40 horas semanais, sendo que pelo menos 12h são de urgência. As nossas urgências começam as 13h da tarde e tem sempre 2 elementos na escala (2 especialistas em neonatologia ou 1 especialista e 1 interno de Pediatria). No horário de urgência passamos a ser responsáveis por todos os RN da maternidade: internados na enfermaria de puérperas e RN e na UCIN e pela sala de partos.
A especialidade de Neonatologia caracteriza-se por alguma imprevisibilidade. A maioria dos partos prematuros são inesperados e nos dias em que nascem prematuros ou RN doentes, podemos passar várias horas seguidas de volta deles (entre entubações, cateterismo, e outros procedimentos mais ou menos invasivos).

Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
A equipa da maternidade onde trabalho é uma equipa com poucos elementos e envelhecida, o que traz vários turnos de urgência… A nível nacional, é o que acontece em muitas maternidades do país – poucos neonatologistas e pouca renovação da equipa. Mas é o que acontece também noutras especialidades médicas e cirúrgicas neste momento.
Até a data, julgo que dá para conciliar com hobbies e a vida pessoal e familiar! Mas é uma especialidade que tem urgências de noite e ao fim-de-semana, ao contrário de outras!

Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Já não sou interna e as minhas respostas referem-se ao período de neonatologia, ou seja, já no pós- internato. Pelo que expliquei acima, trata-se de um serviço pequeno logo bancos de urgência extras. E claro que na fase de formação de Neonatologia, dediquei muitas horas ao serviço. Tinha de tentar aproveitar quando nasciam prematuros e patologias raras para treinar técnicas. Estes casos nem sempre nascem quando estamos no serviço e por isso, às vezes, é preciso estar disponível e ficar de chamada e vir de casa até ganhar treino!

Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
A Neonatologia é uma área muito específica principalmente quando se trata de um prematuro de 24 ou 25 semanas. Quando perceberam o meu interesse mesmo durante o internato, deixaram-me “por a mão na massa”, mas nos maiores. Temos sempre “as costas quentes” e ainda bem quando se trata de meninos tão pequeninos.
Durante o internato, temos de ser treinados enquanto pediatras, a receber RN de termo que precisam de reanimação na sala de partos, orientar as principais patologias do RN e orientar RN PT >32S, estes sim que podem nascer em qualquer hospital (os PT <32S só nascerão em maternidades de apoio perinatal diferenciado). Nestas situações, sinto que recebi uma formação adequada durante o internato. O treino nos prematuros mais pequenos adquiri já enquanto especialista quando me dediquei à área da Neonatologia.

Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
A Neonatologia é já uma subespecialidade da Pediatria. A liberdade não é total. Temos de ser colocados num hospital em que exista interesse na nossa diferenciação nesta área e depois da autorização, concorrer a concursos nacionais para ciclo de estudos especiais.

Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
A subespecialidade de Neonatologia pode ser adquirida por ciclo de estudos especiais ou solicitada equivalência após 2 anos de treino num serviço com apoio perinatal diferenciado depois de entregar CV que será avaliado por um grupo de peritos.

Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
A abordagem da grande prematuridade e do limite da viabilidade é um dos maiores desafios. É o que nos dá também maior gozo no nosso dia-a-dia, principalmente quando corre tudo pelo melhor, mas é a parte sem dúvida mais difícil e desafiante.

Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
O que conseguimos fazer com os avanços da neonatologia…manter e suportar RN prematuros de 24/25 semanas, cada vez com menos sequelas, é sem dúvida um dos aspectos mais importantes e positivos da nossa especialidade!

Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – A carreira médica está “paradinha” em qualquer especialidade neste momento…
Enveredar pela carreira investigacional – A investigação em Portugal é com muito boa vontade de todos nós e nos grandes centros, mas não diria que impossível.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Como neonatologista pode trabalhar no sector público e privado (Lisboa e Porto têm maternidades privadas com unidades de cuidados intensivos que recebem prematuros pelo menos a partir das 32-34S). Pode também fazer consulta de pediatria na privada (somos pediatras na nossa formação de base).

Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Escolheria outra vez por todos os motivos acima apresentados. É um desafio diário, mas muito compensador. Quem gosta de técnica, intensivos, de “por a mão na massa” e pequenitos, gosta de neonatologia!

Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
É preciso gostar de adrenalina. As algoritmos de reanimação e as técnicas treinam-se!

Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
Não se esqueçam que a Neonatologia é uma subespecialidade da Pediatria. Primeiro é preciso ser Pediatra!

Texto redigido com a ajuda da Dra. Muriel Ferreira, Médica Neonatologista

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #8 – Cardiologia

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Cardiologia é uma especialidade com a qual muito me identifico, com a sua componente clínica, de intervenção (seja tecnicamente ou em saúde pública), educação e investigação, acompanhado por uma vontade de querer mais, mas com qualidade.

Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
A primeira vez que considerei realmente a especialidade de Cardiologia foi na aula de apresentação da cadeira de Cardiologia pelo Professor Lino Gonçalves. No seu discurso, o Professor apresentou a cadeira/especialidade como desafiante, inovadora, mas transversal a uma grande população de doentes. Achei mesmo inspirador!

Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
Acho que além de considerar extremamente desafiante, é uma especialidade com imensas áreas de intervenção: cardiologia de intervenção, imagiologia, saúde pública, clínica e investigacional.

Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
Como interno de especialidade, a minha rotina diária envolve o internamento de doentes. No entanto, ao longo dos diferentes estágios, vamos passando no local de realização de ecocardiografia, sala de hemodinâmica, sala de pacemaker, etc.

Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes? 
Como em todos os locais existem colegas de trabalho com mais ou menos disponibilidade para ajudar.

Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Sim. Muito boa! Há especialistas com muita experiência em todas as áreas do internato.

Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim. Todos os internos têm oportunidade de fazer o estágio no estrangeiro, organizado pelo Prof. Lino.

Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sem dúvida! Contudo, é preciso uma boa gestão de tempo. Trabalhar quando é para trabalhar e divertir-me quando é altura para isso. Dito isto, por vezes pode ser mais fácil falar do que realmente colocar isto em prática, mas é algo que se vai ganhando prática.

Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
Em Coimbra, existe uma boa política que protege os internos: não fazemos noites até ao 5º ano, temos urgências extras que não eram pagas até este ano, mas vai ser alterado ainda este ano. A grande alteração é quando se passa para o 5º ano (último ano) e somos considerados já como especialistas. A meu ver existe uma gradual passagem de responsabilidade.

Como interno, como é o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
Ainda me encontro no início do internato para responder pormenorizadamente a esta pergunta.

Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
Acontecem anualmente. Envolve:
● Avaliação curricular
● Realização de colheita de história clínica (2-3 vezes ao longo do internato)
● Avaliação 360 graus (comissão que envolve com o Diretor de Serviço, todos os tutores e o interno mais graduado) onde se discute a nossa performance clínica e investigacional, além da relação interpessoal com os nossos colegas e doentes.

Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
“Curriculite”, constante atualização do conhecimento e alta exigência na publicação de artigos.

Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
Especialidade com grande componente clínica, interventiva e investigacional. Imensas subespecialidades com grande previsão de crescimento. Disponibilidade de trabalhar no setor público e privado.

Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – Atualmente, é muito difícil ficar nos grandes centros hospitalares que formam os novos especialistas de Cardiologia.
Enveredar pela carreira investigacional – Há sempre a opção de realizar investigação clínica. Contudo, algo mais translacional ou básico é necessário o contacto com centros de investigação laboratorial.
Constante inovação científica – Tem havido uma constante inovação na parte da Cardiologia de Intervenção e Imagiologia Cardíaca.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Durante o internato não há muitas oportunidades de trabalhar no sector privado, mas após terminar a especialidade, existem imensas oportunidades.

Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Sem dúvida, adoro o contacto com pessoas tão desafiantes e que querem dar o seu melhor pelo doente, fazer a diferença.

Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sem dúvida é necessário muito estudo e dedicação para esta especialidade. Estudar para prestar excelentes cuidados ao doente em todas as fases da patologia: desde a fase aguda no Serviço de Urgência à reabilitação e otimização da terapêutica crónica e modificadora de prognóstica. Dedicação para se manter atualizado dos mais recentes ensaios clínicos, ao mesmo tempo que se realiza a própria investigação.

Texto redigido com a ajuda do Dr. Gonçalo Costa, Interno de 1º ano da Especialidade de Cardiologia no CHUC

1001 Especialidades: Manual do Estudante Indeciso #7 – Cirurgia Geral

O que significa ser médico desta especialidade? Quais são as principais frentes de ação?
Ser cirurgião é saber resolver a maioria dos problemas, sob pressões, sem ceder. É conseguir abordar todo o doente cirúrgico, não se focando apenas num órgão ou sistema, e conseguir dar apoio a várias especialidades médicas e cirúrgicas. É integrar conhecimentos de vária áreas (cirurgia, oncologia, imagiologia, anatomia patológica, intensivismo, trauma) e gerir o doente da melhor maneira.
A Cirurgia atua em várias frentes, desde o bloco operatório à consulta externa, enfermaria e urgência. É uma especialidade que está presente em todos os Serviços de Urgência do SNS.

Em que momento do seu percurso académico decidiu que tinha interesse em seguir esta especialidade?
Durante o MIM nunca me despertou interesse as cadeiras de cirurgia geral. Tirando Propedêutica Cirúrgica, pela semiologia mas também pela forma pragmática de realizar o exame objetivo. Infelizmente o curso tem pouca prática clínica e tem muitas limitações a demonstrar realmente o que é a Cirurgia Geral. Penso que isso tem vindo a mudar. Foi apenas no Internato do Ano Comum, quando fiz o estágio de Cirurgia e entrei no Bloco Operatório que tive certeza que era o que queria fazer o resto da minha vida.

Quais as principais razões para ter tomado esta escolha? O que mais procurava e entusiasmava nesta decisão?
O que mais me entusiasmou foi a capacidade de resolver um problema ao doente de forma prática. E de ter possibilidade de curar verdadeiramente o doente. Não sei se têm noção, mas há muitas poucas ofertas terapêuticas que têm capacidade de curar. A maioria alivia ou evita a progressão das doenças. A cirurgia pode curar. E depois sabia que não queria uma área que se dedicasse apenas a um órgão ou sistema, mas que tivesse uma grande área de atuação (bloco, enfermaria, urgência) com rotinas diferentes e com possibilidade de fazer diferentes cirurgias, em diferentes áreas do corpo humano. Além disse, sempre gostei da área de trauma, cuja Cirurgia Geral é o grande pilar de abordagem ao politraumatizado.

Quais são os principais locais/serviços onde acontece o seu trabalho diário?
O local mais frequente é o Bloco Operatório. Contudo, durante o internato passamos muito tempo também na Enfermaria. Apesar de para os internos de cirurgia ser “menos agradável” é na enfermaria que podemos observar a recuperação dos nossos doentes e equilibrar medicamente os doentes (sim, distúrbios hidroeletrolíticos, nutrição, infeções respiratórias e urinárias). O cirurgião geral também tem que ser internista.

Como descreveria o ambiente entre médicos internos/médicos especialistas/enfermeiros/doentes nos serviços por onde passa? Como é a entreajuda entre os médicos mais e menos experientes?
Do que diz respeito ao meu internato, ainda não tive possibilidade de sair do CHUC. No meu ano comum, durante o estágio de Cirurgia, como foi feito num hospital distrital, com uma equipa mais pequena, o ambiente era diferente.
Atualmente, o Serviço de Cirurgia Geral do CHUC está dividido em sectores e é um serviço com um corpo clínico enorme. Daí a parte de a relação interpessoal estar mais dissolvida. Contudo, são os internos mais velhos que acabam por ajudar mais os internos mais novos. Na minha experiência foi com os internos mais velhos que aprendi os gestos básicos. Posteriormente, ao longo do internado, vai-se sentindo a ajuda dos especialistas.

Considera que existe idoneidade na maior parte das valências pelas quais passa? Como é a qualidade de ensino?
Dado o campo de atuação da Cirurgia ser enorme, e dada a patologia que abordamos ter uma prevalência grande, penso que a maioria dos hospitais tem capacidade para idoneidade. Os que não têm oferecem possibilidade de colmatar essa falha ao realizar estágios em hospitais centrais. O ensino depende muito do tipo de hospital (distrital vs. central) e das áreas que esse hospital dispõe. No CHUC, por exemplo, não fazemos cirurgia da mama (é a Ginecologia) e raramente cirurgia de patologia venosa ou arterial periférica. Também não temos unidade de Pé Diabético (está ao cargo da Ortopedia e Cir Vascular). Noutros hospitais, sem essas especialidades, acaba por ser a Cirurgia Geral a orientar esses doentes.

Existe, no seu trabalho, a possibilidade de realizar estágios complementares (estrangeiro, formação complementada noutro centro, …)?
Sim. Durante o internato somos incentivados a realizar estágio no estrangeiro. Podemos ter uma área de gosto, mas tem que ser discutido com o orientador de formação e o Diretor de Serviço.

Como descreveria um dia de trabalho nesta especialidade? Como caracteriza o nível de esforço e de dedicação a que é sujeito diariamente, na sua profissão?
Para ser Cirurgião Geral é necessária dedicação. E é necessário saber que alguns dos objetivos de vida pessoal vão passar para segundo plano. O trabalho começa, durante o internato, por orientar a Enfermaria, passar visita, observar e examinar os doentes e alterar as tabelas terapêuticas. Depois temos o bloco operatório central ou periférico (cirurgias mais pequenas sob anestesia local). Em alguns dias não há tempo para almoçar. Temos uma tarde por semana para consulta externa. Geralmente depois do bloco voltamos à enfermaria para terminar as altas que não foram dadas de manhã e para ver os resultados dos exames complementares. Fazemos 12 a 48h de urgência por semana, em turnos de 12h ou 24h, com descanso compensatório no dia seguinte caso seja feita noite ou 24h.

Considera que esta especialidade é capaz de dar uma boa abertura para a existência de hobbies? E relativamente à vida pessoal/familiar?
Sim, é possível. O segredo está em saber gerir o tempo que temos e saber quando precisamos de trabalhar e quando temos tempo para “o resto”. Durante o meu internato continuei a fazer os meus hobbies, embora de forma menos frequente.

Relativamente à carga horária, como considera ser a sua carga de trabalho e como descreve as restantes obrigações (horas de trabalho extra, bancos, …)? Ainda nesta questão, o que varia, ao longo dos anos de internato?
A carga horária é enorme. Há semanas (raras) em que passamos as 80 horas. Fazemos muitas horas extraordinárias de urgência. Temos trabalhos para fazer, bases de dados para completar e artigos para escrever. Isto é transversal em todos os hospitais, em todas as especialidades. Há locais com mais ou menos necessidade de “trabalho extra”. Ao longo do internato aumenta a responsabilidade. As horas de urgência “extra” acabam por ser similares em todos os anos.

Como interno, como é/foi o seu grau de independência nas técnicas e abordagem para com os doentes?
É um fator que se sente ao longo do internato. No final do primeiro ano deveremos ser capazes de colocar acessos venosos centrais ou drenos torácicos sem supervisão. E ainda de realizar pequenas cirurgias (sob anestesia local). Ao longo do internato vamos fazendo cada vez procedimentos mais complexos com ajuda de um cirurgião. Às vezes, em procedimentos mais simples (apendicectomias, abcessos perianais) os internos mais velhos ajudam os mais novos no bloco operatório, com um cirurgião a supervisionar.

Quais as subespecialidades pelas quais se poderá optar? Existe liberdade total para esta escolha? Como acontece o processo?
A vantagem da Cirurgia Geral é a diversidade de áreas nas que podemos diferenciar. Isso depende do tipo de Hospital. Quanto mais central, mais a tendência para subespecialização. A grande maioria dos doentes terá patologia do sistema digestivo; dentro desta, há subespecialidades em cirurgia esofago-gástrica, cirurgia bariátrica, cirurgia hepatobiliopancreática, cirurgia colorretal, transplantação hepática; há ainda cirurgia endócrina (tiróide, paratiróide, suprarrenal); cirurgia da mama; cirurgia de emergência e politraumatizado; e, em alguns hospitais periféricos, pequenos procedimentos de urologia, ginecologia, cirurgia maxilo-facial e cirurgia vascular. Há unidades ainda de Parede Abdominal Complexa e Pé Diabético. O processo dá-se ao longo do internato, depende das oportunidades. Contudo, ao acabarmos o internado, podemos apenas ter vaga num hospital numa determinada área… Portanto, depende muito da oferta de ano para ano.

Como acontecem os momentos de avaliação? Em que período do ano? Qual o grau de dedicação e maiores dificuldades?
No CHUC há um exame anual (geralmente no primeiro trimestre) com júri constituído pelo Diretor e pelo Orientador de Formação. Nos últimos anos realiza-se uma história clínica. Nos outros anos apenas é discussão curricular com perguntas teóricas orais. O estudo deve ser feito ao longo do internato. Contudo, muitas vezes não há tempo para ler todas as guidelines e artigos que são precisos. Nas semanas antes do exame gerimos o tempo de forma a fazê-lo.

Qual diria ser a maior dificuldade que encontra nesta especialidade?
O nível de dedicação e horas de sono em falta.

Quais os principais fatores positivos na sua especialidade?
Autonomia precoce, rotinas diárias diferentes, vários campos de atuação.

Como descreveria a sua especialidade em relação à possibilidade de:
Progressão de carreira – infelizmente, é como em qualquer outra especialidade e os concursos para isso são poucos.
Enveredar pela carreira investigacional – É possível fazer investigação, especialmente num Centro Hospitalar e Universitário, estando ligado à Faculdade respetiva.
Oportunidades de trabalho tanto no setor privado como público – Felizmente também, dada a prevalência da patologia, penso haver sempre lugar para a cirurgia geral no sector privado.

Escolhia novamente esta especialidade? Está a corresponder às expectativas que tinha? Quais foram as principais surpresas?
Sim, sem dúvida. É a melhor especialidade das 50 e tais. Penso que depende de caso para caso, mas integrei-me bem no meu Serviço. O importante é trabalhar e dedicar-se. Há dias menos bons, como em qualquer trabalho. O importante é aprender com isso.

Diria que é necessário mais talento/arte ou, por outro lado, estudo/dedicação para se prosseguir esta especialidade?
Sinceramente, ambos. Há pessoas que não têm destreza para cirurgia. Ninguém nasce ensinado, e muitas das técnicas vão-se aperfeiçoando ao longo dos anos. É importante treinar, ler e estudar antes das intervenções. Não é preciso ter nenhum talento inato para operar, mas há que reconhecer limitações.

Tem alguma consideração importante a fazer que ainda não tenha sido abordada?
A experiência do internato varia de hospital para hospital. O importante é perceber que querem mesmo ser Cirurgiões Gerais. Se for esse o caminho, tudo é mais fácil.

Texto redigido com a ajuda do Dr. João Simões, interno de Cirurgia Geral no CHUC